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1.

Um objecto pequeno no meio de grandes objectos. É o pequeno que se evidencia. É por isso que reparamos nas vivendas rodeadas de prédios e nos perguntamos o que testemunharam. Antes, cada grande construção parecia-nos um milagre humano, mas agora é a sobrevivência de cada pequena que nos parece um enorme feito.

2.

A minha casa é grande para o preço que é; pequena para as minhas necessidades. Não confundir necessidades com possibilidades. 

3.

A minha filha recomeçou a escola. Mudou de sala, mudou de professora. Os colegas são os mesmos mas estão todos um pouco diferentes. Ela também. Está mais crescida. Não fez anos, sabe isso, mas repete muitas vezes que está mais crescida. Os sinais estão lá: já não faz a sesta, já faz colagens sozinha. 

O que ela vê não é tanto o que ela cresceu mas como, de certa forma, diminuiu a escala entre ela e os outros. 

Será assim para o resto da vida: vamo-nos aproximando daqueles que estão à frente, percorrendo os mesmos passos, cometendo os mesmos erros, fazendo as mesmas promessas de correcção. 

4. 

O livro que estou a ler fala da relação entre mãe e filha, fala de crescer, fala de envelhecer. Descreve com detalhe um universo que desapareceu – como desaparecem todos os universos de todas as infâncias -, de uma comunidade de classe trabalhadora, maioritariamente judia, pobre mas cheia de consciência política, conhecendo a sua história. 

Também descreve os percursos quotidianos que a autora, a escritora americana Vivian Gornick, e a mãe dela, fazem a pé nas grandes avenidas de Nova Iorque, sem ser claro se é a mãe que ainda guia a filha ou se é a filha que começou a guiar a mãe. Uma das coisas que mais me chama a atenção – nesses percursos pelas avenidas com a diferença de escala entre a arquitectura e as pessoas que caracteriza Nova Iorque – é que elas encontram constantemente pessoas. Encontram velhos amigos e reconhecem-nos apesar de eles estarem transformados pelo tempo; cruzam-se com desconhecidos com quem sabem terem-se cruzado anteriormente. Permanentemente, reconhecem outros numa cidade como aquela. 

O livro chama-se “Fierce Attachments”, que poderia ser traduzido por qualquer coisa como “ligações ferozes”, e faz-me pensar na maneira como ficamos agarrados não só às cidades mas a certos percursos: aqueles em que sabemos que vamos encontrar alguém e aqueles em que temos esperança de não encontrar ninguém. 

5. 

Um mistério que ainda ninguém me desvendou: porque é que, se antigamente as pessoas eram mais pequenas, os tectos eram tão altos? (Ou dito de outra maneira: porque é que sendo as pessoas mais altas se constroem hoje tectos tão baixos?)

Outro mistério: porque é que, se as pessoas viviam com a possibilidade de morrer mais depressa, mais cedo, mais inesperadamente, e tudo era mais efémero, construía-se tanto para o futuro? 

Não é que fique a contemplar estas questões quando à noite deito as crianças e olho para a enorme estrutura pombalina de madeira, no meio do quarto delas, que sobrevive do século XIX, mas há um paradoxo evidente no facto de não ter ideia se alguma vez terei uma casa para o resto da vida. 

6.

Quando se fala das virtudes de Lisboa, diz-se que é uma cidade com uma escala humana. Mas todas as pessoas procuram a escala humana dentro do espaço que lhes é dado viver. 

Em Londres, lembro-me de passar meses sem mudar de percursos. Procurava construir a minha cidade no meu bairro. Criar um lugar onde podia encontrar pessoas na rua. Isto não foi logo assim que cheguei a Londres, mas algum tempo depois de me cansar da euforia do anonimato da grande cidade. 

O bairro, então, tinha tudo à minha escala: as lojinhas, os cafés onde podia trabalhar, os pequenos restaurantes, as conversas de circunstância com os empregados do costume, uma certa fauna que já conhecia de vista, e pequenas queixas de que afinal também aquela cidade era pequena. 

7.

Outras evidências de problemas de escala: a força do bebé Yoda.

Em casa estamos a ver em família o The Mandalorian, a série do universo Star Wars, e eu gosto de pensar que os miúdos estão a reparar nas óbvias diferenças de forças (física, mental, moral, financeira) e de como estas nos surpreendem constantemente. 

8.

Houve uma altura em que regularmente ouvia as pessoas mais insuspeitas conversarem sobre o que fariam se ganhassem o Euromilhões. Grandes viagens, casarões novos em lugares magníficos, ou, numa versão mais filantrópica e menos culpada, fundações para ajudar quem precisa. Nunca ninguém falava sobre o que faria se tivesse apenas um pouco mais de dinheiro, uma diferença muito pouca, nada que mude a vida radicalmente, nada que faça sonhar. Essa era a escala do dia-a-dia e há alturas em que parece que é mesmo essa que nos escapa. A grande mansão parece estar mais ao alcance – por um golpe de sorte, do destino – do que um apartamento com mais um quarto. Também penso nisto quando deito as crianças. Uma em cima da outra num beliche. A terceira numa pequena cama na qual, em breve, vai deixar de caber. 

9. 

Vistas de um arranha-céus ou vistas de uma colina, todas as cidades são iguais, transformam-se num desenho em que só os ícones mais fortes sobrevivem. À noite, também, a iluminação está feita para sublinhar algumas coisas e outras não, e é preciso alguma teimosia para procurar com o olhar os pontos menos iluminados.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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2 Comentários

  1. Bravo, Susana! Com certeza há grandes histórias, entretanto só as pequenas merecem ser contadas.

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