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Embora fosse miúdo no final dos anos 1980, lembro-me de ser normal as pessoas voltarem de uma viagem a uma capital europeia e dizerem: “Gostei muito de Londres, não vês um cão abandonado na rua, aqui em Lisboa estão por todo o lado, as pessoas não têm respeito nenhum”.

As cidades mudavam, mas a frase parecia teimar em ser proferida uma e outra vez por quem de lá voltava. Lembro-me também de um anúncio que passava na TV, em que um senhor de voz pesarosa pedia para não abandonarmos os nossos amigos de quatro patas, quando íamos de férias. No reclame, podíamos ver interações entre animais, uns à beira da estrada, outros de garras ao volante, rumo ao calor do sul.

Movido por um sentimento de injustiça e empatia para com os que ficavam na beira da estrada, percorria as ruas da Quinta da Luz com os restos das torradas e das tostas mistas que recolhia nas esplanadas do bairro. Não tinha de procurar muito naquela época para encontrar algum cão ou gato vadios.

Saí de casa ontem para passear e é verdade que já não vemos animais de caudas felpudas nem orelhas no ar a cirandar sem os seus humanos a supervisionar. Contudo, tive a sensação de me cruzar com o mesmo olhar de cão abandonado que tanto me marcou no tal reclame dos anos 1990. Fiquei parado numa esquina ali ao pé do Campo dos Mártires da Pátria e decidi observar o fluxo de animais racionais que passavam por mim. Foi então que percebi que o olhar de cão abandonado se tinha transferido para a maioria das pessoas que se cruzavam comigo na esquina.

Talvez não esteja muito longe da verdade se afirmar que cada um de nós, com toda a complexidade de emoções e vivências que nos constituem, temos em comum o facto de conhecermos uma ou várias pessoas que se queixam constantemente. Virão à memória aqueles nossos amigos, familiares, colegas de trabalho ou simples conhecidos que passam pela vida com o tal ar de cão abandonado cravado nos seus rostos.

Acredito que muitas destas pessoas nem sequer se apercebam da metamorfose. Os músculos da cara ficam mais pesados, o olho fica aberto a meia haste e apenas não fecha por completo porque elas ainda reclamam por um bilhete de primeira fila para verem a miséria e desilusão que pairam à sua frente. A boca começa a ficar distorcida, os cantos empenam para baixo, demonstrando a antítese de um sorriso. Os ombros descaem e o peito recolhe. Os sapatos passam a raspar a calçada em vez de se apoiarem vigorosamente com o calcanhar primeiro.

Mesmo depois de completada a metamorfose, estes indivíduos tendem a não se aperceberem que passaram a ser cães abandonados, conseguindo inclusive o paradoxo de reclamarem de outros como eles. O queixume faz sentir a sua presença e entope todo e qualquer canal que os pudessem levar à clarividência.

O dia é um conjunto de horas malditas e cruéis para estas pessoas e, como é obvio, elas não se abstêm de murmurar visualmente a pesada cruz que carregam, a cada interação que têm. São por vezes detalhes subtis que as identificam, e digo subtis porque provavelmente a metamorfose ainda se encontra num estado embrionário da sua evolução.

Senão vejamos, todos já nos cruzámos fugazmente com pessoas conhecidas pela rua, que eventualmente nos saúdam assim:

– Olá, tudo bem?

A resposta pode ser um simples “Olá”; pode ser um mero “Tudo bem”; pode até ser a devolução da própria pergunta “Olá, tudo bem?”. O cão abandonado vai responder:

– Nhé, tenho obras em casa…

– Nhé, fui buscar o carro à revisão e só está pronto amanhã à tarde, afinal….”

– Nhé, o meu Flipper roeu o comando da televisão…

– Nhé, com este tempo nunca sabemos que roupa levar vestida…

O interlocutor fica muitas vezes atónito, pode até não conseguir responder de todo e, quando isso acontece, o cão volta a rosnar e passa a compor o ramalhete:

– Ainda por cima estou sem empregada em casa porque diz que está doente…

– E, sabes lá, vou ser promovido, mas o escritório novo fica muito mais longe, vou ter de trocar de linha de metro…

– Para melhorar as coisas, tenho o esquentador avariado e lá vão mais oitenta e tal euros de arranjo…

Não são bem problemas, é a vida, mas a verdade é que tudo isto faz parte do plano do cão abandonado para atingir o gáudio do seu dia, ou indo até mais longe, a razão da sua existência, que é quando o interlocutor, depois de manietado e manipulado, não tem outra saída se não dizer:

– Caramba, mas que grande chatice!

Não é suficiente. O cão abandonado sente o sangue melhor do que um tubarão na água e sabe que pode agora desferir o golpe fatal:

– Como se não bastasse, acho que estou a começar com dor ciática…

Puxa do ás de espadas e evoca uma aparente moléstia física para liquidar o interlocutor e, finalmente, receber a tão desejada piedade!

–  Eh! Coitado!

A palavra que o cão abandonado mais gosta de ouvir, aliás a segunda palavra que mais gosta de ouvir. A primeira é esse tão satisfatório:

– Coitadinho!

Eu tive uma sorte enorme na minha vida. Tive o privilégio de ser educado pelo “Homem que nunca se queixou”. Este super-herói dos tempos modernos é o meu pai e é talvez também o seu pai, pode até ser a sua avó ou até o seu irmão, mas vou ser egoísta por breves momentos e pensar no “Homem que nunca se queixou” como o meu pai.

Peço que façam vocês também o mesmo exercício e pensem no herói mudo das vossas vidas. O ser humano simples do vosso dia a dia que apenas diz que a laranja é azeda para que possam escolher uma pera ou um pêssego mais doce. A pessoa para quem um esquentador avariado vai proporcionar um diferente banho frio, que até fará enrijecer os ossos. A pessoa que, quando perde, diz que perder é um dos resultados do jogo e que por vezes aprendes mais com a derrota do que com a vitória. O ser humano que quando bebe uma garrafa de vinho contigo, faz parecer que nada mais no mundo importa. O ser humano que desarma e desperta o cão abandonado ao dizer:

– Não te rales. Estou aqui para te ajudar!

O “Homem que nunca se queixou” não é um cantor conhecido, não é um atleta, não é um escritor galardoado e certamente não é um político. É uma pessoa comum, como eu e tu, que normalmente gosta pouco de dar nas vistas.

Os superpoderes deste herói são menos espetaculares do que aqueles que lemos nos livros ou vemos no cinema. O superpoder do “Homem que nunca se queixou” é um só: fazer os nossos dias melhores.

No mundo atual, fértil em pandemias, tiranias, cães abandonados e outras bizarrias, respire fundo e procure a pessoa positiva mais perto de si, converse com ela e tenha a humildade de aprender um pouco que seja. São precisos mais super-heróis e a esquina do Campo de Mártires da Pátria agradece.


*João Santos Pereira vive entre o Mediterrâneo e a sua querida Lisboa. Fingiu estudar em vários sítios, de onde até um Mestrado em Gestão Desportiva surgiu, mas sempre aprendeu mais com as pessoas do que com o ensino estabelecido. Viaja pelo mundo, a pé sempre que pode, o mesmo aplica na cidade das sete colinas. Gosta de beber vinho tinto e de jogar à bola, acompanhado por gentes de falas várias, sempre que possível. Dedica posteriormente o seu tempo a escrever as aventuras que daí advêm.

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1 Comentário

  1. Na verdade o teu pai era como o descreves. Não se queixava e tinha sempre uma atitude positiva tanto para ti como para todos. Que saudades tenho dele, da voz, da paz que transmitia , da paciência, enfim não há palavras que possam descrever o Melhor Homem do Mundo .
    Continua a escrever querido João. Gosto muitíssimo do que escreves. É escrito com alma. Obrigada. Beijinhos meu querido.

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