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Tenho um amigo que está para morrer há vinte anos. Disse-lhe o médico e as análises, glicose, triglicerídeos, colesterol, a mulher entre solavancos e esforço inútil, ladeando-lhe o corpo nu com as pernas, em lingerie acetinada, disse-lhe o gerente do banco durante a febre de comprar o Porsche, motor elétrico de 367cv, autonomia de 200 km, asseverou-lhe o barman no Old Vic, enchendo o terceiro copo de Jameson, sem gelo, três pingos de água, premeditou a filha, junto ao projetista da casa, que lhe foi concedida por testamento, garantiu-lhe o chefe, perante a incapacidade de amestrar o teclado.

Como não morreu, reformou-se. Uma tragédia semelhante, mas isenta da possibilidade de paraíso. Alegrou-se, ao menos, por não ter de calçar o único par de sapatos digno de defunto que mantinha no armário e lhe apertava os pés.

O meu amigo tinha um ritual lento de manhã. Fechava-se na casa de banho com a cadela, aparava as patilhas e encerava o cabelo, penteando-o para trás. O resto do dia era passado a deixar rasto por qualquer cadeirão onde se sentasse. Saía com uma lista de afazeres no bolso que nunca cumpria e voltava a casa com quatro carcaças para os netos que não chegavam a aparecer.

Com o animal pela trela, dava cinco voltas ao Panorâmico de Monsanto, observando-lhe a imponente decrepitude. O edifício circular baixou-lhe o colesterol para os 210.  No início, fazia-o pelo exercício, uma forma de acertar na resposta quando o médico lhe perguntava se andava a fazer desporto. Depois, percebeu que o lugar se tornara um aconchego. Os vidros partidos, as fissuras nas paredes, um novo graffiti a disfarçar a sujidade, como maquilhagem em rostos muito velhos. Sentia-se bem por ali.

O Panorâmico de Monsanto foi escritório, hotel, discoteca, centro de treino para cães e até labirinto para festas infantis. Depois, foi votado ao abandono, apenas frequentado por turistas, curiosos ou exploradores urbanos – e pelo meu amigo e a sua cadela. Li entretanto num jornal que o edifício ganhou uma nova vida, mantém-se devoluto e degradado, mas revive como miradouro. Chamam-lhe a melhor varanda de Lisboa, tem – de quando em vez – programação cultural, mas o cheiro a urina é o mesmo.

Deixei de estar com o meu amigo, recebendo notícias perdulárias e contraditórias sobre intervenções cirúrgicas, incontinência, cruzeiros e centros de cuidados paliativos na linha, com vista para o mar. Duvidei quando me contaram que o tinham visto na igreja. Ele não é dos que assinam o contrato com a fé quando a ocasião exige garantias de vida eterna. 

Tenho um amigo que está para morrer há vinte anos e dei-lhe um abraço, ontem, depois do virar de uma esquina. Na carteira não levava as fotos dos netos, não trazia pendente o saco das carcaças das crianças ou uma lista de recados na algibeira. Continuava devoluto e degradado, mas revivia (talvez mantendo um leve odor a urina). Ombreava com a página de um catálogo de moda esloveno, alta e sorridente, entre o batimento de pestanas.

– Então?, perguntei.
– Não morri.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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