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D.H.Lawrence deitou Lady Chatterley nos prados de Wragby com o amante; Eça escavou a Toca de Carlos da Maia e Maria Eduarda na Quinta dos Olivais, onde se chegava pacientemente de charrete para desagravos rústicos, antes de a 2ª Circular aterraplenar as hortas de Telheiras.

O campo como cenário perfeito para a infidelidade, as ramagens sobrepostas ocultando os corpos adúlteros numa aproximação lenta de câmara que só insinua sem revelar, os agoiros das aves noturnas a antever o fim trágico do romance explorados nos clássicos da literatura durante séculos.

Mas e agora? Talvez o crescimento ávido da cidade tenha empurrado as facadas no matrimónio para dentro do perímetro urbano e Lisboa acolha no verão esses encontros que sabem a férias grandes da adolescência.

Mora numas águas-furtadas aqui em frente. Avista, tenho certeza, o frontão da igreja de Santo António da janelinha rotativa, como a escotilha de um navio, sem ângulo para divisar os rostos dos noivos debaixo da chuva de arroz e pétalas. Uma felicidade que lhe chega à porta, se lhe agarra às solas dos sapatos e a recorda de que todo o amor tem, no fim, a beleza das flores pisadas.

Quase o ano inteiro alterna um blusão grosso como um oleado, condizente com um jeito de andar de náufraga, com um casaco de malha de meia estação e gola larga, por onde empanturra a cabeleira. Mas há um dia em que sobe a rua de vestido de pregas e o cabelo apanhado num ninho de melros e eu sei que chegou o verão a Lisboa. 

A estação quente é, para a cidade, a maré-vazia que revela os ressaltos do chão, os seixos escondidos, as histórias mantidas em segredo na penumbra dos quartos. Lisboa faz as malas e ruma a sul, a cheirar a piz buin e com o porta-bagagens atafulhado de cadeiras da praia, grelhadores, fraldas reutilizáveis e boias em forma de fruta.

Ela permanece, no seu torreão de Dulcineia, a polir os vidros, a fazer a cama com os lençóis que, por serem os melhores, tinham bolas de naftalina de sentinela, a desocupar a jarra de cristal da mesa de jantar para o ramo que pouco tardará, a escovar o gato que não pode largar pelo porque ele tem asma, a tirar da última prateleira os copos de vinho que não vão a uso.

Entre os lábios um trauteio de noiva, de criada de quartos a entalar a colcha, de peixeira a escamar o robalo. Um trauteio de mulher que espera e de cidade que foi a banhos, mecânico e solto, sem compromissos ou obrigações, como os semáforos a piscarem amarelo das grandes avenidas indecisas.

Ele inventa um afazer de trabalho, uma chatice, arranca do Algarve depois do churrasco do almoço e entra no prédio ainda a cheirar a entrecosto. Galga os três andares, no patamar tira a aliança, tenta com cuspo limpar a marca do sol no anelar, mas os casamentos não saem com saliva, e, em menos de nada, já o vestido de pregas está no chão e as flores na jarra.

Como não há corujas em Lisboa, ou outras aves agoirentas, pela janela só entram os assobios do amolador e o arrulhar dos pombos, não poderemos predizer o funesto fim da relação.

Saem ao entardecer de dedos entrelaçados. Ela com o vestido e um sorriso de estandarte. Ele com o boné enterrado na cabeça, a pala a tocar a extremidade do nariz. Vão partilhar dois gelados com as gaivotas da Ribeira das Naus. Quando retornam, ele já não sobe. Deixa-a na soleira e desaparece a passo estugado. Ela vira a sola do sapato para encontrar outra pétala esmagada. 


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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1 Comentário

  1. O amante vem à cidade

    Andar 300 km para ir ter com a amante é obra! E retornar noite dentro pelos mesmos 300 km é algo poético, mesmo para uma cidade cinzenta, triste e calorenta como Lisboa no estio. Ainda existe romantismo apesar de o mesmo não ser telúrico, mas de betão. A espera da ilusão desiludida, o construir da vinda do Dom Quixote, com a jarra de cristal que se encherá de flores, a saia de pregas, viver apenas o momento, apenas aquele instante fugaz de sonhos sem cobrar nada à família dele que passa as férias no Algarve. Haverá maior do que este? Não! Deve ser difícil

    Mário Escócia

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