Findo o confinamento a sério e chegado o Verão – para uma minhota, este calor de Abril é digno de camelos –, quis arrancar todos os males pela raiz. A técnica, antes de me meter um laser na epiderme, foi educada, apresentou-se:

         – Sou a Alexandra, podes tratar-me no feminino.

         E eu, confusa:

         – No feminino?

         E lá veio o relambório. Nascida Alexandra, veio a ser Alex quando chegou aos 15, primeiro @ Alex, depois x Alex, e enfim concluiu que Alexandra estava bem, identificava-se com a opressão de quem sente mãos indesejadas nos glúteos quando anda de metro. Achou por bem explicar-me isto, os glúteos das outras eram também os glúteos dela, uma ofensa a todAs nós.

         Eu, que um dia fui lexicógrafa, achei a explicação escusada, consistia apenas em sublinhar o óbvio. Chamando-se Alexandra, eu não iria assumir que não fosse a Alexandra.

         Ainda antes de começar o trabalho, fez-me a pergunta desconcertante:

         – E tu, és uma mulher?

         Regra geral, a não ser que esteja na obstetra, admito que isso de ser macho ou fêmea não é assunto que me encha a cabeça. Não querendo debater se sou um conjunto de genes ou um produto cultural, fiz-me de parva.

         – Sou a Ana Bárbara.

         – Então bom dia, Ana.

         Pimba, irritei-me logo, e fica o aviso aos leitores. Se não chamam Ri a um Ri Cardo, se não chamam Cá a um Cá Tia Vanessa, não chamem Ana a uma Ana Bárbara. Gente como nós, que se recusa a ser prefixo, pode reagir ou com um sorriso passivo-agressivo que não tem mais do que inocência ou com uma kalashnikov na mão.

         A Alexandra no feminino começou a trabalhar e quis fazer conversa com este pedaço de anti-sociabilidade, ainda por cima meio despido – e, portanto, desconfortável como se estivesse nu.

         – Foi fácil estacionar? Há quem tenha problemas.

         E eu lá lhe fiz a primeira inconfidência:

         – Estacionei mesmo aí à frente, havia um lugar para deficientes.

         Fulminou-me com o olhar, o que nada teve que ver com a minha infracção canalha. Pior do que o acto, só a forma de contar.

         – Queres dizer pessoas com deficiência, não é?

         Revirei os olhos.

         – Não, aqueles eram para papagaios tetraplégicos. Mas como nesta zona vivem todos em gaiolas acho um abuso que o lobby passaríneo nos tenha roubado espaço urbano.

         – Ah, já estou a ver que és troll.

         É uma conclusão um bocado lenta, na medida em que até a minha avó admite que tenho cara de ogre. E, quanto à deficiência, é evidente que é na cabeça que me falta qualquer coisa.

         Trocámos mais duas ou três frases e eu a achar que seria tudo inofensivo, mas ela topou-me o sotaque, a língua que fugiu para um I entre dois As. De desconstrutora de verdades sociais a um estereótipo foi um tiro:

         – Ah, és do norte. Pois, vocês lá são todos católicos e reaccionários.

         E eu, que sou ateia, que só meto os pés numa igreja se souber que há lá uma freira jeitosa:

         – Pois somos, graças a Deus Nosso Senhor. E dançamos todos rancho, bebemos vinho tinto e comemos farinheira.

         Algo nos meus olhos foi incapaz de me trair e a Alexandra no feminino não viu ali um pé de chumbo abstémio que só gosta de rúcula. Portanto, chutou:

         – Vocês lá não são como no Alentejo, não percebem que são oprimidos.

         Oprimida contra o laser, não tive tempo de reagir, e ela, zás, foi mais longe:

         – A tua opressão vê-se nisto. Vens à esteticista, queres usar laser, queres a pele lisa, literalmente arrancar o mal pela raiz. Depilas-te porque a sociedade te impôs este modelo de feminilidade. Provocas dor a ti mesma só para corresponderes à expectativa masculina.

         Claro que tudo isto é treta. Eu quero é que se notem os meus músculos para poder engatar senhoras acima dos 50, mas não ia confessar-lhe a minha estratégia, vulgarizá-la, não ia deixar que as miúdas soubessem que tudo isto é pensado, que nada em mim é natural. E já se sabe como é, qualquer fuga de informação numa esteticista acaba no website de um jornal.

         E dali Alexandra, a fêmea, foi para o seu estado, justificou a traição.

         – Eu sei que contra mim falo, também faço parte da engrenagem. Trabalho para uma empresa, faço com que as mulheres continuem a achar que têm de seguir um modelo de beleza, mas o capitalismo está num estado tão avançado que fica difícil vivermos em cooperativas e o escapismo, passados uns meses, já se torna insustentável.

         Solução?

         – É preciso dar a volta a isto – dizia, sem explicar o que era isto, que volta era preciso dar, e como. Sabia quando: já. O estado de urgência era evidente, precisávamos de dar uma voltinha, e para quê pensar no que viria depois? Os cacos são o maior estímulo de quem não tem para onde ir. – Se mantermos as coisas como estão, os ricos ficam mais ricos, os pobres ficam mais pobres.

         Houve um impulso dentro de mim que quis dizer, como num triunfo, “mantivermos!”, mas policiar a linguagem de alguém para quê? Enquanto continuou a falar, tirei-lhe o raio-x, e quis afectar-lhe o brio, aquele ar superior e suserano de quem se imbuiu de uma superioridade teórica de quem leu coisas abstrusas.

Gosta de ser a única a tê-las lido para depois gozar com quem não leu. E, claro, acha que o Eça de Queiroz é um racista, que o Camões é um misógino, que as aulas de literatura portuguesa, do secundário ao doutoramento, só deviam incidir sobre a sua tese de mestrado em antropologia, que demorou quatro anos a ser feita e foi aprovada com 14 e honrarias dos okupas.

         Pá, sinceramente, acabei o doutoramento com nota máxima, fiz dois mestrados ao mesmo tempo, publiquei artigos científicos em quatro línguas, fui das readaptações do mito de don Juan na literatura italiana à construção sensorial da poesia romântica e depois a análises espectrográficas e triângulos acústicos em casos forenses com disfarce de voz, escapei por um triz de um crocodilo na Amazónia equatoriana, fui a melhor marcadora das Olimpíadas de futebol inter-escolas (!) no sexto ano, saí ilesa depois de ter estado presa num frigorífico, falo francês melhor do que o Balzac, sei contar até dez em sueco, montei uma billy, sou a neta preferida das minhas avós, há uma tia-avó que me adora, fui a quarta do infantário a aprender a apertar os atacadores, ganhei um rebuçado de morango num concurso de soletrar a meio da primeira classe, fiquei em segundo num concurso de bochechas fofas no quinto ano, e a vencedora era a melhor amiga da presidente do júri, faço um bolo de três camadas de chantilly e ananás, sei bem o que valho, não preciso de me gabar nem de me armar em esperta com ninguém.

         Enquanto me punha gel nos gémeos e lhes disparava com a máquina de laser em cima, AlexandrA atirou-me a literatura toda: a Butler, a Simone de Beauvoir, a Steiner, a Perkins Gilman, até o Engels a falar do casamento. Perguntou-me se os li. Antes de eu responder, já a voz estava mais alta: “Tens de ler!”

         Eu disse que ler me fazia mal à vista, que só fazia um esforço pelo Harry Potter, e ela disse-me que tinha cancelado a J. K. Rowling. Não tendo passado o absoluto crivo moral, era indigna das prateleiras porque não lhe apetecia ver um pénis quando ia ao banho no ginásio, “mas o Harry Potter é de todos nós, nós é que o fazemos enquanto leitores”. É uma boa teoria para quem não teve de perder energia a pensar no que era um horcrux, não pôs um centauro a analisar mapas astrais e não conseguiu juntar mil adolescentes numa escola longe dos pais sem que nenhum – nenhuma – engravidasse.

         Alexandra no feminino insistiu que eu tinha de ler mais, que não podia atar-me a uma visão do mundo, que era essencial ler a Chimamanda. Eu acho possível viver-se para o mesmo livro, voltar-se ao Barnes com uma fúria de cão com fome, bebê-lo de todas as vezes como um hidrópico no meio do deserto, sol na vertical a bater-lhe em cheio na tola. Mas também acho possível ser-se decente e perceber-se que o Nelson Rodrigues é um amor imbatível. Um gajo não deixa de saber pôr vírgulas no sítio só porque é um crápula, um poema não deixa de ter métrica só porque o poeta põe os cornos à mulher.

         Mas, entretanto, não sei bem como, já estava a ser acusada de não ter solidariedade para com as mulheres que não removeram os seus genitais masculinos e era-me cobrado que alguém me tivesse cobrado pelos livros do Harry Potter, em vez de eu os ter comprado para não dar lucro a uma milionária, que na verdade só enriqueceu porque outras pessoas os compraram.

A acusação foi tão gratuita que me fez lembrar aquele dia em que indignei uma sala no Brasil. “Você não se identifica como negra?”, perguntaram-me com raiva e desprezo. E eu, que uso protector 50+ para crianças até quando vou para a sombra da praia em Novembro, fiquei sem saber como pôr alguém em frente ao óbvio. Neoblanc Pedrosa para os amigos, achava que o óbvio era eu.

         Dali, já tínhamos o FBI e a CIA à porta do discurso. De repente, o ideal era anular o género em tudo (dizia ela, que se apresentou com ele), dizer, por exemplo, que o aborto livre e gratuito devia estar ao alcance de quem tivesse um útero, o que até dá a ideia de que, se os homens engravidassem, não seria óbvio desde o início que tinham direito aos corpos deles. Ainda eu processava isto, já ela disparava que os tampões e os pensos higiénicos eram um assunto das pessoas que menstruavam, como se a descamação do endométrio fosse daquelas coisas que podem acontecer a qualquer um, aleatórias como a asma, sem terem que ver com.

         Dali ao amor livre, foi meia perna de distância. A monogamia é uma prisão, não há pessoas mas corpos, temos de desconstruir as construções, a burguesia é que nos impõe um só corpo na cama e a prisão do casamento só para garantir que a propriedade fica nas unidades familiares, que as fortunas, as mansões e os Ferraris passam pela linhagem masculina para as pequenas crias que, afinal, só existem para que a mais-valia extraída não saia das mãos dos Bettencourts e outros betos desta vida.

E, claro, chegou a teoria que já esperava, e de repente a Alexandra no feminino já me contava a sua história de vida, a relação que tinha com o Zé, a Filipa e a Anabela. Há sempre muitas palavras para que um homem possa fazer da intimidade do seu corpo o mesmo que um gato de telhado que não foi à castração. No caso, é a história da linha verde do metro de Lisboa do costume: chamam-lhe “amor livre”, os outros todos ouvem “harém”.

         A Alexandra no feminino nem precisou de me descrever o Zé. A história da vida é cíclica e eu sou a última grande generalista nascida nos anos 90. Portanto, vi-o logo de t-shirt coçada, barba por fazer, cabelo comprido que há muito não sabe o que é champô. E muita lábia, muita treta, erecções de dois minutos, mau na cama. Sempre com um livro em inglês debaixo do braço, como um felino que procura a espinha, também ele será libido com fome.

         Neste Zé, como nos outros, a história é sempre a mesma. O amor é muito livre e muito lindo e todos podem ir para a cama com todos, mas no fim o homem vai com várias mulheres e as mulheres, fora esse homem em relação a quem orbitam, também só vão para a cama com mulheres. De cada vez que surge outro rapazinho, lá está o Zé a proteger as donzelas das más intenções alheias, escrutinando-o e encontrando-lhe defeitos, descobrindo fotografias antigas em que o gajo novo, chegado ao nono ano, andava a comer lulas recheadas, opressor e especista, instrumentalizando a dor de um animal para o seu prazer fugaz, separando famílias, permitindo desmembramentos, traumatizando a lula-mãe que vê partir as suas crias.

         Então o Zé chuta os defeitos, a Alexandra no feminino, a Filipa e a Anabela devem dar-lhe razão, aceitar o peso, a cobrança, a manipulação, o comedor de moluscos safa-se de boa e elas ficam umas com as outras porque o Zé Satélite não tem ciúmes de mulheres.

         Ela não descreveu nada disto, mas, numa marosca fulminante, até o feminismo é instrumentalizado para o machismo. A Alexandra no feminino, claro, como as outras na mesma situação, garante que é tudo opção dos próprios, que conversam sempre muito, e que o género e o sexo do Zé não importam, e que ele até nem se identifica como cis. É tudo, portanto, muito teórico e bem intencionado e as coincidências são coisas que, por absoluta casualidade, acontecem cem vezes para o mesmo lado.

         Por fim, lá atirou:

         – Quem não entende isto está dominado pela engrenagem.

         Só não lhe dei uma resposta fulminante porque tenho educação e porque também não me interessava arrastar aquilo. Por amor de deus, eu só queria um laser que fosse à raiz dos pêlos, voltar para o trabalho sem falar com ninguém. Sem saber como, estava metida naquilo, e a Alexandra no feminino, enquanto me subia a perna, já se sentia na liberdade de me perguntar qual era a minha relação com os meus genitais.

         Sem outro remédio, tive de responder, com educação e pompa, marcando a distância com o você, que eu não sou dessas:

         – Desculpe, mas sobre isso não falo num primeiro encontro.


Leia as outras crónicas aqui.

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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