1. Calhou-me este bocadinho de céu. É branco e tem no centro um círculo e dentro do círculo um conjunto de folhas em relevo dispostas à roda como uma flor.

Descobri que antigamente, algures no norte do país, havia este uso da palavra céu: queria dizer tecto. Era mais simples, talvez, que houvesse dois céus. Um que era de todos e outro só nosso.

2. Não confundir céu com paraíso. Naquela época, o céu não se confundia com o paraíso. O céu era limitado. Tinha várias camadas. Era de difícil interpretação.

Era uma metáfora poética mas dura se pensarmos nas mulheres dos anos 40, 50, 60, para quem o mundo inteiro era realmente a casa.

3. Se tiver que escolher uma imagem para falar do que mudou nas últimas décadas, talvez escolha esta: a minha filha sentada à sua secretária a fazer bolinhas às cores para montar o sistema solar.

É de notar que é diferente nesta imagem estar uma menina e não um menino. É de notar que a secretária está desarrumada não por desleixo ou por falta de espaço mas porque há coisas demais: lápis, canetas, papéis, cadernos, livros, tudo o que uma rapariga pode precisar para criar o universo.

4. O exercício de imaginar o universo – porque implica um esforço de imaginação ainda que o saibamos real e estudado – pode fazer-nos sentir maior do que somos, ou, pelo contrário, mais pequenos. A minha filha, que ainda pode sonhar ser astronauta – e desejar ver a grande habitação que é a Terra de longe – sente-se maior. Eu evito tal exercício para não me sentir insignificante. Não sei se isto tem a ver com as diferenças das nossas personalidades. Ou se é porque, na minha idade, em que já não posso sonhar ser astronauta, prefiro pensar no meu céu particular. Ultimamente, ando a pensar que nunca tive um tecto que fosse realmente meu.

O ensaio “Um Quarto que Seja Seu”, da Virginia Woolf, o icónico texto feminista sobre a possibilidade da criação pelas mulheres, ganharia toda uma nova dimensão no tempo da especulação imobiliária. Quanto fica o metro quadrado de céu em Lisboa?

5. “Que o tecto não me caia em cima.” “Faço por merecer um pouco de tecto nesta terra.” “O tecto que nos protege.” Usando ao contrário, “tecto” para “céu”, também funciona.

6. A escritora Alice Sampaio, uma beirã que se tornou lisboeta, que publicou um ou dois livros com direito a críticas e depois desapareceu de circulação, teve o projecto de escrever uma longa série de livros a partir da ideia de Penélope. Só publicou um volume em edição de autor. Morreu antes de publicar mais algum ou de acabar de escrever todos os volumes que tinha imaginado para o seu épico feminino.

Outras escritoras escreveram Penélopes em diferentes tempos, línguas e contextos. Para começar, talvez baste fazer perguntas: mas afinal o que pensava realmente Penélope? O que é que ela teria feito se pudesse ter saído de casa? Como teria sido essa história – e o tanto do que nas nossas narrativas assenta nela – se tivesse sido ela a partir deixando Ulisses à espera? Teria vivido grandes aventuras? Teria fundado cidades como o mito diz que Ulisses fundou Lisboa?

7. Ao fim do dia, sentamo-nos no sofá da sala, as crianças no chão de pernas cruzadas. Com a mudança de luz o tecto vai mudando, tal qual como o céu muda. Há uma televisão ligada. Há ruídos de música que chegam da rua. Há computadores e telemóveis a carregar. Toda uma vida que terá parecido às gerações mais velhas tão distante quanto para nós as viagens no espaço.

Mas enquanto a vida parece correr para o futuro, eu agarro-me ao passado. É por isso que vivo numa casa com chão de madeira antigo. Numa casa de estrutura pombalina que, sendo uma maravilha da engenharia, vai dando de si e se vai tornando meramente decorativa.

É outra maneira de nos sentirmos, conforme as personalidades, pequenos ou grandes: a ideia de que nunca somos originais, apenas uma continuidade de algo anterior, repetindo os mesmos gestos, procurando abrigo para o tempo em que a vida decorre.

8. Como trabalho em casa, vou muito à janela. A varanda maior dá para a rua principal, como acontecia sempre nos prédios antigos, mesmo que a vista melhor fosse a das traseiras. Na pequena varanda de trás, na cozinha, é onde estendemos a nossa roupa colorida decorando, como outras famílias, Lisboa.

Da janela, observo as pessoas nas ruas. Observo o que se passa nas janelas dos vizinhos, sem voyeurismo, mas eventualmente à procura de uma distracção. De uma história.

9. O que é que as mulheres de Lisboa e do resto do país tanto faziam à janela nos postais, nos filmes, mas nossas memórias de infância?

Vigiavam. Coscuvilhavam. Preocupavam-se. Mal-diziam. Bem-diziam. Calavam. Como penélopes, esperavam por alguém que ia chegar a casa. Mas entretinham o tempo e urdiam as narrativas onde assentava depois a lógica das casas, das ruas, dos bairros.

10. As mulheres são talvez as últimas exploradoras. Todos os dias elas mantém aquela que talvez seja a última fronteira da civilização. E são também elas que ultrapassam com estrondo essa fronteira entre o interior das casas e o exterior, entre o privado e o público.

11. De noite, nunca acendo a luz do tecto. Nunca consegui encontrar um candeeiro que encaixe no centro da flor de estuque. Uma lâmpada banal está pendurada desajeitadamente no centro da sala. Se fosse perfeito, não seria um céu mas já o começo do paraíso.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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