Foto: Mariana Mateus

Ajeitam-se livros, organizam-se vinis, ouve-se música clássica. É o início de mais um dia na Ler Devagar, conhecido cartão de visita da turística LX Factory. Por aqui, o quotidiano vive-se sem pressas. Ouve-se devagar na pequena loja de discos, bebe-se devagar num bar espremido entre estantes e, claro, lê-se devagar, basta escolher um dos vários volumes que forram as paredes. Quem entra é convidado a perder-se, como já é costume nos projetos literários assinados por José Pinho. Por detrás da obra está um homem que fez carreira de trocar as voltas ao conceito de livraria.

No piso térreo da Ler Devagar, José Pinho fala de ideias. Das que foram cumpridas às que ficaram na gaveta, tudo fez parte de uma longa jornada que cunhou o seu nome no mercado livreiro. Fundou a primeira livraria ‘de fundos’ do país, reabilitou a histórica Ferin, transformou Óbidos numa vila literária de renome mundial. E hoje, dia 5 de maio, apesar dos reveses que a pandemia provocou, celebra “língua, literatura, livros, livrarias e leitura”, com a primeira edição do Lisboa 5L – Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa – de que é diretor artístico.

“Nem agora que já tenho idade para ter juízo me acomodo a nada”, diz José Pinho, do alto dos seus 68 anos e de um percurso feito de trabalho árduo, mas também de sorte, como o próprio reconhece. “O que me aconteceu na vida foi uma simples sucessão de acasos”. Acasos que vieram ao seu encontro desde miúdo.

E se em cada curral nascesse uma livraria?

Eram os anos 1960 na freguesia de Sul, em São Pedro do Sul. A oferta de alternativas escolares escasseava, fator que obrigou José a viver sozinho, em Viseu, com apenas 10 anos, de modo a ingressar no 2.º ciclo. Ser um estranho em terra estranha causava-lhe temor, mas converteu-se em aprendizagem. “Ficar sozinho perante o mundo preparou-me de uma outra maneira, logo a partir dos 10 anos. Foi assim que comecei a conhecer o mundo nas suas várias dimensões e a sociedade em todos os seus aspetos”, recorda.

Da vida nova na capital de distrito ficou-lhe um “profundo instinto de sobrevivência”, que sempre fez questão de levar no bolso. Das origens humildes ficou-lhe o amor à vida campestre, anos mais tarde também convertido em projeto literário. “Chamei-lhe pastor moderno”, explica José Pinho, referindo-se à sua primeira tentativa de trazer a literatura para a aldeia, na década de 1990. Livros, GPS e cabras, eis o trio improvável que o levou a instalar-se na serra de São Macário, a poucos quilómetros da sua morada de infância.

“A pandemia para nós foi um desastre, pior até do que para outras livrarias”, diz José Pinho. Foto: Mariana Mateus

“Trabalhava numa empresa de tecnologia, na altura dos primeiros sites e dispositivos tecnológicos. Mas queria dedicar-me à pastorícia. A ideia era ter um rebanho de cabras e comunicar com cada uma delas da minha cabana, através de um chip”, recorda. Sem nunca se perderem, as cabras andavam pela serra enquanto o empresário observava um curioso conjunto de currais abandonados. As ideias começavam, uma vez mais, a brotar. E se em cada curral nascesse uma livraria temática? Numa casota viagens, noutra ficção, noutra poesia. Um autêntico paraíso literário no meio das montanhas.

Complicações na aquisição de terrenos fizeram-no, todavia, mudar de rumo. “Decidi que não ia fazer o pastor moderno com as cabras e as livrarias. Ia fazer uma livraria”. Assim, começou a sonhar com a Ler Devagar. O bichinho já lá estava desde os tempos passados em Paris enquanto jovem adulto. Os ares franceses trouxeram-lhe a companhia do amigo António Ferreira, “um dos melhores pensadores e escritores de Portugal. Pena que ninguém o conheça”, diz José. Juntos fundaram a revista Ler Devagar, com a missão de dar a conhecer o trabalho de diferentes autores, ocultos por nomes de personagens dos contos de Eça de Queirós.

Levar a vida a empobrecer alegremente

Com o intuito de melhorar as tiragens da revista, José Pinho ingressou num curso de técnicos editoriais na Universidade de Letras em Lisboa. Entre os colegas, na sua maioria editores, ouvia queixas. “Diziam sempre que os armazéns das editoras estavam cheios de livros. Na altura, os livros que não fossem vendidos depois de 3 meses regressavam aos armazéns, que já nem espaço tinham”. O passo seguinte era lógico – limpar o pó aos livros armazenados e dar-lhes uma nova vida junto do público. Fazer uma livraria de fundos editoriais.

Alguns companheiros seguiram-no, outros ficaram pelo caminho, “não souberam agarrar a oportunidade”, diz José Pinho. Mas foi precisamente de amigos que se fez o resto do seu percurso. Em 1999, nascia a ‘Livraria de Fundos, Comércio de Livros, SA.’ pela força de uma sociedade anónima composta por outros entusiastas da literatura. Imbuídos de um espírito próximo do associativo, montaram a Ler Devagar que correu Lisboa, do Bairro Alto ao Braço de Prata, até assentar na LX Factory. Os acionistas foram avisados de antemão, que embarcavam numa aventura onde acabariam por “empobrecer alegremente”.

“A promessa que nós fizemos aos sócios foi: se colocam lá o dinheiro, o capital, nunca mais recebem nada. Se ganharmos algum, fazemos mais projetos e livrarias”. Meu dito, meu feito. A situação financeira desafogada de José, aliada aos contributos dos seus parceiros, permitiram abraçar novos rumos, em espaços que pediam reinvenção. Pelos lados de Óbidos, o empresário começou por ouvir falar de uma igreja que queria ser livraria. Ou pelo menos era esse o plano da câmara municipal – devolver algum brilho à igreja abandonada de São Tiago, através da magia dos livros.

Como sempre, José Pinho decidiu ir mais longe. “A câmara mostrou-nos a vila, incluindo onze espaços em ruínas para os quais tinham projetos de recuperação. Quando houve um concurso público para a Livraria de Santiago, nós apresentámos a nossa ideia – não queríamos só uma livraria, queríamos onze”. Ninguém fez frente à proposta que viria a transformar Óbidos, que não tinha qualquer tradição literária, numa Cidade Criativa da Literatura. Eventos como o “FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos” e o “Latitudes – Literatura e Viajantes” atraíam toda uma nova génese de visitantes, ansiosos por conhecer a vila nas obras que esta tinha para oferecer.

Em 2017, foi a rua Nova do Almada no Chiado que chamou pela sua intervenção. A livraria Ferin, em atividade desde 1840, preparava-se para fechar portas, juntando-se às muitas livrarias históricas que Lisboa deixava morrer. Atraído pela singularidade do negócio, José Pinho chegou pronto a transformar a Ferin na livraria mais generalista do país, sem descuidar o seu foco em temáticas culturais.

Mudanças que aguardam o fim da pandemia para funcionarem em pleno, ao lado de outros planos do empresário, também prestes a florescer. De momento, foca-se em assinar os últimos papéis para inaugurar o Centro Cultural do Bairro Alto, uma das suas utopias mais antigas. Se tudo correr como planeado, a música, a arte e os livros terão uma nova casa no Bairro Alto, num edifício já escolhido, perto da antiga litografia Portugal.

À procura do caminho

Conquistas e perspetivas de futuro não faltam, embora o mercado do livro em Portugal esteja longe de ser um mar de rosas. Nunca é fácil ser independente num meio cada vez mais dependente das grandes superfícies, muito menos quando uma pandemia bate à porta. “Até à pandemia estávamos a funcionar muito bem, com um crescimento de dois dígitos ao ano. A pandemia para nós foi um desastre, pior até do que para outras livrarias”.

A queda a pique do turismo explica tal fenómeno, ao privar os pontos de venda de José Pinho do seu público-alvo. Ainda chegou a aderir à RELI – Rede de Livrarias Independentes, criada a pensar nas necessidades dos livreiros durante esta altura difícil. Mas para trás ficaram os números de outrora.

Foi, então, um alívio para o empresário poder voltar à carga com o Festival Lisboa 5 L. “Andámos ali muito no vai, não vai. Isto com a pandemia é tudo uma grande incerteza, mas sempre acreditei que fosse possível”. Até 9 de maio, a cidade transforma-se num enorme livro aberto, com a ajuda da Câmara Municipal de Lisboa e da Rede de Bibliotecas de Lisboa. Concertos, sessões de cinema, itinerários dedicados aos lugares favoritos de autores portugueses, debates e mesas redondas. Um vasto leque de atividades enche praças e espaços públicos, para celebrar a literatura em todas as suas vertentes.

Maioritariamente presencial, quando necessário online e em regime híbrido, recorrendo a live streams disponíveis nas redes sociais do festival. Não se faz mais do que materializar uma lição que os ossos do ofício ensinaram a José Pinho – todos os caminhos vão dar à literatura. “Porque os livros são isto, pegam-se à pele e as pessoas já não conseguem libertar-se deles”.

A seguir, quem sabe? José Pinho diz que vai andando por aí, “sempre à procura do caminho. É extraordinário o que muda em nós quando nos abrimos ao caminho sem preconceitos”.


FESTIVAL 5L Além de debates, lançamentos e mesas de autor, o festival conta com blocos temáticos para homenagear as muitas vidas que cabem na literatura. Endereçados àqueles que procuram conhecer a cidade aos olhos dos seus autores favoritos, os itinerários literários replicam as passadas de grandes nomes do universo lisboeta. A 5 de maio, celebra-se a memória de Joaquim Paço D’arcos e Eça de Queirós. Dias 6, 7 e 8 de maio, respetivamente, será a vez de Luís de Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos e o heterónimo pessoano Ricardo Reis saírem às ruas. O livro também é um bem indispensável. Assim o dita a secção Bem Essencial – Pão, Água e Livros, ponto agregador de uma série de performances literárias. Recorrendo a diferentes capítulos, abordagens e ritmos, constrói-se uma experiência móvel, dedicada à versatilidade da língua. O concerto cabo-verdiano Ki Kre Txeu e o espetáculo a solo de Maria Varbanova Enquanto tento fundir-me, a premissa são apenas algumas das surpresas que podem esperar-se desta iniciativa. E por falar em concertos, a música ganha o seu espaço para brilhar. No Cineteatro Capitólio, artistas celebram o poder da palavra todas as noites, primando pela pluralidade de géneros musicais. Nos primeiros dias, a poesia toma conta do palco. O Poetry Ensemble dá vida a versos falados em português, ao passo que Amaura, Maze, Nerve, Perigo Público e Chullage apresentam o rap nacional como terra fértil à reinvenção poética. Em seguida, a música clássica funde-se com o surrealismo às mãos da Lisbon Poetry Orchestra, delegando aSérgio Godinho, Filipe Raposo, Capicua e Camané a tarefa de encerrar o programa das festas. Já no âmbito da sétima arte, o Cinema Ideal recebe um ciclo de 5 filmes, dedicado aos livros no grande ecrã. Uma abelha na chuva (1971), Apocalypse now (1979), Galinha com ameixas (2011), Bruscamente no verão passado (1959) e Blow-up – História de um fotógrafo (1966) compõem o alinhamento escolhido. Cada dia um filme, sempre às 18h15. Há ainda tempo para desfrutar de exposições, que transcendem os limites do festival até dia 31 de maio. Ao ar livre, ‘Cartas de Lisboa’ retrata as dinâmicas da capital, numa ode à correspondência através dos séculos. Por sua vez, ‘A Janela’ apresenta vinte e cinco álbuns ilustrados e atividades, resultantes de um projeto de Educação para a Cidadania, a ocorrer na livraria Snob.


*Matilde Dias é estudante de jornalismo na NOVA-FCSH e está a estagiar na Mensagem ao abrigo do projeto Correspondentes de Bairro. Este texto foi editado pela jornalista Catarina Pires.

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5 Comentários

  1. José Pinho é o curador do Festival 5L, não o seu criador. O festival foi proposto pelos vereadores do PCP na Câmara Municipal de Lisboa e aprovada em Setembro de 2018.

  2. Descobrir o José Pinto foi, como ele afirma, um acaso em simples sucessão de acasos e isso é um previlégio para quem se abre aos caminhos. Porque os livros se colam à pele, imagino-o um pastor de livros, mais do que um empresário a empobrecer alegremente.
    Uma história que merece ser contada e lida e um texto bem escrito pela surpreendente Matilde Dias.

  3. Em Elvas, cidade património da humanidade, não há uma única livraria. Poderá está cidade ser um desafio?

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