Há alguns meses, quando guiava pela avenida de Ceuta, vi junto a uma árvore, rodeada de flores, a foto de um rapaz morto. Sempre que passava por lá de noite, mesmo que abrandasse, ficava sem perceber se a figura que visitava a foto era de pessoa, se era de mulher. Ontem ao fim do dia fui de novo pela avenida – e tinham desaparecido as flores e a foto do rapaz morto. E fora-se também a figura.

De regresso a casa, pensei que não podia ser acaso, isto de desaparecerem as recordações dos acidentados. Não chega lá qualquer um e põe no lixo. E fui inventando a Comissão Municipal de Memorabilia, que reúne de dois em dois meses.

F. Medina empossou a presidente depois de ela se ter jubilado. Foram anos a aturar universitários, merecia descanso, mas agora vê-se obrigada a decidir quem vai e quem fica. A cada reunião apresentam-lhe um dossiê sobre os vitimados dos meses anteriores. É muita tristeza pela cidade fora, mas ela habituou-se. Sempre gente muito nova, a gente que dá fotos sorridentes nas bermas das estradas.

A comissão a que preside pro bono veio do Ambiente, Limpeza e Manutenção: o pessoal não queria atirar as lembranças para as bocas dos camiões do lixo. Era comida que não apetecia comer. Comunicaram que só com ordem superior.

E agora chegam as fotos, as flores e as velas à presidente em jeito de burocracia para lhes dar ordem superior. Vais ou ficas.

Vais: quem desbotou, perdeu as pétalas, quem foi muito esquecido. Ficas: quem ainda se vê a cara, por norma protegida pela moldura, quem recebe visitas de vez em quando, a julgar pelas flores novas e pela vela eléctrica piscando.

Eu ontem na avenida de Ceuta guiei mais devagar depois da árvore onde o rapaz foi morrer. Todas as árvores que cresciam para Monsanto me diziam cautela.

Também disseram ao rapaz morto, ele nada. Acelerou talvez nos despiques que ouvimos às três da manhã, quando acordamos e pensamos ainda bem que não é comigo. Eu prefiro ir para o sítio das fotografias mais tarde do que ele.

Não sei o que diriam de mim à Comissão Municipal de Memorabilia. Dele sei: a figura que o visitava de noite era de mulher porque era de mãe. Depois de ela ter ouvido na Quinta do Loureiro que lhe iam tirar a foto do filho, foi bater à porta da Câmara. Era para ser recebida, se faz favor.

A presidente, que por acaso estava com o dossiê na mão, prestes a carimbar-lhe um deite-se fora, decidiu recebê-la.

«O meu filho, não», disse-lhe a mãe. «Aquela foto ali mais uns tempos é como ele a sorrir para as fotos que lhe faltou tirar, senhora doutora.»

Eu, que estava ao volante a imaginá-las, lembrei-me da minha avó, que também teve uma foto de filho morto. Mas essa estava emoldurada em casa sobre um móvel antigo, longe da curva da estrada onde o meu tio morreu. Uma vez, muitíssimo velha, apanhei a minha avó curvada sobre a fotografia a fazer-lhe festinhas.

A presidente não se convencia: «Repare no dossiê, minha senhora… A fotografia já quase não se vê, as flores apodreceram, só resta uma vela.» A mãe foi à carga de mansinho: «Se eu pudesse, mudava tudo, mas não há forças.»

Mudar tudo, tudo completamente, seria arrancar o filho ao carro, dizer-lhe um sai-me daí, depois uma mãozada no ombro, uma chapada na cabeça. Mas ela refere-se à foto e às flores na berma da avenida, junto à faixa do BUS. «A ver vamos. A gente desenrasca qualquer coisinha», disse-lhe a presidente.

Deram à mãe um daqueles livros muito caposos sobre assunto nenhum que os municípios gostam de financiar. E disseram-lhe até qualquer dia.

A mãe foi-se embora com o calhamaço debaixo do braço, demasiado pesado para levar nos transportes, e a presidente carimbou o dossiê e apontou a data para a Higiene Urbana tratar da remoção.

Só que ontem a mãe decidiu que o filho não dava de comer aos camiões do lixo. Atirou o livro para um contentor e seguiu a pé até à ETAR, que agora tem plantas por cima, mas por baixo continua a merda de sempre.

Parou junto à árvore. Meteu a foto, as flores e a vela num saco de lona que há-de guardar no armário do quarto. A vela ainda estava acesa por causa da pilha Duracell. Vai brilhar para ninguém dentro do armário.

Antes de se ir embora, quis pôr fogo à árvore, mas teve medo de incendiar Monsanto, de arrasto Lisboa e a seguir Portugal. Em vez disso, deu um beijo no tronco – igual ao beijo que a minha avó deu à fotografia do meu tio depois das festinhas.

Cheguei a casa seguro de que foi assim mesmo que desapareceu da avenida de Ceuta a foto do rapaz morto. E desejoso de telefonar à minha própria mãe para lhe dizer que estou vivo.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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2 Comentários

  1. Grande espírito de observação, próprio de um bom jornalista. Parabéns pelo texto.

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