Marine Arradon, 21 anos, aterrou em Lisboa há oito meses para fazer teatro. “Encontrei a escola de atores que queria com uma simples pesquisa no Google”, conta esta francesa, natural de Estrasburgo, depois de mais um ensaio da peça “A Pulga Furiosa”, falada em português. São 15 minutos em palco, a solo, a representar uma pulga, um piolho, um esquilo, um macaco, uma loba e um elefante que têm encantado o público infantil.

Marine Arradon chegou a Portugal há oito meses para fazer teatro no Espaço Evoé. Aprendeu português antes de vir, mas foi cá que começou a falá-lo. E a representar. Foto: Rita Ansone

“Só passei a falar bem quando cheguei”, esclarece, adiantando que começou a aprender a nova língua ainda no país de origem, depois de se propor e de a escola lhe marcar uma entrevista online. “Inscrevi-me à pressa num curso de português, em fevereiro de 2020. Tive dois meses para aprender a dizer o básico.” Conseguiu e, em setembro, já estava em Lisboa, pronta a frequentar o primeiro ano letivo do curso profissional de atores do Espaço Evoé.

“Progredi um pouco na conversação e sentia-me mais competente para falar. Nesses seis meses ainda em França, passei os dias a ouvir rádio portuguesa e a ver séries da Netflix legendadas”, conta, discorrendo um português construído de forma quase perfeita, apesar de entoado com as notas do seu país de origem. “Só quando iniciei as aulas de teatro aqui é que percebi que muitas das legendas e das séries que vi, eram em português do Brasil. Ainda há pouco acesso ao português europeu.” 

O Espaço Evoé é um lugar com pouco mais de duas divisões – um pequeno auditório escuro para espetáculos, com cerca de vinte lugares sentados em cadeiras de dobrar, e uma sala forrada a madeira e espelhos, para aulas e ensaios. O suficiente para albergar uma companhia e uma escola de teatro. Resiste comprimido entre a Rua dos Bacalhoeiros e o Beco do Arco Escuro há quase 20 anos e foi construído a custo e a pulso.

Pablo Fernando, 49 anos, brasileiro de Florianópolis que se mudou para Portugal para prosseguir os estudos superiores em Teatro, no Conservatório de Lisboa. É o corpo e a alma do Espaço Evoé. Foto: Rita Ansone

“É o resultado da minha persistência. Nunca tivemos subsídios ou apoios. Somos sustentados pela nossa bilheteira e pelas propinas da nossa escola,” revela Pablo Fernando, 49 anos, brasileiro de Florianópolis que se mudou para Portugal para prosseguir os estudos superiores em Teatro, no Conservatório de Lisboa. Acabou a fazer um pouco de quase tudo: “Teatro na rua, no comboio da linha de Sintra, no cacilheiro que atravessa o Tejo – a bilheteira era o meu chapéu. Também participei numa curta-metragem escolhida para o Festival de Cannes, usei a minha casa para apresentar peças, dei aulas no Chapitô, dou cursos e workshops aqui, fiz investigação para o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, andei em digressão pelo Brasil, Espanha, Portugal.” 

“O teatreiro é alguém que não é só ator”

Pablo é especialista em montar projetos de raiz. “Vem da minha formação no Brasil, onde comecei. Lá, chamamos ‘teatreiro’. É alguém que não é só ator, mas que também é encenador, professor, cenógrafo, coreógrafo, promotor, administrador, contabilista. Enfim, alguém que tem de dar conta de todo o evento teatral”, esclarece. O Espaço Evoé é um espelho desta forma de estar no teatro. “Temos a escola e a companhia. Os alunos aprendem todos os passos”. Depois, têm oportunidade de aplicar os ensinamentos, montando um espetáculo de fio a pavio. 

A multiculturalidade dos alunos já vem de longe e é uma imagem de marca que Pablo pretende preservar. “Desde o princípio que o espaço atrai alunos e professores estrangeiros. No início, tínhamos muitos alunos do Programa Erasmus. Chegavam a Lisboa e a primeira coisa que faziam era procurar-nos porque já conheciam alguém que tinha cá estado”. A palavra passava de estudante para estudante: no Evoé era possível pertencer a uma comunidade e evoluir na aprendizagem do Português. “Nessa época, a nossa oferta era mais diversificada. Havia dança, música, circo e, até, meditação”, recorda.  

Com um número crescente de estrangeiros interessados nas suas aulas, Pablo decidiu avançar para a exploração mais profissional do nicho e criou um novo plano de negócios: contactou outras escolas além-fronteiras e fundou a Rede Internacional de Escolas de Atores, um conjunto de estabelecimentos de Portugal, Espanha e Uruguai que se irmanaram para intercâmbios de alunos e de experiências. Corria o ano de 2010, mas, ao longo da década, foram-se juntando mais escolas de outros países. “Itália, Espanha, Brasil, Argentina, Colômbia, México e Egito. São alunos que vêm fazer um estágio que pode durar entre dois meses e uma semana. Uma das componentes desse estágio é representarem uma peça em português”, revela.

Foi por esta altura que Pablo também começou a verificar outro fenómeno – apareciam alunos estrangeiros em barda, cheios de vontade de fazer o curso completo em temporadas longas – dois anos de aulas e um de estágio. “Antes da pandemia, estávamos em alta. E mesmo com todos os confinamentos, alguns ainda resistem,” diz, indicando, como exemplo, a francesa Marine e o conjunto de quatro alunos brasileiros que também não regressaram a casa.

“Tínhamos uma turma de 18 alunos, 10 eram oriundos de Espanha, Brasil, França, Itália e Alemanha. Também havia professores de várias nacionalidades. Com os confinamentos, tanto a escola como os espetáculos ficaram impedidos de funcionar durante largos períodos”, conta, desaguando com a voz ténue na descrição de uma semi-destruição da sua pequena comunidade de nações unidas pelo teatro: “Tem sido difícil manter as portas abertas. Fazemos tudo o que podemos para funcionar e para continuar a acolher os alunos que sobraram.” 

A pandemia foi um rude golpe para o Espaço Evoé e os projetos de Pablo Fernando, mas o ator e encenador não baixa os braços e continua a construir o futuro. Foto: Rita Ansone

Apesar das dificuldades próprias da pandemia, Pablo jura que não perderá nem a força nem a fé. Crê piamente na ressurreição do seu espaço: “Lisboa está nas bocas do mundo, há um interesse global pela cidade. Se antes do boom turístico, já tínhamos procura, os últimos anos antes do desastre Covid vieram provar que o interesse não parará de aumentar assim que as fronteiras normalizarem.”  

Também acredita que usar o teatro para conhecer e aprender sobre uma nova língua e uma nova cultura é uma fórmula com futuro. Basta que a pandemia se vá. “Através do teatro, criam-se redes de contacto com portugueses, trabalha-se a língua em palco, ganha-se uma consciência diferente porque percebe-se como é que as palavras são ditas, apanham-se expressões típicas e certas nuances dos gestos que acompanham as palavras e que também lhes dão significado. Não tenho dúvida de que o teatro facilita e favorece a aprendizagem da língua e da cultura,” garante.

“Aprendem a representar, a falar noutra língua, a conviver e a rir”

Os espetáculos retomaram no princípio de maio, com um conjunto de peças infantis de 15 minutos, apresentadas pelos alunos resistentes – o Teatro ao Minuto Evoé Criança, em cartaz aos sábados de manhã. “Não em todos. Sigam a programação na nossa página de Facebook, ainda estamos a recuperar do tombo, não temos certezas”, avisa Pablo. Assim como com o Festival Teatro ao Minuto, um conjunto de curtas de teatro, também de 15 minutos, para adultos. E a 65ª edição do Cabaret, um evento com teatro, música, dança, transformismo, magia, circo, poesia, fotografia e pintura.

O verão trouxe o relançamento das atividades da Companhia Evoé. “Decidi pegar em dois dos meus alunos finalistas e criar um espetáculo para apresentar tanto aqui como em outras salas. Pretendemos iniciar uma digressão por Portugal, Espanha e, se a Covid deixar, também Brasil”, revela. 

Felipe Toledo, 25 anos, um brasileiro de São Paulo, é um dos alunos que se juntará a Pablo. Apaixonou-se pelo teatro aos nove anos, quando começou a ter aulas de representação. Antes de chegar a Portugal, já tinha montado uma adaptação de “O Diário de Anne Frank” e passado por várias escolas, a última a do Teatro Tabelado, vinculada à Rede Globo.

“Ainda pensei em ir para Nova Iorque, mas uma amiga minha, dirigente do grupo de teatro do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) convidou-me para vir dar uma formação de um mês. Aceitei e aproveitei para fazer uma especialização por cá. Encontrei a Evoé na internet e inscrevi-me”, recorda.

Ficou “vidrado na metodologia do teatro físico”, o método ensinado na escola de Pablo, desenvolvido por Jacques Lecoq, um ator francês reconhecido pelo seu trabalho na decomposição do movimento e pelo ensino da mímica na sua escola de Paris. “A minha formação era baseada no método Stanislavski, que é mais teórico, muito baseado na análise do que o ator sente, nas dores e nas experiências passadas. Eu queria experimentar o teatro físico, que é muito mais forte na Europa do que na América toda”, explica.

O interesse por um tipo de teatro mais orgânico tinha a vantagem de não o “obrigar a procurar um terapeuta depois de cada peça.” Felipe descreve o método do teatro físico como uma forma simples de regressar às emoções cruas, ao sentido de descoberta e ao fascínio próprios de humanos com pouca idade. “É assim que as crianças fazem teatro porque ainda não têm uma bagagem emocional que lhes permita recorrer às suas experiências para entrarem num personagem. Elas chegam, observam e imitam. Sofre-se muito menos e é bem mais divertido. Não se fica analisando emoções internas e recalcadas”, esclarece. 

Pablo concorda: o teatro físico é um caminho para várias vantagens. “É um método mais descontraído que permite maior disponibilidade para assimilar vários tipos de conhecimento. Até culturas e línguas estranhas. Os alunos aprendem a representar, a falar noutra língua, a conviver e a rir.” E fecha a argumentação com mais um exemplo: “No ano passado tivemos um aluno alemão que era muito introvertido, falava muito pouco. No fim, conseguiu fazer um solo de 15 minutos, em português correto, e conversar com mais alegria do que qualquer latino.”


Patrícia Paixão

Nasci em 1976 e cresci no oriente de Lisboa, entre as quintas e a Zona I de Chelas e a Manutenção Militar do Beato. O centro significava pouco mais do que Porfírios, Santos em Alfama e bolo São Marcos na Pastelaria Suíça. Aos 28 anos, passou a ser sinónimo de casa. Estabeleci-me no Príncipe Real, atraída pelo charme dos edifícios antigos e pelos poucos estrangeiros que nos visitavam, numa tentativa bem sucedida de conservar a comunidade multicultural que encontrei em Nova Iorque, onde estudara e fora correspondente da Lusa. Sou uma sortuda que há quase duas décadas desfruta do pulsar cada vez mais vivo de Lisboa.

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