1. Nada se perde, tudo se transforma. Se aplicássemos isto a tudo, talvez fosse mais fácil pensar no que acontece quando um texto sai de uma língua e chega a outra, quando uma obra de arte viaja e é vista por olhos que se esforçam por entendê-la, quando alguém vai embora e sabe que deixa uma parte de si para trás.

Nada se perde. Nem mesmo as palavras nos seus múltiplos significados. Haverá sempre maneira de dizer saudade noutras línguas. Acreditar que tudo é traduzível podia ser uma melhor maneira de viver.

2. A minha tradutora para o francês conta-me que nem sempre sabe se deve traduzir a palavra saudade. O que fazer: perder um pouco do seu sentimento e transformá-la em algo que até pode ser bastante diferente em francês, ou deixá-la no original arriscando reforçar uma palavra que se ultrapassa a si própria e, eventualmente, ao texto? Uma palavra em itálico ganhando mais força do que toda a frase. É preciso ter cuidado com o que queremos destacar.

A minha tradudora, francesa, filha de portugueses, teve todo o crescimento para aprender que há momentos em que as palavras se tornam maiores do que aquilo que quereríamos exprimir.

3. Não tenho grande amor pela palavra saudade. Não gosto de usá-la. Pode facilmente parecer pretensiosa. Pseudo-poética. Tristonha. Melodramática. Banal na sua exclusividade. Um pouco pirosa no seu cliché. Procuro alternativas, porque há alternativas: sentir falta, em alguns casos; nostalgia, noutros; ou, então, um sentimento nacional.

4. Gosto, sim, da definição que encontro no poema “Tentando explicar a M. o que é a saudade”, da brasileira Ana Martins Marques: “Pense num amor / que você nunca teve / e perdeu // é como ter saudades / de um cachorro / que você nunca teve”.

Não é a saudade do que já foi. Não é a saudade da terra-mãe, evocada pelo mito dos navegadores e pela experiência difícil da nossa diáspora mais recente. Não é o sofrimento sem remédio do fado. É algo mais vago, mas mais insinuoso. Algo que pode ser mau ou bom. Algo sem objecto concreto, mas que pode ser aplicado a qualquer objecto. Talvez seja mais uma escolha do que uma inevitabilidade. Uma coisa de futuro e não tanto do passado.

5. Uma espanhola, um francês e um mexicano entram no mesmo espaço que eu e eu tento explicar o que é saudade. Mas não tenho explicação para a fama da saudade, que é muito menos palpável do que a fama de Ronaldo.

De que maneira uma espanhola ou um francês ou um mexicano não sabem de que falo quando falo de saudade? Não sentem tal e qual uma nostalgia por aquilo que vão deixar quando voltarem para as suas terras? E mais do que isso: uma nostalgia pelo que não deixaram se não tivessem partido?

6. Estando fora de casa, ligo sempre para as minhas filhas todos os dias. Aliás, ligo duas vezes por dia, de manhã, antes da escola, e ao fim do dia, depois da escola. A palavra que mais dizemos umas às outras é, claro, saudade.

Já se escreveu tanto sobre tantos dos possíveis conceitos de saudade mas surpreendentemente pouco sobre o uso mais importante: dizer que gostamos de alguém.

7. Algumas cidades – ou porque têm muito mar ou muita luz ou algo que faz com que as pessoas se sintam facilmente íntimas com as suas ruas – parecem votadas a uma certa melancolia.

Lisboa é uma delas. Mas não é nisso única.

Lembro-me de passear em Alexandria e de falar com pessoas que constantemente evocavam um sentimento semelhante ao da saudade. Caminhei nas ruas anteriormente cosmopolitas de onde desapareceu a mistura de línguas de outros tempos. Visitei a casa onde viveu Konstandinos Kafavis, depois de andar perdida e de ninguém me saber ajudar porque ninguém sabia quem era o poeta grego de Alexandria. Lembro-me de pensar que era possível ficar para sempre num quarto de hotel como se fosse apanhar um barco no dia seguinte mas pressentindo que esse dia nunca chegaria.

Também em Istambul reconheci Lisboa, não só na luz, nas grandes manchas de água, nas cadeiras em pontos altos para ficar a olhar para a vista, mas nesse sentimento de engano do tempo que certas cidades têm.

O mais conhecido romancista turco, Orhan Pamuk, escreveu de forma muito bela – e, provavelmente, sabendo o quanto idealizava um certo carácter de Istambul – sobre a sua palavra intraduzível. “Hüzün” é uma melancolia que talvez não seja tão distante de saudade, e, diz Pamuk, algo que passou a vida a combater ou a tentar tornar seu. Portanto, como acontece com a saudade, sem saber se é uma benção ou uma maldição.

8. Aprender a viver noutra cidade – como falar outra língua – obriga-nos a ser uma pessoa diferente. Penso nisso quando um jovem escritor que conheço me diz que está a pensar mudar para Lisboa. É uma das milhares de pessoas que neste momento estará a pensar mudar para Lisboa. Nunca esteve na cidade. Imagina o rio, a luz, o calor, as esplanadas com boa comida, a beleza das mulheres portuguesas. Imagina o lugar da chegada apenas. Não imagina, necessariamente, como olhará para o lugar de partida nem pensa na possibilidade de ter que fazer o luto de si mesmo, da pessoa que vai deixar de ser quando se mudar. Isso, eu podia explicar-lhe, porque já vivi noutras cidades, é saudade.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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6 Comentários

  1. Olá Rui, o melhor seria falarmos no FB ou no Instagram. Eu posso enviar-te a minha morada. Gostava muito de ver o filme. Abraço

  2. A Susana Moreira Marques conhece uma conferência (sobre Camões) que o Jorge Luis Borges deu em Coimbra, nos anos 30, em que defende serem os dicionários um engano, um equívoco, por ser cada palavra intraduzível noutra língua?

  3. Caro Carlos, Não conheço mas parece-me muito interessante. Vou pesquisar. Muito obrigada pelo comentário e pela sugestão.

  4. Susana, tenho algures uma edição da conferência (Destino e Obra de Camões, é o título), mas descobri agora um ficheiro em pdf na web. Este:
    jlborgespass_pt-2.pdf

  5. Lembro « ”A saudade Portuguesa”, livro de Carolina Michaelis de Vasconcelos, assente na leitura dos mais antigos poemas portugueses, mostra aspectos filológico, poético e mítico». Segundo a Wook está esgotado.

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