A foto de José Sena Goulão da Agência Lusa que correu os sites e foi capa de livros.

Sabe-se como somos bons de poetas, de Sophia a Camões, de tantos Pessoa àqueles versos absurdos de Alexandre O´Neill. Peguemos neste, mais à mão, naquele Portugal onde ele se lamenta: “Ó Portugal, se fosses só três sílabas/ linda vista para o mar (…)”

E seguem-se maravilhosos lugares comuns, do manso boi à desancada varina, o calendário na parede, o emblema na lapela…

Parece simples, ser poeta, até que, embalados na ladainha, cai-nos o remate: “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”. Poeta, pois, só os com unhas para a força que as palavras podem ter.

E, depois, talvez não seja sempre assim e obrigatórias letras. Surge um homem e um gesto, simples ambos. E são tudo. Tanto como um poeta (e talvez mais).

No ano passado, nós e o resto do mundo parecíamos um rol irónico de O’Neill – ladino pardal, rechinante sardinha, grilo engaiolado, enfim, baratas tontas. Tinha-nos caído em cima um bicho com carimbo numerado, covid-19, e nós sem resposta.

Era tão fácil antes! Antes, a culpa era da direita, ou da esquerda, de descabelados (Trump ou Kim Jong-un), da sogra ou do árbitro… Mas eis que sem terroristas, nem agências a cotar-nos abaixo de lixo, nos víamos agora desapossados de quase tudo: de sair à rua, do emprego, do café ao balcão, do pai e até do enterro do pai. Por causa de um inimigo fácil de matar, bastava lavar as mãos, mas que nem morria nem sequer guinchava quando lavávamos as mãos.

Tão baratas tontas ficámos que, no 25 de Abril de 2020, a classe política se pôs a discutir quotas para entrar na cerimónia de São Bento, no templo da democracia – como se esta precisasse de contar os “emblemas na lapela” (olha, não sem razão, um dos faz-de-conta enumerados no Portugal de O’Neill…)

Mas quanto ao outro juntar de pessoas, o povo, o consenso logo se fez: não haveria desfile para ninguém na Avenida da Liberdade. Foi uma escolha prudente e acertada, pois os desfiles matavam.

José Sena Goulão/LUSA

Havia, porém, um porém: a ser assim, aquele 25 de Abril iria ser o primeiro desde 1974, além de pessoas, a não ver o símbolo passar. Da Avenida, sem o símbolo da Liberdade, vazia no seu dia, podia dizer-se que era a Avenida da Liberdade?

Engraçado que os que se engalfinharam sobre as presenças retransmitidas pela TV em São Bento, não se inquietaram com aquela ausência na rua. Talvez porque fosse um problema difícil de resolver. Daqueles que exigia um poeta.

Pois ele apareceu. Um empregado de mesa, simples carlos, modesto ferreira. Um homem com um Portugal: questão que ele tinha consigo mesmo. Carlos Ferreira, de 72 anos, solitário, mulher internada, vestiu a farda do trabalho, casaco branco e sapatos engraxados. Pegou num saco de plástico, tão povo, levou ao ombro uma grande bandeira de Portugal, com cravos vermelhos no topo, e subiu a avenida.

Homem responsável e livre. Símbolo. Lavou-nos e voltou a dar nome à Avenida da Liberdade. Morreu ontem, deixou-nos com mais amanhãs.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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7 Comentários

  1. Assim somos! Basta um de nós -e que nem sequer já cá está- para que a Avenida siga sendo a da LIBERDDADE.
    Para ele peço Paz Eterna.
    Francisco F. Teixeira

  2. O poeta desfilou, salvou-nos da triste recordação de um 25 de abril sem liberdade na Avenida. Deixou-nos cedo demais. E nunca mais lá irei que não me lembre do Carlos Ferreira. Tal como evoco a Cecília Caeiro. Gente que nos marca para sempre. Maravilhosa crónica, merecida homenagem!

  3. Obrigado, Zé. Os poetas não morrem. E Abril também não.

  4. Obrigado por esta sua crónica, Caríssimo Ferreira Fernandes ! Também em Si, “há um daqueles amanhã’s” que Carlos Ferreira nos ensinou a ver/sentir, melhor ! Abraço.

  5. Grande senhor que
    Soube enfrentar o esquecimento da maioria dos potugueses enfrentando a pandemia fez se à Avenida da sua liberdade.Era certamente um poeta vencedor

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