Se o poder corrompe e atrai os corrompidos, como alguém escreveu, a vida de Jorge Sampaio demonstra que isso não é uma fatalidade. É possível atravessar décadas de exercício de cargos relevantes de mãos limpas e com um desprendimento austero, sem perder convicções, generosidade e firmeza – e foi o que ele fez.

Muita gente recorda uma frase de Sampaio como Presidente da República: “Há mais vida para além do orçamento”. Esta frase resume uma concepção da política contrária à visão salazarenta e contabilista que continua a predominar.

Sem perder o rigor nas contas públicas, Sampaio sabia que os orçamentos são apenas ferramentas para executar uma visão estratégica resultante de uma vontade colectiva.

Vontade que sabia congregar e mobilizar, como fez na Câmara de Lisboa, à frente de uma coligação de esquerda que construiu com grande mérito. De um legado muito rico, destaco a transparência, o rigor e o planeamento estratégico como trabalho pioneiro.

Infelizmente, boa parte deste legado foi desmantelado por sucessivas presidências, do PS e do PSD, prejudicando a relação entre eleitores e eleitos e agravando desconfianças sobre a grande máquina burocrática da autarquia lisboeta.

Além da elegância quase britânica de trato e do grande respeito pelos adversários, Sampaio foi capaz de lutar até ao fim sem se deixar endurecer. Tinha a coragem das suas emoções, que assumia sem hipocrisia nem ostentação. Também nisto foi um exemplo raro e precioso, uma lição de vida que todos lhe ficamos a dever.


*Helena Roseta foi vereadora da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Habitação entre 2009 e 2013 e Presidente da Assembleia Municipal. Dirigiu o primeiro Programa Local de Habitaçãoe lançou o Programa BIP-ZIP. Fundou o movimento Cidadãos por Lisboa que concorre coligado com o PS à CML.

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