Uma das mais importantes histórias que nos chegou da Antiguidade é aquela que conta as proezas de Ulisses a aventurar-se pelo Mediterrâneo, esse mar que era o mar de todas as rotas, rumo a sua casa e ao encontro de si mesmo.

De certa forma, somos todos esse herói universal, que tanto inspirou a matriz da cultura e civilização europeias. Estariam os poetas de outrora cientes do impacto que iriam causar em cantar essas histórias dominadas por deuses e leviatãs, pelo canto demónico das sereias e por criaturas que assombraram a memória primordial da Humanidade? 

A história da Odisseia estará entre as primeiras que aprendi, mas recordo-me de uma história anterior a essa que se chamava Ali Babá e os 40 Ladrões. Ao ouvir a minha mãe a desabafar que estes tempos de pandemia pareciam uma sucessão ininterrupta de Abre-te Sésamo e Fecha-te, Sésamo, surgiu-me a lembrança do livro ilustrado infantil que me revelou esse conto.

Ela cresceu com essas referências, próxima da herança cultural das Mil e Uma Noites. Não cresceu apenas com as histórias populares de Sherazade, escutou muitas outras transmitidas oralmente na pequena vila montanhosa onde cresceu, onde não faltavam indivíduos que passavam histórias de geração em geração, mesmo sem dominarem o alfabeto.

É curioso que a contadora de histórias mais famosa do mundo árabe seja uma mulher. Sherazade nem sempre foi compreendida ou apreciada, especialmente nestes tempos. Algumas feministas árabes rebelaram-se contra ela, considerada um símbolo da opressão patriarcal.

A escritora libanesa Joumanna Haddad libertou grande parte da sua raiva contra essa figura lendária na obra Eu Matei Sherazade: Confissões de uma Mulher Árabe em Fúria (editora Sibila), onde afirma a possibilidade de emancipação da mulher árabe, independentemente da política e religião.

Mas não sei se posso culpar Sherazade por ser um produto do seu tempo e por representar algo maior do que ela. Imagino como seria a Sherazade transplantada para os dias de hoje. Continuaria a lutar pela sua vida perante o poderio dos homens, assumindo outras formas de resistência na atualidade? Consigo facilmente imaginá-la como uma pessoa dedicada ao ativismo, rumando de porto em porto, de cidade em cidade, a recordar-nos que o mundo é ainda um lugar repleto de maravilhas e das mais belas viagens e paixões, numa titânica luta contra a fragilidade da vida.

Na verdade, é bem possível que a Sherazade de hoje fosse uma vítima de guerra, forçada a deslocar-se para longe da violência, provavelmente uma refugiada. Ela iria recordar-nos que o Mediterrâneo já não é um lugar tão bonito como outrora com as suas ilhas, costas e escarpas. É cada vez mais uma fronteira entre a vida e a morte, e nas suas águas lançam-se muitos daqueles que escapam de uma existência condenada.

Sherazade não consegue escapar à sua condição de mulher árabe, leva essa condição consigo para todo o lado, como todas as suas irmãs. E para a mulher árabe que vive no Ocidente, conjugar e harmonizar as suas várias identidades por vezes pode ser tão complexo como o jogo de sobrevivência que é disputado em As Mil e Uma Noites.

Enquanto eu aprendia a língua árabe na mesquita de Lisboa em criança, ia à escola rodeada de colegas católicos a frequentarem a catequese. É um papel repleto de solidão. Sim, crescer em Lisboa enquanto pertencente a uma família árabe foi solitário que chegue, como se fôssemos pessoas de um outro mundo, mas crescer como uma mulher árabe foi ainda mais desafiante.

Vicissitudes de crescer numa cidade incrivelmente homogénea e fechada (só muitos anos depois me apercebi da pesada herança colonial), o que é irónico tendo em conta que, durante mais de oito séculos, os árabes, e a comunidade que formaram, foram uma presença importante em Lisboa.

Dessa presença restam muitas lendas mouriscas, e assim voltamos ao ponto de partida desta crónica: aos contadores de histórias. Os mesmos que contam que Lisboa foi fundada por Ulisses na sua viagem de regresso a casa e a Penélope, após a guerra de Troia. Essa é uma história digna de ser deixada para outra noite. E assim Sherazade viu luzir a manhã, e calou-se discretamente.


Safaa Dib

Enquanto luso-libanesa, vive entre duas culturas desde que se lembra, mas Lisboa é onde assentou o coração. Desde muito cedo ingressou no mundo da edição de livros e divulgação literária. Nunca pessoa de se restringir a uma área só, é proprietária de um estabelecimento de cozinha libanesa em Lisboa, a Casa dos Cedros, e, nos últimos anos, ingressou na atividade política, sendo dirigente do LIVRE.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. Como foi belo ler esta crónica: de amor, de perseverança, de luta, enfim! Felicito a autora que, além do que refere sobre o Mediterrâneo e das histórias de Sherazade – cativantes – me fez lembrar a cultura árabe tão presente na cultura da Península Ibérica. E reflectir sobre os males destas lutas religiosas. Obrigado.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *