Detesto escrever histórias de amor, mas é para lá que isto se encaminha.

Até agora, não tinha encontrado nada de anormalmente belo no Meu Café, em Campo de Ourique, apenas a beleza corriqueira, mas essa encontramo-la todos os dias desde que os olhos sejam para ver.

Há duas semanas, estava eu na esplanada, o pequeno-almoço a aparecer-me pela mão da Marisa, quando me apercebi de uma mulher de meia-idade procurando alguém junto ao coreto. É uma coisa linda, uma mulher em busca. Julgo logo que está em busca de mim, quero dizer-lhe estou aqui, mas por norma fico só a olhar.

A procura saía-lhe do corpo. Ao fim de meia-hora pareceu-me demasiado velha para a idade. Os preliminares custavam-lhe.

E eu, assistindo, vi uma equação a resolver-se: do lado da Maria da Fonte vinha um homem também de meia-idade.

Quando se encontraram, foi coisa de zás no tempo, um arrecuo de décadas, e os dois meteram-se no abraço mais de braços, mais de corpo, de ânimo e de boca que eu já vira. Também choraram, mas escuso-me a descrever porque as lágrimas eram lá deles.

Depois, devagar, aproximaram-se do Meu Café como quem se chega à cama e sentaram-se na mesa ao lado da minha. De perto eram muito parecidos, pessoas que se assemelham ao fim de séculos de convivência.

Eu o que me irrita é ter óptimo ouvido – e talvez alguma curiosidade e decerto inveja, que é o que se sente perante casais felizes. Daí em diante, nas últimas duas semanas, chegavam ao café pelas oito da manhã e sentavam-se sempre na mesa ao lado da minha.

Via-se-lhes na serenidade e num certo desarranjo que passavam a noite a cobrar ao corpo as dívidas da distância. E que ali no café se desinibiam na conversa como no quarto. E isto aumentou-me a curiosidade e a inveja: mas prometo contar a história como a ouvi, sem acrescentos. Meu, só ponho o nome de Afonso ao homem (não resisto a participar um pouco), e a ela chamo-lhe Vitaliana. De resto, segue de paráfrase.

Logo depois do encontro no coreto, Vitaliana pôs a mão sobre a de Afonso fazendo telhado sobre casa, e perguntou-lhe: «Lembras-te de quando nos vimos pela primeira vez?», ele respondeu-lhe: «Foi noutra vida…», e meteram-se a descrever os primeiros tempos.

Foi coisa chata, logo a começar, porque Afonso pertencia ao exército que sitiava Lisboa e Vitaliana era portuguesa, estava do lado de cá das muralhas. Nem ele nem ela queriam saber muito de guerras, mas nesse tempo ainda se deixavam ir de arrasto. Vitaliana oferecera-se para limpar uma das torres, de onde espiava a massa dos espanhóis.

Quis ver mais de perto, foi espreitar à Porta de Santa Catarina. Suponho que os portões não tivessem óculos como os das nossas portas, muito menos durante cercos. Mas ela conseguiu observar os espanhóis: claro que deu logo com o soldado que hoje é o homem a seu lado no Meu Café.

Na verdade, Afonso só a conheceu mais tarde. Por enquanto, atarefava-se com o quotidiano de soldado que pretende tomar uma cidade. Já não se fazem quotidianos como antigamente, embora nesse século o brilho de Lisboa também doesse um pouco aos olhos. Afonso não deve ter visto a portuguesa que tanto limpava o chão da Torre da Atalaia. Limpava só para o ver de cima. E depois Afonso teve de se desenrascar da peste, que caminhava de soldado para soldado. Salvou-se sem grandes motivos, mas hoje Vitaliana diz: «Salvaste-te para me encontrares.»

Uns anos mais tarde, ela trabalhava num dos novos paços de Santos. Continuava a limpar, que nesses tempos nascia-se de um modo e de um modo se vivia. Numa noite, a atracção dos senhores era um pedinte espanhol, um homem de nada, arraçado de Lazarilho, que se dispunha a contar como passara por Leão, vivera da terra em Castela, vira os barcos partindo de Cádis. As aventuras dos seus últimos cento e vinte anos.

Embora tolerassem as fábulas do mendigo, os senhores não aceitavam que falasse de barcos espanhóis, quando eram as caravelas portuguesas que sabiam verdadeiramente a mar. Meteram-no nas cozinhas.

Quem lhe serviu o pão foi Vitaliana. Reconheceu-o logo, quis contar-lhe, esperou que ele tratasse da fome. E depois, enfim, consta que os amantes acabam por se reconhecer. Vitaliana, de tanto ter esperado por Afonso, viveu do reencontro e não deu pelo tempo a passar.

Estavam naquilo de servir a mesma família havia algumas décadas quando Afonso se queixou. A vida não era só amor e servidão. Vitaliana, que no fundo também concordava, deixou-o partir. «A contragosto», acrescenta agora no Meu Café.

Afonso embarcou-se para a Índia e deixou-a em Lisboa. À barra do Tejo já se arrependera – mas Portugal estava muito empenhado nas especiarias, não virava as naus por amor. Nem depois contava os corpos quando estas naufragavam.

Foi o que lhe aconteceu no Cabo da Boa Esperança, nome dado por algum louco que decidiu esquecer que o Adamastor ainda vigiava. Afonso não viu o monstro, ocupava-se a fugir da rebentação num pé de rocha.

«Que medo, só de pensar», diz agora Vitaliana. «Já passou», diz-lhe ele.

É simbiose, é o que é: no mesmo momento em que, longe, Afonso se safava daquilo, Vitaliana inquietou-se. Parou de esfregar o chão e ficou uns tempos certa de que ele tinha morrido. E também segura de que daí a uns meses, tempo nenhum para quem passara os últimos séculos a esfregar o mesmo chão no mesmo paço, teria um filho.

Depois de sobreviver à Boa Esperança, Afonso ficou abandonado na costa, agora um pouco mais português do que espanhol, e com o tempo um pouco mais africano do que europeu. Via as naus ao largo, nenhuma o resgatava.

Quando finalmente conseguiu embarcar de regresso a Lisboa, esquecera-se ao que ia. Mais um, menos um, era como se tivessem passados duzentos anos. Não há memória que aguente.

Vitaliana agora entretinha-se com as embarcações que chegavam a Belém, quais carregadores cansados de tanto ouro. Ouro a mais é pechisbeque. Já não contava encontrar Afonso, isso era esperança de outro século, mas agora que o filho morrera não tinha grande ocupação. Afonso júnior fizera-se burguês, não teve família e deixou o dinheiro à mãe, que o viu morto cedo – demasiado cedo, aos noventa e três anos.

Desta vez, não encontrou Afonso pelo óculo do portão como em 1384. Reconheceu-o entre as figuras magras que saíam do navio. Aproximou-se, ele assustou-se. Não a conhecia, e desaprendera o espanhol e o português. Não falava língua de gente. Vitaliana levou-o para casa, no Bairro Alto, e deu-lhe de novo pão, como no primeiro encontro. Afonso saciou-se – e não soube dizer obrigado.

Ela tentou ensinar-lhe a língua e soltar-lhe a memória. Passear por Lisboa não o desprendia, mesmo quando foram às ruínas do paço de Santos onde tinham vivido. A certa altura, Vitaliana já se questionava quanto tempo a mais teriam tantas décadas de espera.

«Foste muito paciente», diz-lhe Afonso, e depois quase ao ouvido: «E resolveste o problema da melhor maneira possível».

Vitaliana levou-o uma manhã pela mão até ao alto da Ajuda para lhe ensinar a língua nas partes do corpo. Ele atrás, nem lembrado de como navegar nela. Vitaliana deitou-se e deitou-o consigo: isto é a minha respiração, aqui a roupa, isto é tirar a roupa, aqui é o teu corpo, e agora ele no meu – e isto é o nosso movimento e o nosso ofegar e a palavra prazer, que vem depois da palavra desejo.

A meio, Afonso reaprendera o português e já se lembrava de Vitaliana. No fim, porque o estremecimento era deles e da terra inteira, provou que sabia: «E isto é um terramoto», disse. Era, e Lisboa desaparecia. Mas os dois estavam a salvo, Afonso lembrara-se de como amar, e mantiveram-se só nisso nos tempos seguintes.

Era como se tivessem passado todo o século XIX primeiro ainda no feno da Ajuda, depois nos dosséis que os romancistas descreveram, e por fim num desses novos colchões de molas inventados por Heinrich Westphal em 1871.

Só se levantaram com o som dos tiros. Foram à janela, viram que Lisboa mudara, não era só nova a Baixa Pombalina, agora fora-se o Aterro, deram com novas avenidas – e com um rei servido em poça de sangue. Fecharam a janela, não era com eles.

Eu aqui começava a achar isto inconcebível. Mais de um século de cama é muito egoísmo, não admiraram nada do que a cidade mostrava, nem quase foram a tempo de ver os republicanos na varanda dos Paços do Concelho. Estive para lhes dizer: «Chega, não acredito que isto seja possível», mas calei-me.

Eles agora discutiam. Finalmente, haja algum senso. É que Afonso, uns anos depois, mandou gravar a ouro numa cómoda de madeira uma frase, a mesma repetida no móvel de alto a baixo, que incomodou Vitaliana. Julgava ela que era «Amo-te sem fim», porém leu mais de perto e era «Salazar tem sempre razão».

Passaram toda a Guerra Colonial a discutir. Quem tinha sempre razão era Vitaliana, e como prova saiu de casa. Meteu-se aí com uns nascidos no século passado, nunca estivera com gente tão nova. Já Afonso, gastou os anos depois do 25 de Abril a raspar a frase da cómoda. Salazar nem com decapante saía.

A discussão durara tempo suficiente. Afinal, uns cinquenta anos, quase nada. Há um mês, ele encontrou-a no Facebook, stalkou um pouco, tal como stalkam um pouco todos os que amam, e mandou-lhe uma mensagem: «Vi que estás descomprometida. Queres tentar de novo?»

Tentaram de novo, começando no coreto onde os encontrei. Ela ao encontro dele e ele ao encontro dela eram uma equação antiga a que se acrescentava mais uma incógnita.

 Eu não sei o que fazer deles. Se os escreva, se os ignore. Parece-me fantasia, não cabe em sítio nenhum, a máxima de o amor vencer a morte. São onze da manhã, eles tardam e suspeito que não voltem ao Meu Café. Passei duas semanas a ouvi-los, agora escrevo baixinho com medo de que alguém ouça a história e não acredite.

Daqui a uns anos, noutra Lisboa, a Lisboa a que nunca chegarei, imagino-os lado a lado, desinteressados do tempo. Talvez se cansem, talvez achem que centenas de anos são anos a mais, e acabem parados, de braço dado, da outra banda a ver Lisboa. E muito quietinhos se tornem pedras, para continuarem quietos e juntos depois de Lisboa acabar.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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7 Comentários

  1. para quem “detesta escrever historias de amor” não está nada mal … eheheh

  2. Grade conto, Afonso Reis Cabral…..,
    Tu fascinas-me com a tua imaginacao..
    Muitos parabéns e tanto êxito como tu desejas e mereces. Serás sempre o meu escritor. Um grande abraço

  3. Afonso gostei muito da sua crónica.É um privilégio tê-lo como cliente.
    Obrigado por incluir O MEU CAFÉ na sua crónica

  4. Isto é mais do que um conto. É um atravessar de séculos à mesa de um café e com o mapa do amor à frente.
    Bela prosa. Parabéns

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