1.

O momento do voo da ave em que parece que está parada no ar. Esse é o momento mais bonito do voo. O momento em que parece que não houve bater de asas, que não houve esforço, que não houve sequer aprendizagem. É preciso primeiro movimento, acção, para depois ficar imóvel.

Penso nisso quando regresso de uma caminhada. É nesse momento que parece que não é apenas o corpo que para, mas todo o mundo com ele.

2.

Algumas pessoas conseguem essa comunhão com as coisas a correr. Outras conseguem a andar, como os escritores que fizeram das caminhadas nas suas cidades os mapas nos quais assentam, mais ou menos decalcados, os seus livros. Outras ainda, têm que estar completamente paradas, sentindo a velocidade do mundo em redor, escolhendo não participar, preferindo observar.

3.

A arte da imobilidade é também a arte da escuta. Um jornalista aprende isso rapidamente. O bom jornalista não é aquele que corre da rua para a redação, é aquele que tem tempo para ficar parado. Ficar um pouco mais de tempo do que estava previsto. Ficar depois de toda a gente ir embora. É aí que as pessoas começam a dizer o que realmente importa. Quando pensam que já ninguém está muito interessado.

4.

Fui jornalista em Londres durante bastante tempo. Foi a única cidade onde vivi e trabalhei durante um período longo. Mas também passei tempo em Nova Iorque e em Amesterdão. Em Luanda e em Cartagena de Índias. Escrevi desde Belfast e de Zurique.

Lisboa, onde vivo há cerca de 20 anos com algumas interrupções, continua a ser um dos lugares mais difíceis para trabalhar. Nunca tenho a certeza de conhecer, não a cidade, mas as suas pessoas. Nunca são bem daqui. E mesmo quando são, hesitam. Embora não duvidem que não há cidade tão bela como Lisboa, hesitam nas descrições, nas escolhas dos lugares, como se a cidade estivesse todos os dias a construir-se dentro delas. Nunca sei se vão concordar em falar comigo.

5.

Albert Cossery, o escritor egípcio-francês, falou muito da importância da relação entre a preguiça e a escrita ou a arte. Famosamente, Cossery publicou poucos livros. Mas talvez durante todo o tempo sem publicar estivesse a produzir trabalho. Esse trabalho que só aparentemente é invisível, sem o qual nenhum outro trabalho existiria.

Sem a preguiça, não haveria interesses. Sem parar para ler quando não se deve, não se descobriria certos textos. Sem decidir ir dar uma volta em vez de ficar sentado à secretária, não se passaria por certa rua, sem sucumbir e ir tomar um café ou um copo com os amigos, largando o trabalho, não se ficaria a observar a cidade que passa.

Não sei se a filosofia de vida de Albert Cossery nascia da experiência dos cafés em Paris, com as pessoas animadas em conversas, mas sem nunca deixarem de reparar nas belas mulheres ou nos belos homens que passam; ou se partia da imobilidade dos homens jovens nas ruas do Cairo, encostados às sombras dos muros, à espera de que a vida comece verdadeiramente, quando se façam mesmo adultos, quando arranjem um emprego, quando tenham uma mulher, quando façam filhos.

6.

Falar sem dizer nada. Dizer tudo e não querer, no final, confessar o nome. Trabalhar com a fala é trabalhar com a ideia de que as pessoas têm uma identidade no mundo e de que é importante o papel que ocupam na cidade. Quando alguém pára para falar com elas, elas são obrigadas a parar também. Algumas dizem que não e seguem o seu caminho. Outras concordam em parar e é inevitável repararem onde estão, perguntarem-se porque foram elas paradas e não outros, pensar que histórias é que não se atreveriam a contar e quais sempre acharam que deviam ser ouvidas, como grandes escritores com livros na gaveta.

7.

Uma espécie de efeito óptico que começa a meio de Julho e se arrasta por Agosto: a cidade, ao ficar vazia, dá a ilusão de que está parada, e de que a passagem do tempo se transferiu para outro lugar.

8.

Ainda me lembro do tempo em que Lisboa parecia estar sempre igual. Uma pessoa ia viajar, voltava, e era como se nunca tivesse saído do sítio. Era como se se percorresse não só aqueles quilómetros de regresso mas também se regressasse aquelas semanas ou aqueles meses. Às vezes, duvidava-se de que aquele outro tempo tivesse mesmo existido. E a viagem parecia ainda mais mágica, única, intransmissível.

Esse era o canto de sereia da cidade e também aquele ao qual eu sempre tentava fugir.

Sentadas às mesas dos cafés, as pessoas conversavam tendo a certeza de que estavam na periferia do mundo e de que ninguém as escutava. Se éramos nós que estavamos parados, não eram os outros que nos olhavam.

9.

O termo “preguiça” está cheio de preconceitos, de conotações bíblicas, de memórias escolares. Prefiro a expressão “não fazer nada”. Tento pensar na última vez que me sentei sem fazer nada. Sem ter o computador à frente. Nem o telemóvel. Sem sequer levar um livro. Numa esplanada no parque. Numa esplanada na calçada. Num miradouro. Num lugar de onde medir a distância não para a outra margem, mas entre mim e as coisas muito próximas.

10.

Uma ave apenas aparentemente está parada no ar. A ave observa o terreno. Aproveita o vento. Parar é começar novamente: a próxima acção, a próxima presa, o próximo mergulho, a próxima migração, o próximo pouso num telhado de onde se possa voltar a levantar voo.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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2 Comentários

  1. Não levará a mal, estou certo, o meu devaneio. Ao ler o texto sobre o momento do voo da ave, veio-me à memória umas linhas que, parece-me, eram ditas num programa de telefonia há bastante tempo (não me lembro qual nem quando, pode ser que algum leitor saiba). Percebi hoje que eram de José Craveirinha:

    O preconceito da ave
    não é o tamanho das suas asas nem o ramo em que poisou
    Mas a beleza do seu canto
    a largueza do seu voo…
    o tiro que a matou.

  2. Caro JdB,
    Muito obrigada por partilhar esse excerto do José Craveirinha. Muito bonito.

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