Foto: Rita Velez Madeira

Telheiras já é um bairro? Com espírito de bairro, vizinhos que se conhecem, e atividades comuns? Na calma organizada do seu urbanismo, tem sido assim, em Telheiras, desde os anos 1980. Jovens casais, maioritariamente médicos, professores universitários e advogados, que compraram as casas de iniciativa municipal, traçaram o perfil de uma população que se mostrou interventiva e participativa desde sempre. E é o que se pretende que continue a acontecer no renovado Lagar da Quinta de S. Vicente, espaço central de Telheiras para eventos e atividades, cercado por um amplo jardim que será, ainda este ano, o ponto de encontro de uma iniciativa que pretende usar a economia circular para fomentar esse espírito.

São oficinas mensais de reparações, sim reparação de aparelhos, roupa, pequenos eletrodomésticos, bicicletas, e também em aconselhamento energético e Comunidades de Energia.

“O Recoopera não é um serviço. Não vou lá para alguém me reparar um determinado produto. A ideia é as pessoas partilharem conhecimento, ensinarem-se e aprenderem até conseguirem fazer por elas próprias e transmitir a outras”, explica Luís Keel Pereira, 34 anos, coordenador da Parceria Local de Telheiras.

O ReCoopera é um projeto comunitário de economia circular a implementar em Telheiras que acaba de vencer o Orçamento Participativo. Foto: Rita Velez Madeira.

As oficinas são o eixo do ReCoopera, um projeto comunitário organizado pelos moradores de Telheiras, para a população de Lisboa, que tem ao todo 36 copromotores e acaba de vencer o Orçamento Participativo. Mas poderá ir além disso, através de uma programação adjacente de workshops e eventos culturais, mais focados na população local. Existirá ainda uma articulação entre as oficinas e as entidades do bairro para que os objetos reparados que já não sejam necessários possam ser doados.

Ao envolver as pessoas em todo o processo de reparação, estas não só contribuem para a reutilização dos produtos e ganham novas competências, como aprofundam os laços com outros moradores. O objetivo é criar uma rede de entreajuda que vá além dos encontros mensais.

O sonho: ter um bairro de Telheiras onde se partilhe energia

A Parceria Local de Telheiras foi criada em 2013 por Luís e por um colega, Filipe Matos, para ser uma rede agregadora das muitas entidades, associações e organizações públicas do bairro que, à época, não estavam articuladas e em diálogo. Mas revelar-se-ia o motor que faltava para a criação de uma rede mais vasta de colaborações que envolveria também a população, aproximando-a do poder local. Um bairro, portanto.

Depois de pôr as entidades em contacto, faltava uma plataforma de comunicação local que instigasse o envolvimento dos moradores. Dos vizinhos, para que se sentissem mesmo vizinhos. Para isso, criaram a “Viver Telheiras”. Primeiro usando um site e o Facebook, mais tarde criando também uma Newsletter e uma página de Instagram, para chegar a todos.

Mas faltava, ainda, uma plataforma que potenciasse a participação direta e individual dos moradores. Com esse objetivo criaram o “Ideias em Rede”: uma rede de grupos de trabalho criados em função das ideias e propostas dos residentes e através dos quais estes podem concretizá-las, com a ajuda da Parceria Local.

Assim, residentes, associações, entidades e Junta de Freguesia cooperam para a criação de um bairro melhor para todos.

Miguel Macias Sequeira, 28 anos, é um exemplo disso. Engenheiro do Ambiente e membro do grupo de trabalho Telheiras Sustentável, responsável pela implementação do ReCoopera, sempre viveu em Telheiras e já era comum participar no Festival de Telheiras ou em workshops de poupança energética. Assim que soube do surgimento desta iniciativa focada na sua área de interesse, decidiu dar o passo em frente, colocando o seu conhecimento ao serviço da comunidade.

Se o ReCoopera tem como missão primeira criar uma comunidade, um dos seus principais focos é a sustentabilidade. Por isso, as oficinas mensais serão também um espaço para aconselhamento sobre medidas de eficiência energética, como renovar um edifício ou montar painéis fotovoltaicos em casa, “ler” as faturas de energia ou avaliar as ofertas dos fornecedores.

“Eventualmente avançar aqui também com um conceito novo que são as Comunidades de Energia, que já existe em muitos países, mas em Portugal está a demorar um bocado a arrancar”, diz Miguel. Estas Comunidades de Energia consistem na venda ou partilha de energia excedente com vizinhos ou até em ter painéis solares comunitários, nomeadamente nas escolas, aumentando os benefícios económicos, ambientais e sociais.

Banco de ferramentas e apadrinhar canteiros

O ReCoopera resultou de sugestões apresentadas no Telheiras em Movimento, em setembro de 2020. E continuou a aproximar moradores mesmo durante os dois longos confinamentos. “Foi um balão de ar para muitas pessoas que participaram. E agora, havendo condições, surgem imensas ideias para serem implementadas ao mesmo tempo”, conta Luís Keel Pereira.

Além do ReCoopera, está a ser criado o Centro de Partilha de Recursos, um banco de ferramentas e produtos da comunidade, desde berbequins a máquinas de costura, telas para projetores ou kits reutilizáveis para festas de anos.  Moradores e entidades podem fazer a requisição mediante uma cota anual de 12 euros. Está também a avançar um projeto de apadrinhamento de canteiros pela população do bairro, inspirado pela revolução de um jardim em Alvalade.

A Junta de Freguesia do Lumiar já está a identificar os canteiros abandonados.

Mas há mais. Um outro grupo de trabalho está a preparar-se para construir casinhas para pássaros e abrigos para polinizadores e morcegos e sinalizá-los pelo bairro. Chama-se “Telheiras Biodiversa” e tem parceria com a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e com a Liga para a Proteção da Natureza (LPN).

Os workshops arrancam em julho, abertos a toda a população e mais tarde, em outubro, vão ser dirigidos a grupos específicos, como crianças e idosos.

“A ideia é fazer um percurso pelo bairro com as casinhas e os abrigos que criámos. Vai ter placas a explicar o que é o projeto e quem é que fez. Depois no site teremos a informação mais técnica e o roteiro registado”, explica Luís. “De uma ideia tão simples como ‘nós gostamos de pássaros e queremos dar-lhes casinhas’ surgiu todo um projeto com a população”, diz Luís

Um bairro marcado pela cidadania ativa

Logo em 1988, no início da ocupação do bairro, foi fundada a ARTE, Associação de Residentes de Telheiras, onde Luís cresceu a ver os pais participarem, como sócios, seguindo-lhes os passos e tornando-se ele próprio membro direção da Associação, mais tarde.

“Ainda me lembro de ver um boletim da ARTE dos anos 80, em que eles tinham falado com a Câmara por causa de um rebanho que atravessava uma zona do bairro e comia o que estava nos canteiros”, diz Luís, entre cumprimentos às vizinhas, como a dona Alice, que, sentada num dos bancos que percorrem o longo corredor do jardim central, avisa que vai de férias.

Mas foi também essencial um trabalho de muitos anos no terreno. À ARTE somaram-se outras associações e entidades locais que fizeram um trabalho intenso de dinamização da comunidade nas últimas décadas.

O envolvimento direto das pessoas é essencial para a mobilização: “Ajudou muito que as ideias debatidas tivessem sido propostas diretamente pelas pessoas. Foram ideias de todos, do bairro. Não eram da Parceria, eram da população, o que fez com que mais pessoas votassem e disseminassem a votação pelas suas redes”, diz Luís. No grupo de trabalho Telheiras Sustentável, as ideias para melhorar a qualidade de vida no bairro foram debatidas e votadas por mais de 300 pessoas.

Usar eventos de rua, como aconteceu no “Ideias em Rede”, em setembro de 2020, foi também uma chave para uma maior participação dos moradores. “Temos vindo a aprender a não separar as coisas, a aproveitar os momentos de vida em comunidade. O diálogo é mais informal e descontraído. Houve até uma sessão pública que foi organizada num café onde costumam passar os jogos de futebol”, conta Luís.

Miguel e Luís têm trabalhado para a aproximação e colaboração da comunidade com o poder local, que consideram essencial. Foto: Rita Velez Madeira

De projeto em projeto, têm quebrado a cortina de ferro que para alguns ainda parece impor-se entre a população e o poder local, mostrando que a reivindicação e a participação são possíveis e desejáveis. Para Luís, é importante desmistificar esse acesso ao poder local.

“Eu próprio quanto comecei tinha 26 anos, era um miúdo nestas coisas. E de repente estava a gerir reuniões com pessoas da Câmara e da Junta. No início, achava aquilo um mundo distante, mas a verdade é que depois sentamo-nos à mesma mesa, começamos a conversar e vemos que há pontos em comum”, conta.

Um projeto piloto em direção a um futuro mais sustentável

O grupo de trabalho Telheiras Sustentável está integrado num grupo internacional, Municipalities in Transition, sendo um dos projetos piloto para testar uma nova metodologia de aproximação da sociedade civil ao poder local, para a promoção da sustentabilidade.

O financiamento do MiT permitiu-lhes, entre 2018 e 2020, implementar o projeto Alfacinha Saudável:criação de hortas pedagógicas em cinco escolas diferentes e no Centro Comunitário, com formação certificada para professores e técnicos do Centro.

Os outros financiamentos gerais para a Parceria Local passaram pelo programa Cidadania Ativa, através de Fundos Europeus geridos pela Fundação Calouste Gulbenkian via EEA Grants, receitas do Festival de Telheiras e de um subsídio regular da Junta de Freguesia para dinamização comunitária. A isto pode acrescer, como na candidatura ao Orçamento Participativo para a implementação do ReCoopera, a procura de financiamentos mais elevados para projetos específicos.

Ao ReCoopera somam-se assim vários projetos que encaminham Telheiras para tornar-se um bairro mais sustentável, com uma comunidade mais coesa e onde a população tem, cada vez mais, uma voz.

*Rita Velez Madeira nasceu em Évora, aprendeu a fazer casa nas viagens de comboio entre as duas cidades, com vontade de escutar e contar histórias, de viver nesse lugar de fronteira que há entre nós e o Outro. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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3 Comentários

  1. Pena é que façam, ainda, propaganda a “pinchagens” completamente indigentes que tornam uma Cidade, um Bairro, um local num espaço indigente, sem estética, nem lei ! Já não se usa, infelizmente, o termo feíssimo !

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