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O meu primeiro encontro com o Fernando foi na antiga Feira Popular. Ele parecia uma criança agarrado ao pau do algodão doce e baixou os olhos quando o meu pai encostou o velho Ford para eu me apear. O Fernando encarava de peito cheio o esqueleto do comboio fantasma e gozava o prato com o nervosismo do motociclista do poço da morte.

(Vertigens tenho eu em cima do andaime, dizia.)  

Mas não era capaz de suportar o sobrolho franzido do meu velho de quem pensa “andei a criar uma filha para a entregar a um gabiru das obras”.

O Fernando acertava pouco nas palavras, mas acertava sempre no centro dos alvos da barraca dos tirinhos.

(Escolhe um boneco, Deolinda, escolhe um boneco, boneca.)

À conta da pontaria do Fernando, tenho duas cristaleiras repletas de bricabraque poeirento, são, pelo menos, duas horas de limpeza todos os meses. Alguns prémios já se partiram como acontece com os corações.

O Fernando era respeitador, nunca se aproveitou da escuridão da casa de terror e do meu medo. Atirava piropos às senhoras com a mesma disciplina com que preenchia os intervalos dos tijolos como betume. Os piropos eram requisito de profissão.

(De outra forma, sou mal visto pelos rapazes, Deolinda. Nenhuma é tão bonita como tu, Deolinda.)

Uma noite o Fernando levou-me à Feira Popular e cheirava à água-de-colónia da drogaria da Avenida de Roma, comprada com os biscates nas obras do alargamento da linha do metro. Eu gostava da água-de-colónia do Fernando, mas preferia o cheiro a fritos da roulotte dos churros. Ainda achava que a vida poderia ser assim: crocante por fora e com um recheio calórico e enjoativo. 

O pedido de casamento do Fernando apanhou-me com as mandíbulas enterradas na massa e o creme de ovo a rebordar o sorriso. Eu queria, mas tinha de perguntar à família e à cigana. O meu pai foi contra, a cigana viu dois televisores a cores, um na cozinha para assistirmos à novela ao jantar, e nós marcámos a Igreja. Os muros altos da antiga Feira Popular atraíam-me como o pedido de casamento do Fernando. Tudo era expectativa que o olhar não alcançava.   

A vida ficou como a casa dos espelhos. Éramos maiores no reflexo do que na coragem.  O Fernando, que sempre conseguiu fiado nos carrinhos de choque – pagávamos uma e dávamos duas ou três voltas de graça -, não repetia o truque no supermercado do bairro. Depois de lhe cortarem os fins-de-semana, deixaram de nos dar fiado. O velho Ford do pai encostou para eu entrar. O Fernando, no passeio, agarrado ao televisor a cores com o olhar baixo parecia uma criança.    

Voltei à antiga Feira Popular, mas só encontrei tapumes. As luzes dos carrocéis apagaram-se. Os terrenos foram a hasta pública, alguém deu um balúrdio pelo futuro. Pagamos sempre de mais pelo futuro. Um empreendimento megalómano que saiu embargado. Os grandes planos costumam sair embargados. Terão feito achados arqueológicos no local e as escavações pararam. Fui à Câmara perguntar se não seriam as ruínas do meu amor com o Fernando que por lá ficaram enterradas.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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3 Comentários

  1. Minha querida Filipa, uma pequena nota com a melhor das intenções:
    O teu texto leva-nos de volta a um tempo de Feira Popular que situarei, sem esforço e com alguma abrangência, aí pelos últimos anos do século XX. Ora, não sei quando entrou no léxico comum o termo “churro”. Diria que a expressão chegou cá, salvo melhor opinião, depois do encerramento do recinto de Entrecampos, donde será anacrónica no contexto. É que não me lembro mesmo de “churros” antes disso.
    “Farturas” sempre tivemos.
    Um beijinho!

  2. A nota vai para o Alexandre, e os churros… Churros havia, mas eram apenas crocantes. Crocantes e fininhos, e não recheados. Chamam-lhes churritos agora, nas feiras. Havia uma loja na Caparica, na Rua dos Pescadores, que os fazia lindamente. Lembro-me de, em miúda, ir com meus pais e irmãos para os mares da Caparica. Abríamos a época em Junho, e aos fins de semana la estávamos. Praia do Rei, se o sol brilhava, Mata dos Medos com as neblinas matinais. E à tarde, a voltar a Lisboa, o pedido ao meu pai: “Vamos comprar churros?” Ia o mano mais velho, enquanto ficávamos no carro à espera… Que bem sabiam aqueles churros da minha infância!

  3. Caro R. Alexandre e Cara Teresa,
    Eu tenho a ideia de que comi churros com recheio de chocolate na Feira Popular (a minha irmã preferia doce de ovo), mas como diz o Manoel de Barros ‘90% do que escrevo é invenção, apenas dez por cento é mentira’. Obrigada por lerem

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