Uma rua lisboeta onde cada cruzamento é uma zona de convívio, com passeios alargados, bancos de madeira e canteiros de flores. Esta é a Rua das Praças, entre a Madragoa e a Lapa, observada ao alto pela Basílica da Estrela e, ao longe, pelo Tejo. Foi também a primeira morada do jornalista e escritor Joaquim Vieira em Lisboa, sítio das boas lembranças de estudante na cidade, mas também de acontecimentos dramáticos dos tempos da ditadura.

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Nascido em Leiria em 1951, Joaquim Vieira mudou-se para Lisboa em 1968 para tirar engenharia no Instituto Superior Técnico. Aos 17 anos, já tinha visitado a capital algumas vezes, mas só como morador a conheceria com intimidade.

“Vivi aqui os primeiros anos da minha vida lisboeta, na casa de uns tios, no último andar. Foi a partir daquela janela que Lisboa surgiu como uma verdadeira revelação”, conta, apontando para o topo do número 42, na esquina com a São João da Mata.

“Numa manhã que vinha a sair de casa, os agentes estavam à minha espera.”

Foi justamente neste cruzamento que, em 1972, as coloridas lembranças lisboetas ganhariam contornos mais cinzas. “Ao fim de quatro anos de estar aqui a viver, fui preso pela PIDE, porque me envolvi no movimento contra a ditadura do meio estudantil”, lembra.

O cruzamento entre as ruas da Praça e de São João da Mata, onde em 1972 o jornalista foi detido por agentes da PIDE.

A prisão aconteceu pela manhã, em frente onde hoje funciona um pequeno café. “Numa manhã que vinha a sair de casa, os agentes estavam à minha espera. O meu carro estava estacionado na São João da Mata e, precisamente, quando abri a porta, a polícia apareceu. Fecharam a entrada da rua e eu não pude passar”, conta.

Em seguida, foi “escoltado” pelos polícias até o apartamento. “Naquela altura, estava lá apenas a minha tia. Revistaram toda a casa, à procura de papéis subversivos e, depois, levaram-me para Caxias”, recorda. 

Após um ano e meio de prisão, não retornaria mais à antiga morada. “Depois deste período de interrupção na minha vida, ainda me arriscava a ser novamente preso por outro processo e decidi exilar-me em França”, explica.

O número 42 da Rua das Praças permanece como antes, embora já sem os antigos vizinhos.

O retorno a Portugal dar-se-ia em maio de 1974, mas não mais para o terceiro andar do número 42 da Rua das Praças. “Refleti que era o momento de ter independência económica da família, de conciliar os estudos com um emprego qualquer.”

Joaquim Vieira ainda não sabia que o “emprego qualquer” já seria em sua nova profissão. O antigo estudante de engenharia decidiu concorrer a um sistema de bolsas promovido pelo Estado português e, no mesmo ano, retornaria a Paris onde esteve exilado agora para estudar jornalismo. “Este curso mudaria a minha vida para sempre e nunca mais pensei em engenharia.”

“Ainda existe aqui muito da Lisboa tradicional. Do ponto de vista urbanístico, está até melhor.”

Quase meio século depois, na esquina onde foi preso, Joaquim Vieira reconhece na Rua das Praças alguns traços da via dos tempos de estudante.

“Ainda existe aqui muito da Lisboa tradicional. Já não há os prédios degradados, provavelmente devido aos apoios da câmara e ao turismo de uma forma geral, mas a zona continua bonita pois preservou-se a traça original e, portanto, não vejo tanta diferença arquitetonicamente. Do ponto de vista urbanístico, está até melhor. O trânsito agora faz-se só em sentidos únicos e os cruzamentos agora têm estes bancos de jardim. Está tudo mais pensado para o peão”, acredita.

Após viver em vária zonas de Lisboa, o jornalista atualmente reside na freguesia de Estrela, próximo da Rua das Praças, mas já não reconhece nenhum dos antigos moradores do prédio onde viveu. “Ainda recebi algumas notícias, mas isto enquanto os meus tios estavam vivos. Hoje, não sei o que houve com os meus vizinhos da época”, afirma.

O que não o impede, entretanto, de frequentemente passar pelo local. “É uma rua que fica na fronteira de dois bairros tradicionais de Lisboa. Há quem diga que pertence à Madragoa, há quem diga que à Lapa. São dois sítios contrastantes, o que a faz ser a curiosa interseção entre um lado popular e elitista da cidade”, reflete.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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