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O sotaque não engana. Denuncia de imediato a língua dos filmes de Fellini ou de Antonioni. Está mais do que entranhado nas vozes de Luciano e Duc, que dão os seus nomes à única gelataria artesanal de Campolide, um ponto azul encolhido numa esquina. “Não falamos muito bem português, todos os dias aprendemos um pouco”, explicam os dois entre gargalhadas.

Sim, a LucDuc nasceu em Lisboa e alimenta, todos os dias, a gulodice dos lisboetas. Porém, as suas origens estão em Vicenza, cidade no norte de Itália, onde toda a história começa. Esqueçam Verona, que viu Julieta debruçada sobre uma varanda para contemplar o seu Romeu. Reza a lenda que Shakespeare se inspirou nos dois castelos de Montecchio Maggiore, em Vicenza, para escrever a sua mais famosa peça de teatro.

E foi precisamente neste pequeno ponto da bota europeia que um pequeno Luciano, hoje com 60 anos, aprendeu o ofício da pastelaria com a mãe. Das longas tardes a observá-la, ficou a antiga receita do tiramisu – também este criado nas proximidades de Vicenza – que viria a ganhar formas na cozinha da LucDuc. “Quando a minha mãe cozinhava, eu estava sempre ali a ver, era uma paixão”, conta.

Duc e Luciano começaram a sonhar em Vicenza com a gelataria que viriam a fundar em Campolide, em 2017. Foto: Rita Ansone

Com o passar dos anos, Luciano poria a sua paixão (e a curiosidade de criança) de lado. Os doces seriam trocados pelo trabalho numa multinacional e as receitas da mãe guardadas numa gaveta – só de lá sairiam para um ocasional jantar de família ou amigos. Foi algures nesse tempo, de início de carreira, que conheceu Duc, hoje com 57 anos, a trabalhar no escritório técnico de uma empresa, mas que também herdara o gosto da culinária da mãe, natural do Vietname, uma cozinheira especialista quer no receituário italiano, quer no vietnamita.

A partir daí, os jantares de família e amigos passaram a ser organizados por Luc e Duc em conjunto. No entanto, nem isso seria suficiente para os dois sonhadores. A passagem do tempo fez crescer neles o cansaço de uma vida vivida pela metade. A pergunta, “se não agora, quando?”, perseguia-os, relembrando-os dos tempos áureos de infância.  Foi então que, em 2016, finalmente, começaram a dar os primeiros passos em direção à mudança…

De Vicenza para Lisboa

A nova jornada começa com Duc a trabalhar gratuitamente numa gelataria de Vicenza, onde aprendeu a produzir gelado artesanal, ganhando assim um fascínio pelos sabores e as texturas. Ao mesmo tempo, Luc aproveitava as viagens de trabalho para procurar o lugar ideal para realizar o seu sonho…

Encontrou-o em Lisboa. “Lisboa parece uma capital, mas também uma cidade de província”, descreve Luciano, que percorreu a sua calçada, investigando o mercado de gelados na cidade. A Baixa, tumultuosa, com o movimento incessante dos turistas, não o atraiu. Depressa percebeu que queria abrir uma gelataria num bairro lisboeta. “A ideia era termos clientes fidelizados”, elucida. E foi com essa ideia em mente que Duc deixou Vicenza e embarcou para Portugal, sem nunca antes ter pisado solo lisboeta. “O Duc confiou na minha proposta”, ri-se Luc.

Com os dois em Lisboa, a busca continuou, desta vez para encontrarem um espaço livre para a gelataria. E ali estava ele: o lugar perfeito, numa pequena esquina, no bairro de Campolide. “Aqui, há uma convivência social muito agradável”, comenta Duc, que se sentiu imediatamente acolhido pela comunidade. “Neste bairro, há muita mistura, pessoas com mentalidades muito diferentes”, acrescenta.

De facto, o bairro pulsa com energias bem distintas: basta contemplar as suas ruas para nos apercebermos disso. Pessoas de todas as idades e estratos sociais atravessam as portas da LucDuc, procurando nos seus sabores um momento de evasão. Foram, aliás, estes clientes de todos os dias – as personagens de Campolide – que permitiram a sobrevivência da LucDuc durante a pandemia. “Temos de agradecer aos clientes fidelizados, que continuaram a aparecer”, avalia Duc. Mal a gelataria abriu depois do primeiro confinamento, os clientes habituais regressaram em força. “As pessoas lembraram-se de nós, foi bom esse sentimento”, diz Luciano.

O laboratório de LucDuc

Há quatro anos, Luc e Duc instalaram-se num cruzamento de Lisboa e deram vida às suas receitas de gelado originais, muito diferentes das receitas das comuns gelatarias. “O trabalho numa gelataria artesanal segue uma tradição”, clarifica Duc, “Uma gelataria artesanal tem de ter um laboratório e uma zona de venda”.

“Podemos comparar fazer gelado com o trabalho de um químico”, afirma Duc, olhando para a vitrine colorida como para o resultado de uma experiência científica, meticulosamente planeada ao microscópio. “O que importa é a cremosidade, a textura, o sabor. Para criar a nossa receita, equilibramos os valores nutricionais de cada ingrediente que usamos: o valor de açúcar, da proteína e da gordura”, explicita.

Esta é também uma das grandes diferenças entre as gelatarias artesanais e as normais: “Para as gelatarias não artesanais, há saquetas já preparadas de gelado, é só pôr na máquina”, continua o italiano. Já nas gelatarias artesanais, há a criação de toda uma receita.

Foto: Rita Ansone

E são as receitas de Duc, sonhadas, experimentadas e só então aprovadas por Luc (que trata mais da parte administrativa da gelataria), que brilham na vitrine. De um lado, as opções de leite e natas. Do outro, as opções vegan, de fruta, conseguidas com produtos naturais, providenciados por um fornecedor do Alentejo.

Para os mais lambareiros, não falta escolha: pavlova, oreo, snickers, cheesecake, amaretti com gianduia e vinho do porto ou o clássico chocolate (“sem leite, só cacau amargo”, aponta Luciano). Para os amantes de fruta, recomenda-se a ameixa preta e o limão com manjericão. Ou então, há sempre a possibilidade dos bolos (do cheesecake, ao bolo de maçã e ao tiramisu) ou até mesmo dos crepes…

Hoje, já nenhum lisboeta dos arredores conseguiria imaginar Campolide sem a avelã crocante ou o caramelo salgado. E isto não só pelo festim de sabores, mas também pela presença e amizade de Luc e Duc, duas figuras incontornáveis deste bairro.


* Ana da Cunha nasceu no Porto, há 24 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna

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4 Comentários

  1. A esquina mais doce e saborosa do nosso Bairro. Bem hajam por estarem perto de nós, no nosso Bairro, Campolide.

  2. É com prazer que me desloco propositadamente de Paço de Arcos a Campolide, sempre que posso, para saborear um verdadeiro gelado artesanal e trazer uma caixa de gelado para casa. Vale mesmo a pena experimentar os gelados da LucDuc e ver a diferença que faz um produto de qualidade e verdadeiro.

  3. São meus vizinhos, e é um prazer saborear os seus gelados, e desfrutar da sua simpatia.

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