O regresso de Carlota a casa.

Não fosse a coleira cor-de-rosa e talvez os visitantes do Museu Arqueológico do Carmo tomassem Carlota por um gato idolatrado no Antigo Egipto. Aos 3 anos de idade, porte médio e pelo preto e branco, esta gata passeia-se pelas várias secções do museu com o à vontade de quem está em casa e sabe receber as visitas com charme felino.

Secção do Calcolítico ibérico? Ali está ela, qual guia certificada, como se conhecesse os segredos destes artefactos fabricados há mais de 5000 anos. Ou como se tratasse por tu a Epigrafia romana, as múmias pré-colombianas e, claro está, tudo o que respeita ao Egipto dos faraós, essa civilização que tinha o bom gosto de tratar os gatos como deuses.

Na semana passada, a Carlota pregou um grande susto à equipa do museu: desapareceu. O facto em si não é inédito já que, senhora de grande curiosidade, gosta de esticar as patas pelo Largo do Carmo. Mas, desta vez, as horas passavam sem que Carlota respondesse aos chamamentos do pessoal do Museu.

Quem passou na Baixa e Chiado na última semana, se esteve com atenção, reparou nas folhas A4 afixadas e postes e caixas de eletricidade – pedindo a quem a encontrasse, ao jeito de “desapareceu de casa dos seus familiares”, que desse informações. Só que a casa era o Museu Arqueológico do Carmo.

A história, ao contrário de tantas outras do género, acabou bem. Cristina Macedo, a dona do telefone no anúncio, explica que Carlota foi encontrada, bem de saúde e sem mostras de arrependimento, pelos militares da Guarda Nacional Republicana, no quartel vizinho do Museu. Tinha decidido mudar de poiso, para mais contemporânea história – alojando-se por uns dias no quartel da GNR.

Os outros gatos de um Museu urbano

Carlota não é a primeira gata do Museu do Carmo. E tal como os outros gatos, também não é “alfacinha de gema”. Com perto de dois meses, veio da escavação que a equipa de arqueólogos do Museu mantém em Vila Nova de São Pedro, no concelho da Azambuja. “Era muito pequena e insinuou-se junto do nosso diretor, o arqueólogo José Morais Arnaud, que a acabou por a trazer”, conta Cristina Macedo.

Semelhante achado revelar-se-ia precioso já que, como se pode ver na página do facebook do Museu, Carlota soube tornar-se uma relações públicas muito eficiente: são muitas as fotos do Museu em que aparece.

Antes dela, havia já Nuno, agora mais recolhido devido à idade avançada e à saúde debilitada. “Mas chegámos a ter visitantes nacionais e estrangeiros que, ao voltarem a Lisboa, vinham cá de propósito para o reverem”.

Assim nomeado em homenagem ao fundador da Igreja do Carmo, D. Nuno Álvares Pereira, e Carlota são os membros mais recentes de uma longa linhagem, ainda que sem brasão, de felinos que têm vindo a habitar o Museu.

Noutros anos, e fazendo juz ao gosto medieval pela arte da falcoaria, uma família de falcões chegou a nidificar aqui mas a pandemia e o confinamento parecem ter alterado também os hábitos dos animais.

Em homenagem ambos os felinos há mesmo uma colecção de pregadeiras à venda na loja do Museu.

Um museu antigo que vale a pena

Seja ou não sensível à sedução de Carlota, quem passa pelo centro da cidade tem tudo a ganhar com uma visita demorada ao Museu Arqueológico do Carmo. Instalado nas ruínas da Igreja erguida por vontade do Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, em 1389, evoca um monumento que, rezam as crónicas da época, rivalizava em monumentalidade com a Sé de Lisboa e com o Convento de São Francisco.

Quase totalmente destruída pelo terramoto de 1755 e ameaçada de abandono total após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, a Igreja (ou o que resta dela) parece ter sido salva da destruição total quando, na segunda metade do século XIX, a então designada Associação dos Arquitectos Civis Portugueses (mais tarde Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses) a escolheu para sede.

Daí nasceu o primeiro museu de arte e arqueologia do país, com o objetivo expresso de salvaguardar o património nacional, fortemente delapidado na primeira metade do século XIX na sequência das invasões francesas e das guerras liberais. 

Muito eclética, a colecção atual do Museu reúne milhares de peças, desde a Pré-História à América pré-colombiana, sem esquecer os vestígios dessa Lisboa medieval que conheceu os tempos de esplendor desta mesma igreja do Carmo. Mas se, por acaso, no decurso da sua visita, for abordado por uma gata de coleira cor-de-rosa, não hesite em cumprimentá-la. Não é o fantasma de um gato de tempos faraónicos.

É a Carlota, em pleno serviço de relações públicas, a mostrar que há vida no museu.

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7 Comentários

  1. “a então designada Associação dos Arquitectos Civis Portugueses” já não existe? Não acredito que agora possa chamar-se “(mais tarde Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses)”.
    Gostei da história! Para a autora, Parabéns e para a Carlota vão dois “jaquinzinhos”.

  2. Não haverá, nesta zona da cidade, ser humano mais desprezado, necessitado e esquecido por TODOS ? Basta largar o horizonte para a ESSÊNCIA !

  3. Gosto de gatos. Tive três agora tenho uma. E sim são uns animais extraordinários. Alguns com histórias complicadas de sobrevivência. Coisa que está da cronica não tem para contar mas convenhamos que deve ter uma personalidade forte, pois discretos como os gatos são adaptar-se a um espaço onde entram pessoas muito diferentes todos os dias não é para qualquer um.

  4. Parabéns a todos que sabem o que é o respeito, pela arte, pela vida, pela natureza… A Carlota ser guardiã de um espaço tão nobre, cuidada e amada por os humanos que a ele e a ela se dedicam, é um exemplo para todos. Bem hajam.

  5. Os gatos nunca se perdem. Os gatos vão é dar uma voltinha quando lhes apetece!
    Deixem a Carlota viver!

  6. Muitas festinhas às Carlota e ao Nuno.
    Os bichos serão melhores que o Humano.Sempre!

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