O fim de tarde é sereno e solarengo junto à Biblioteca de São Lázaro, em Arroios. Ao ruído dos carros, que passam ocasionalmente, sobrepõem-se os sons das vozes cúmplices, dos berbequins e dos miúdos a jogar à bola. Nasce em Lisboa o segundo jardim de árvores de fruto do projeto “Mãos à Terra”. O primeiro, construído em abril, foi um jardim vertical junto ao Mercado de Sapadores.

A Associação Regador, que organiza este plantio que quer continuar Lisboa fora, foi criada em plena pandemia de covid-19, em junho de 2020. A necessidade de construir comunidades mais próximas foi reforçada com os dois longos confinamentos, assim como todos os valores que sustentam a Associação: o incentivo ao abrandamento do ritmo de vida, a alteração dos padrões de consumo, a valorização do tempo passado em família e em comunidade. E, como consequência, a partilha de conhecimento, recursos e histórias, para criar comunidades mais sustentáveis.

Criar jardins pelos bairros da cidade, unindo comunidades e famílias em torno do plantio, e incentivar a que outros façam o mesmo é o que o “Mãos na Terra” se propõe a fazer, carregando os valores base da Regador. E porque um deles é precisamente a sustentabilidade, todos os canteiros (projetados e construídos pela Associação) são feitos a partir de madeira reaproveitada de paletes. Depois, são montados no local com a ajuda de assistentes operacionais da Junta de Freguesia correspondente. Associação, Juntas de Freguesia e cidadãos estão em articulação durante todo o processo. Estes, podem estar a par da criação de novos jardins através da página da Regador.

Maria Freitas, 39 anos, e Paulo Torres, de 38, são dois dos membros da Associação. Para Paulo, a necessidade de mais convívio e a vontade de construir algo de positivo para a cidade foram os catalisadores. Para Maria, uma das principais motivações foi a de criar uma rede e uma comunidade em que o filho pudesse crescer e ser educado de acordo com valores mais sustentáveis.

Tecer essa rede afetiva numa grande cidade como Lisboa faz que o tempo fora do trabalho, ocupado com as atividades da Associação, seja tempo ganho em família e, garantem, tempo de melhor qualidade. “Qualquer pessoa pode fazer o que nós fazemos: deitar mãos à terra e fazer um jardim. Queremos encorajar todos a fazer mais no dia a dia, a criarem jardins, plantarem a própria comida, fazerem brinquedos (e tantas outras coisas) em vez de os comprarem. Independentemente da profissão”, afirma Maria, defendendo que todos podemos ocupar mais as horas livres exercendo uma cidadania ativa.  

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Maria Vouga, uma das moradoras do bairro, juntou-se à iniciativa da Regador e pôs as mãos na terra. Vídeo de Rita Velez Madeira

Todos os que se vão reunindo ao final da tarde junto à Biblioteca de São Lázaro são a prova de que é possível. São jovens casais, na sua maioria, e trazem os filhos para um momento de convívio e plantio. Depois de construídos, os canteiros recebem terra e as crianças e os pais preparam-se finalmente para plantar as árvores de fruto.

Os miúdos, que por ali passarão para ir à Escola Básica nº1 de Lisboa ou à Biblioteca, vão ver crescer kiwis, maracujás, frutos silvestres, pera-melão e uma videira que se entrelaçará na grade que separa o jardim do campo de futebol vizinho. Este pequeno pomar emadeirado no meio da cidade ficará ao cuidado da comunidade, com a ajuda da Junta de Freguesia de Arroios e da Associação Regador, que poderá colher os seus frutos.

Unir a família e abrandar o ritmo: a plantar ou a criar brinquedos

“A Associação Regador nasceu de um grupo de vizinhos e amigos que se apaixonou pela ideia de andar mais devagar, devagarinho”, conta Maria. E é precisamente esse o nome do projeto que se somou ao “Mãos na Terra”: “Devagar, devagarinho”. São os dois projetos que mais cresceram pelas mãos da Regador até agora.  

Nas oficinas abertas à população, as crianças vão desenhar os seus próprios brinquedos e construí-los, com a ajuda dos pais. Assim que a situação sanitária o permitir, querem começá-las. Para já, Paulo e Daniel Nascimento ocupam o tempo livre a criar brinquedos em madeira e encaminham-nos para a loja Uraja, na Penha de França, como forma de angariar fundos para a Associação.  

“Queremos trazer para a cidade trabalhos que são mais comuns em aldeias. Produzimos de forma sustentável e temos tempo de qualidade em família”, diz Paulo Torres. Além disso, desfazem o binómio produtor-consumidor e aproximam as crianças dos trabalhos manuais.

O Festival Regador, que a Associação está a projetar para o último trimestre do ano, é um consumar da criação de jardins pela cidade. O seu propósito é reunir a população para construir um jardim enquanto o Festival decorre.

Sob o mesmo mote de reunir as pessoas à volta do plantio, planeiam também a criação de uma horta comunitária no Alto da Eira, na Penha de França. O terreno foi cedido pela Junta de Freguesia da Penha de França e terá a particularidade de não ter talhões divididos, mas antes comunitários, de todos para todos.

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Os adultos ensinam os mais novos a plantar um jardim. Vídeo de Rita Velez Madeira

À medida que a tarde cai, arrumam-se os materiais, regam-se as plantas, brinca-se, conversa-se. A missão foi cumprida.

Criar comunidades, ocupar de forma positiva o espaço público, dar ênfase aos trabalhos manuais, promover a cidadania ativa: são estas premissas que percorrem os vários projetos que a Associação Regador tem levado a cabo e prepara para este ano, ao ritmo que a pandemia permite. Mas não quer fazê-lo sozinha. Quer ser apenas a semente para uma mobilização maior.

“A Regador tem de ser só o início para que isto aconteça”, diz Maria. Além da Associação, estarão os vizinhos e amigos que, por Lisboa fora, nos seus bairros, poderão juntar-se a novos plantios ou organizá-los de raiz. No caminho, constroem-se comunidades mais próximas, onde os rostos vão ganhando nomes.


*Rita Velez Madeira nasceu em Évora, aprendeu a fazer casa nas viagens de comboio entre as duas cidades, com vontade de escutar e contar histórias, de viver nesse lugar de fronteira que há entre nós e o Outro. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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3 Comentários

  1. Ideia maravilhosa! Execução fantástica!
    É assim que se constroi cidadania.
    Parabéns ao Regador e a todos os que se lhe juntam!

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