Dedicada à Ana Leandro, que me guia no oculto.

‘Como se chama o querido’, perguntou a taróloga. ‘Não há quem chegue de coração leve’, explicou, enquanto dispõe os arcanos menores sobre a mesa de leitura. Reconheço as cartas, em tudo semelhantes ao baralho que o avô usava para vencer à bisca e cobrar rodadas de cerveja no café. A mesa de leitura é um colchão de molas com as manchas do sono, que range à batuta das flutuações do futuro.

Parti com a Ana da Graça em direção a Rio de Mouro, a tempo de apanharmos o trânsito do IC-19 sob os 40 graus de agosto. O asfalto exalava os roncos de submundo, o volante escaldava e os calções curtos colavam-se na napa dos bancos como as febras na grelha. Protestei, veementemente, contra aquele martírio, mas a minha educação católica – que vê no sofrimento redenção – aceitou que a revelação do oculto se desse por meio do sofrimento.

Como na eleição dos melhores pregos ou de hambúrgueres em bolo do caco, também o ranking das videntes é moldável ao boca-a-boca e a cartomante de Rio de Mouro era uma zona franca autenticada para os dilemas da existência. A sua especialidade seria o universo amoroso, mas também servia alvitres sobre saúde, dinheiro e trabalho com a rapidez dos pratos-do-dia.

No bairro de Rio de Mouro, os rapazes mais velhos, que deviam estar na escola, ensinavam os mais pequenos a beber pelo gargalo e passavam-lhes as beatas consumidas para se rirem com o espetáculo das tosses. Tendo crescido a quatro paragens de comboio, com a linha de Sintra a desovar, na gare, centenas de passageiros e de medos por hora, reconheci os rituais iniciáticos da tribo.

Há uns vinte anos, sob candeeiros igualmente apedrejados, alguém inventou que eu fumava como os sapos. Os sapos não conseguem expelir o fumo e rebentam. Claro que a comparação revelou-se um disparate, porque, na prática, eu era incapaz de manter o fumo nos pulmões. Eu e os sapos teríamos, na melhor das hipóteses, hábitos tabágicos opostos.  Mas nenhum daqueles tipos – muitos já mortos ou presos – eram grande coisa em comparações, figuras de estilo, e não consta que tenham virado escritores. 

A verdade é que não sei fumar. Nunca soube travar, absorver fumo na dose certa e expelir na dose certa. Que beta, estarão a pensar, como é que a gaja não sabe fumar? Se tivessem crescido nos subúrbios de Lisboa, sazonalmente ameaçadas por navalhas, perceberiam que corajosos eram aqueles que não sabiam fumar.

Tornemos a Rio de Mouro. Ao estacionar no largo, reconheci ainda o olhar desconfiado e ameaçador com que os rapazes nos avaliaram os gestos inseguros e a desorientação.  Um levantou-se e avançou três passos; os outros circundaram o carro à distância de um ataque. Éramos intrusas e, no bairro, os intrusos ou são inimigos ou são presas. Mas o futuro esperava-nos e quem pode fugir ao futuro? Avançámos.

O consultório da taróloga funcionava num primeiro andar de um prédio camarário adaptado para receber outras atividades assistencialistas: apoio geriátrico e à primeira infância. O robusto dobermann ladrou-nos à entrada, numa atitude territorial de Cérbero, o cão de três cabeças guardião das portas do Inferno. Sem as mãos de Hércules ou a lira de Orpheu, barganhámos com fera à razão de sorrisos temerosos.

No fundo do corredor, recortada pela luz, surge a taróloga, oráculo dos nossos destinos de bata de andar por casa sobre a combinação de roupa interior. O calor terreno não poupa até aqueles que têm franquia para o mundo das energias.

Aguardámos numa saleta com retratos dos netos da taróloga pendurados nas paredes, antes de as crianças porem a dentição completa e aprenderem a fumar beatas com os mais velhos do bairro. Ela ausentou-se, por alguns minutos, para mudar a fralda a dois bebés de colo e a um idoso de poltrona. Todos reclamaram com a intervenção. Os bebés porque tiveram de abandonar o berço e os brinquedos, o idoso porque abandonou na televisão aquela rapariga da Malveira que grita muito. O tamanho das fraldas foi o que separou a infância da velhice. 

A Ana, mais temerária, voluntariou-se para ser a primeira a girar a roda da fortuna e eu sentei-me, de lado, numa caminha de um corpo, ainda por fazer. A janela aberta dava para as traseiras de uma churrasqueira e o futuro da Ana foi servido como um meio frango de churrasco com muito picante e fartamente guarnecido: mudaria de emprego, de casa e de amor. Um jackpot que lhe custou 25 euros por sessão. Já eu, que paguei a mesma soma, não tive a mesma sorte.

‘Como se chama o querido’, perguntou a taróloga.

Mas até para os arcanos te mantiveste oculto. Temo que contigo me aconteça o mesmo que acontece aos sapos. Retenho-te em tanta quantidade dentro de mim, dilato os pulmões ao máximo, que inevitavelmente vou explodir.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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2 Comentários

  1. Ola queria saber se meu ex volta para mim se ainda gosta de mim

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