José Barbosa/CML

Na Baixa de Lisboa, no lugar dito “das pedras negras”, junto ao Largo da Madalena, encontra-se um sólido edifício de antes do grande terremoto, com umas lápides romanas incrustadas na sua fachada lateral.

Numa delas, vinda provavelmente de um templo dedicado a Cibele, mãe dos deuses e símbolo da fertilidade, há cerca de dois mil anos alguém esculpiu felicitas julia olisipo. A cidade de Olisipo situava-se não só num local fértil, como era, apesar do seu posicionamento periférico, um importante municipium romano (homenageando Júlio César). E seria também, pelo menos no nome, uma cidade feliz.

Excerto do livro Lisboa em Metamorfose, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, lançado hoje, na Feira do Livro, às 17:00

Um pouco ao lado, está hoje um restaurante japonês com um quadro alegórico adaptado dos famosos biombos nanban dos séculos xvi e xvii — dos quais alguns magníficos exemplares se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga, mostrando a chegada das naus do país do sol poente ao país do sol nascente. Este biombo neomoderno mostra agora não uma nau, mas um avião da TAP, a chegar a uma Lisboa vibrante e cheia de gente.

Nas imediações do restaurante, até há pouco tempo (as mudanças têm sido intensas), podíamos encontrar uma associação cultural moçambicana, uma loja de artesanato com figurado de Barcelos e de Estremoz, uma cervejaria de beirões com as melhores sandes de leitão da cidade e um sumo chamado SLB, muitos hotéis, vários restaurantes de comida portuguesa, indiana, brasileira ou mesmo peruana, uma chapelaria fina, uma loja de produtos açorianos e uma loja de conservas de peixe, embrulhadas à mão, uma a uma.

Podemos fazer um retrato igualmente colorido, embora com naturais diferenças nas cores e intensidades, em ruas de Alcântara, de Arroios ou de Benfica. Bem como na Amadora,
em Cascais, em Almada ou no Barreiro. Com assentamentos urbanos desde há pelo menos três mil anos, a cidade mais ocidental da Europa é actualmente uma grande metrópole com
cerca de três milhões de habitantes, uma rica diversidade social e um intenso dinamismo económico e cultural.

Lisboa é povoada desde o neolítico e com muitas ocupações sobrepostas. Todos os povos e migrantes, as mais variegadas gentes que esta centralidade regional, nacional, imperial, e hoje global, foi absorvendo. E expelindo.

Lisboa tem um lugar relevante na história mundial e um capital simbólico de amplo reconhecimento em todo o planeta. É a segunda capital mais antiga da Europa, logo após Atenas. Foi centro político de um império colonial durante cinco séculos. É hoje uma das capitais da União Europeia. Nela pulsa um tecido económico relativamente variado, com forças e fragilidades que reflectem a sua história. Aqui encontram-se as principais estruturas do poder político e administrativo de um país muito antigo, bem como algumas instituições e organismos internacionais de considerável relevo.

Mas Lisboa é também nesta cidade semicentral e semiperiférica que existe muita pobreza, muita solidão, muitas vulnerabilidades. E não apenas nas suas periferias mais distantes — embora nestas, nas ultraperiferias dentro da própria metrópole, os biombos sejam muito menos artísticos.

Neste lugar das pedras negras, à noite, como seguramente há dois mil anos, encontram-se e refugiam-se muitas pessoas sem abrigo. As redes de solidariedade distribuem comida e algum conforto. Aqui, como em muitos outros locais deste vasto corpo que, entretanto, cresceu de forma desmesurada, as diferenças de rendimento e de oportunidades entre gente que dorme quase lado a lado, podem ser multiplicadas por cinco, dez, vinte vezes. A região de Lisboa é também a região mais desigual de um dos países mais desiguais da Europa.

Paradoxos muito activos, neste sítio sublime e de localização global. O sítio é sublime. Na obra Geografia, escrita há dois mil anos atrás, Estrabão descreve os confins ocidentais da Europa: «e chega-se a um lugar protegido, ameno, com dois estuários.» Não havendo dúvidas de que um dos estuários é o do Tejo, o outro deverá ser o do Sado, mas também a Várzea de Loures, outrora um vasto esteiro.

Seja como for, estamos perante uma extraordinária riqueza geográfica e paisagística. Um excelente clima, um amplo e rico estuário com múltiplos esteiros e baías — «uma enseada amena», como lhe chamaram os fenícios, ou «o pequeno Mediterrâneo», como sugeriu Almeida Garrett — umas colinas salientes e protectoras, um vastíssimo e fértil hinterland moldado pela madura hidrografia do maior rio da Ibéria.

E, em frente, o imenso mar.

Escreveu Orlando Ribeiro no seu famoso livro Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (sexta edição revista e ampliada de 1991): «No horizonte da cidade, duas montanhas que se vêem uma à outra encerram a escala destas combinações: Sintra, envolta em névoas e afofada de arvoredos frondosos, rica de águas e de sombras musgosas, é uma recorrência do Norte; a Arrábida, nos campos de calcário, no soberbo matagal mediterrâneo, na serenidade das águas onde a serra se despenha quase a pique, um fragmento de riviera isolado à beira do Atlântico. A própria capital é uma cidade tipicamente mediterrânea, combinando, no seu sítio genético, a acrópole, a colina mais isolada e a mais próxima do grande abrigo litoral.»

O poderoso Carlos V terá dito que, se tivesse Lisboa, seria rei do mundo.

Aqui se desenvolverá uma cidade importante para a história da humanidade. Povoada desde o neolítico e com muitas ocupações sobrepostas: iberos e celtas, fenícios e cartagineses, romanos e visigodos, árabes e berberes, europeus, africanos, americanos, asiáticos. Todos os povos e migrantes, as mais variegadas gentes que esta centralidade regional, nacional, imperial, e hoje global, foi absorvendo. E expelindo.

Sendo o sítio sublime, a localização é global. Mesmo quando, paradoxalmente, é periferia, como bem explicou Teresa Barata Salgueiro ao detalhar as mudanças que se foram sucedendo ao longo do tempo no valor e nas representações da sua posição. Com um porto amplo e seguro, numa posição estratégica entre o Mediterrâneo e o Atlântico, bem como entre a Europa e todo o mundo, Lisboa crescerá como cidade marítima e entreposto comercial, com interligações cada vez mais vastas e cada vez mais desdobradas no espaço e no tempo.

Torna-se capital do reino em 1255, pouco após a conquista do Algarve e a realização das primeiras cortes com representantes dos concelhos. Com a expansão europeia, que avança de forma decisiva por este lugar de interface, e com a estratégica instalação da corte real no terreiro em frente ao rio, a cidade, que durante dois milénios havia sido relevante, mas de forma alguma actor principal dos palcos político-económicos, irá transformar-se de forma profunda, com um misto de algum desconforto e de um gosto mal disfarçado, como sempre sucede nos momentos de mudança, de tensão e de absorção entre o local e o global.

Consolida-se como centro político de um país que funde o Estado com a nação. E torna-se no epicentro metropolitano de um vasto império colonial. Uma recente exposição sobre a Lisboa do Renascimento intitulava-a como «cidade global» ou a Nova Iorque do século xvi, sendo a Rua Nova dos Mercadores descrita como a Quinta Avenida da época.

O poderoso Carlos V terá dito que, se tivesse Lisboa, seria rei do mundo. O seu filho Filipe II acalentou essa perspectiva, mas seria persuadido pelas influências de Madrid e de Sevilha. O grande painel que se encontra no Museu do Azulejo, de cerca de 1700, representa uma vasta cidade, estendida da Madredeus aos Jerónimos, uma das maiores do mundo de então.

Uma cidade que cresceu bastante, não sem hesitações ou mesmo retrocessos. Num estado de tensão constante, como lugar de intercâmbios globais e com uma considerável diversidade social, mas também como centro de controlo, de repressão e de inquisição. Povoada por locais, rurais, e migrantes de várias partes do mundo; que foram entretecendo relações, entre distâncias e proximidades. Ou, como hoje se diz, relações multiculturais.

Lisboa é hoje, uma cidade consideravelmente cosmopolita e cimeira em áreas como a produção cultural ou como destino turístico, mas com pouco poder geopolítico global e relevantes fragilidades sociais e económicas.

Este singular percurso, a par da constante tensão entre elementos díspares com os quais se alimenta, fará de Lisboa uma cidade dual, ou mesmo bipolar — entre centro e periferia, entre o país e o mundo, entre local e global. Uma cidade dominante do seu entorno geográfico e do próprio país, mas também com elevados padrões de fragmentação territorial.

Uma cidade capital de uma nação antiga e centro de um império, mas também cais de embarque para destinos muito distantes, e periférica face à sua própria civilização europeia. E hoje, uma cidade consideravelmente cosmopolita e mesmo cimeira em áreas como a produção cultural ou como destino turístico, mas com pouco poder geopolítico global e relevantes fragilidades sociais e económicas.

Uma dualidade também expressa na difícil conciliação entre a sua condição de cidade — ou condição urbana — e a sua condição de capital — ou condição política. Com evidentes reflexos na sua compreensão, bem como na sua governação.

Tomando assim esta cidade milenar, para muitos, uma personalidade consideravelmente ambígua. Como escreveu Teolinda Gersão em A Cidade de Ulisses, «uma cidade construída pelo nosso olhar, que não tinha de coincidir com a que existia.»


*Excerto do livro Lisboa em Metamorfose, lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, de João Seixas, geógrafo e professor da FCSH-UNL (membro do Conselho Editorial da Mensagem)

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