Foi tão boa, a minha infância. O nosso café era a livraria e era lá que eu passava os dias quando não passeava à toa pelos montes ou andava atrás dos rapazes pela rua. Tinha um canto de leitura para os meus primeiros livros, uma coisa tão recôndita – e eu tão mínima – que ninguém dava por mim. Já o método do meu primo era diferente e aos sete anos metia-se com a Playboy à porta.

Entre mães, pais, primos, sobrinhos, tios, avós, sogras e noras, parecíamos a Elena Ferrante, todos à volta de uma mesa, com uma avó dentro de um avental, um avô dentro de um fato. E, para além de nós todos, os Qualquer Coisa Pedrosa ou os Pedrosa Qualquer Coisa, ainda havia o Raúl Luís.

Era um caso sério, o Raúl Luís, principalmente para quem não sabe dizer a letra L. A culpa não era minha e ele até achava graça a que eu lhe chamasse Rauuuis. Ele tinha uns 30 anos, eu tinha uns 13. Ele tinha olhos azuis e eu tinha uma paciência infinita para fazer funerais a tartarugas.

Nessa altura, o nosso herói era ajudante de livreiro – do meu avô – em Vizela. Recebia à jorna – era mais amizade do que trabalho, uma desculpa que o amigo tinha para lhe dar uns trocos. Em pleno Agosto, era vê-lo a suar em frente à Texto Editora. Quando a porta abria, era vê-lo estirado em cima das paletes de livros escolares para os outros não lhe roubarem exemplares dos livros de Estudo do Meio ou Matemática. Queria ser bom empregado, pagar o favor com dedicação, exagerando no zelo. O meu avô, entre passas de cigarros, lá lhe dizia: “Tem calma aí, ó Raúl. Deixa alguns para os gajos da Lixa.” Mas, da vez seguinte, ele tentava lixá-los outra vez.

Quando a outra livraria de Vizela estava perto da falência, o Raúl Luís roubava livros na do meu avô e entregava-os de graça ao Freitas para ele os vender a lucro máximo. Foi apanhado à segunda vez e o meu avô deu-lhe um aumento e disse-lhe que, em vez de dez, levasse vinte.

A carreira evoluiu. Por vezes, ia no carro do meu avô à Porto Editora encomendar manuais escolares para o dia seguinte e demorou um Verão inteiro a aperceber-se de que podia fazê-lo sem 50 quilómetros de auto-estrada. Afinal, também havia Internet em Vizela. A partir de Setembro, encomendava os manuais no salão de jogos ao lado dos sobrinhos que jogavam Counter Strike. Um deles, o Tomé Geraldo, não era nada feio e ainda fez uns desfiles de moda no Funchal.

A vida mudou, entretanto. A livraria fechou, o meu avô morreu, o Geraldo está careca e barrigudo e agora os putos jogam Fortnite. Sem outra hipótese, o Raúl Luís fez-se ao caminho. Morou na Trofa com a prima, depois em Lisboa com a irmã. Nunca casou, ia sendo herdado pela família, empurrado de um T1 para um T2. Trabalhava sem contrato, agora com a experiência da máfia dos livros e de saber mexer na Internet.

Hoje em dia, é residente em Santa Maria Maior. Voltei a ouvir falar dele porque o meu primo veio a Lisboa e relembrámos o passado: os gelados de cone amolecido, a missa às cinco da manhã, as madrugadas na feira a ver coelhos, os almoços às 11h30 a um domingo, nós vestidos com mais remendos do que roupa, mantos de retalhos em cima de crianças, um saco de ouro poupado, agora perdido para sempre, um mistério de família. E o papel de parede com imagens de ramos de flores que durante anos achei que eram macacos. E, claro, o nosso tal Raúl Luís.

A partir de uma certa altura, a vida é a descer. Num dia é-se como um lorde, ajudante de livreiro no Minho, um King Kong em cima de uma pilha de manuais. A seguir muda-se lâmpadas em Lisboa e mete-se os pés na cova.

Coitado do Raúl Luís. Não bastasse a desgraça de se ver longe de Vizela, ainda passava pelo tormento de mexer em instalações eléctricas, e logo ele, que passou a infância a ouvir a mãe dizer-lhe que tivesse cuidado com as tomadas. Entrava nas casas dos lisboetas para fazer instalações e todo ele era azul de céu. Pediam um electricista, recebiam um homem com olhos que eram Tejo.

E pensavam sempre: “Que gato.”

Com máscara para evitar contágio, ninguém podia adivinhar que o homem, agora perto dos 50, não tinha dentes. Elas viam-no chegar e só tinham luz para os olhos, e ele durante o tempo todo recusava-se a tirar a máscara. Elas só lhe viam o mistério.

A sua fama começou a correr a freguesia. Não apenas era rápido como não cobrava muito e não sujava nada. E tinha aqueles olhos Brad Pitt que podiam levar a algo mais.

Claro que levaram.

A namorada do meu primo, infecciologista no Santa Maria, residente em Alvalade, também conheceu o Raúl Luís. Ela com uma bata branca, ele com duas safiras a olhar para ela. Tinha gestos muito aflitos e dentro do corpo tinha sífilis.

– O que é que eu posso fazer, doutora? Elas oferecem-me sempre uma cerveja.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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2 Comentários

  1. Gostei da história, simples e algo rocambolesca, de admiração por algo de alguém. Parabéns

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