Não é à toa que o Bairro 25 de Abril, em Linda-a-Velha leva este nome. É, em si, a realização do que dizia a canção de Sérgio Godinho, Liberdade.Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação.” Apesar do longo caminho a percorrer, nas barracas de Linda-a-Velha foi nesse dia que entrou, por fim, a esperança. A “liberdade a sério” começava a ganhar forma, tijolo a tijolo.

Passaram-se 47 anos, as casas do Bairro 25 de Abril substituem a precariedade de outrora. Aqui, muito se lutou pelo direito a quatro paredes, numa época em que habitação digna constituía um luxo. Atualmente, passear pelas ruas do bairro é contemplar o esforço comunitário. Do complexo polidesportivo à creche, poucos adivinhariam que, antes de morar, os residentes desta localidade começaram por construir.

Foi no rescaldo da revolução que nasceu o programa de Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), destinado a dar vida ao mote “casas sim, barracas não!”.  Ao abrigo do projeto, foram criados bairros de moradores para moradores, para responder diretamente às necessidades da população. Em Linda-a-Velha, eram nove os núcleos de barracas, onde as famílias, oriundas de várias partes do país, faziam teto daquilo que encontravam.

Até que o “orgulhosamente sós” deu lugar ao “sempre unidos”, expressão que acabou por servir de título ao primeiro jornal da vizinhança.

Com as habitações terminadas em 1981, sonhou-se e cumpriu-se o Bairro 25 de Abril. E que nome melhor havia para um bairro destes? De muitas mãos se fizeram estas casas, e várias vozes merecem hoje contar a sua história.

A jovem militante que ninguém esquece

Quando se fala dos anos de luta que deram origem ao bairro, há um nome na memória de todos – Isabel Cordovil. Foi em novembro de 1974 que a psicóloga e militante política de 22 anos abordou, pela primeira vez, os moradores das barracas de Linda-a-Velha, com a missão de dar a conhecer o programa SAAL.

Contrariava-se, assim, o hábito de colocar arquitetos à frente das obras de realojamento, em prol de uma visão mais humanística. Já tinha bastante conhecimento da problemática das barracas e 6 anos de experiência em cursos de alfabetização de adultos. Era a formação perfeita para o que o SAAL procurava”, conta Isabel. Ao lado de Isabel atuavam o estudante de engenharia Nuno Vasconcelos e o arquiteto José Silva Carvalho, ambos escolhidos pela própria enquanto pilares de uma equipa técnica jovem e reduzida. No fundo, o que não se tinha em idade, compensava-se na prontidão em ouvir os moradores, no dia-a-dia passado no terreno.

Isabel Cordovil, a jovem ativista que liderou o processo político da construção do bairro. Foto: Mariana Mateus

No programa SAAL, fazia-se mais do que construir casas para quem não as tinha. A prioridade era envolver as famílias na criação do bairro, para que o projeto lhes pertencesse antes da entrega de qualquer chave. “Capacitámos as pessoas para serem donas do seu destino. Mostrámos-lhes que elas mesmas conseguiam aceder a uma vida digna, com base no que elas são, no que elas sabem e naquilo que conseguem fazer juntas”, recorda.

Das conversas com os habitantes passava-se à ação, num espaço de intercâmbio onde todas as opiniões contavam. A espinha dorsal da obra foi a Associação de Moradores 25 de Abril, fundada a 11 de abril de 1975, integrada por representantes dos núcleos de barracas. Não só incentivou os moradores mais céticos a darem uma oportunidade à equipa, como também auxiliou a construção das casas.

Isabel recorda uma total confiança no poder popular, num projeto de cariz “absolutamente utópico”: “As mulheres participavam de uma maneira extraordinária, nunca antes vista em ditadura. Tudo era feito com o máximo cuidado para preservar os hábitos daquelas pessoas. Uma absoluta revolução”.

A partir daí, fez-se história a um “ritmo estrondoso”. Além da construção de 192 casas, financiadas pelo Fundo de Fomento da Habitação, a população passou a ter acesso a uma creche, um recinto polidesportivo, um centro de dia e uma instituição de ocupação de tempos livres – essenciais no apoio a diferentes faixas etárias.

O facto de tudo se encontrar tão próximo das pessoas podia, no entanto, isolá-las. “Nada foi construído só para os moradores do bairro, não queríamos que aquilo fosse visto como um gueto”. A Câmara designou uma parcela do terreno para autoconstrução, incentivando outros a construir ali as suas casas. Uma delas foi Isabel. “Eu e outros que estavam envolvidos na obra, acabámos por construir casa no bairro, por volta de 1985. Praticamente já vivia ali, até que passei mesmo a lá morar”.

Embora se tenha mudado para Lisboa, Isabel permanece em contacto com o bairro. Mantém a antiga morada, os amigos e continua a frequentar a vida associativa sempre que pode. Mas acha que a associação está agora menos focada em fazer pelos moradores. “Os corpos gerentes começam a ser ocupados por pessoas que têm uma visão de negócio, muito mais virada para a rentabilidade do centro de dia”, diz.

Os ativistas numa fotografia de Isabel. Foto: Mariana Mateus

Mas a visão é otimista em relação ao futuro e vindo de uma revolucionária, não podia ser de outra maneira. “É muito importante que pessoas nascidas depois do 25 de Abril se interessem por perceber o que é a revolução. A mobilização é possível e para isso todos os testemunhos de quem viveu o 25 de Abril são necessários”, conclui.

A democracia ou uma “carga de porrada”

Na casa de Fernando Rosendo fala-se da construção do bairro pela voz da experiência. Já cá estava antes e foi graças à sua preciosa ajuda que antigos terrenos de terra batida se transformaram no que são hoje. “Por acaso, não calhou eu nascer aqui, mas posso dizer que este bairro nasceu comigo”, afirma Fernando.

Filho de pais “sem poiso”, assentou em Linda-a-Velha aos 6 anos, onde ajudou a erguer a barraca que viria a ser o seu lar de infância. “O meu pai conheceu a minha mãe quando estava na tropa em Évora, mas acabou por desertar. A partir daí, eles fizeram vida de ambulante, até que viemos aqui ter”. Madeira e chapa metálica faziam, assim, as vezes de casa, cozinha e, quando necessário, sala de partos. “Sou o mais velho de 13 filhos. Muitos dos meus irmãos nasceram aqui”, recorda.

Fernando na casa onde ainda mora. Foto: Mariana Mateus

Viveu muito em poucos anos de vida. Da infância recorda a pobreza extrema, transversal a grande parte de Linda-a-Velha nos anos 50. “Sustentávamo-nos como podíamos, sabe? Governávamos a vida a vender agulhas e cabides que o meu pai fazia”. Fernando começou a trabalhar aos 12 anos como aprendiz de mecânico, até ser convocado para a guerra colonial. “Só sabe quem lá esteve. Fiquei todo contente com o 25 de Abril. Percebia pouco ou nada de política, porque o governo também escondia tudo. Para quem esteve na guerra colonial, o 25 de Abril foi um paraíso.” De volta a Portugal, regressou às barracas, onde construiu uma nova vida ao lado da mulher e do primeiro filho.

Nas suas memórias, o 25 de Abril será sempre lembrado como o dia em que virou costas ao emprego na área da construção civil. “O meu patrão queria obrigar-me a trabalhar num dia como aquele… comecei a ouvir as notícias e pensei vou mas é para casa, ver o que se passa em Linda-a-Velha. E não voltei mais”.

Meses mais tarde, estava na vanguarda das lutas pela habitação social – de volta à construção, mas do outro lado. Ao início, encarou o projeto com alguma estranheza. “Quando tudo começou não passava nenhum cartão ao SAAL. Já estava habituado a morar numa barraca.” Entre os que sempre acreditaram esteve a mãe, que acabou por falecer pouco antes de receber uma casa. Fernando rapidamente se juntou à luta, motivado pela perspetiva de dar à família uma vida melhor que a dele.

Além de presidente da direção da associação representava os moradores nas imediações da obra. Acabou por se tornar num faz-tudo – passava cheques e usava a sua experiência na construção civil para ajudar sempre que necessário. Não foi fácil, mas, no final, a vontade coletiva prevaleceu. “Ainda tivemos aí uns desafios. Chegávamos a ir às sessões públicas da câmara e não deixávamos sair de lá os vereadores enquanto não resolvessem qualquer problema que precisássemos. Se fosse hoje, levávamos todos uma carga de porrada”, conta.

Até 2020, Fernando foi presidente da assembleia geral de moradores. O desinteresse manifestado pelo notório desgaste de algumas casas preocupa-o agora, quando “tanto se lutou para realojar as pessoas das barracas e agora se vê aqui situações próximas de ruínas, quase”. Por outro lado, o espírito revolucionário, tão característico do bairro, já viu melhores dias. As casas começam a ser vendidas pelos herdeiros e o propósito por trás da habitação social parece cair no esquecimento. “Isto nunca foi feito com o objetivo de ter lucro. E agora, com o mercado, há casas que se vendem por milhares. Faz-me muita impressão”. Aos 74 anos, diz que já não arreda pé da sua primeira e única casa. Para ele, o 25 de Abril celebra-se todos os dias, ao viver perto do melhor que a revolução lhe deu.

A casa de memórias de Joana

No dia 25 de Abril de 1979, Joana Correia recebeu a habitação que tanto desejava, hoje convertida numa autêntica casa de memórias. Em pequenos caixotes, as fotografias amontoam-se. “Fazíamos umas festas tão divertidas na associação. Cada um trazia coisinhas – um bolo, uma bebida. Rifávamos tudo para a associação ter dinheiro para as coisinhas que precisava”, conta.

Joana Correia com as suas caixas de memórias. Foto: Mariana Mateus

Moradora no bairro há 42 anos e funcionária da creche local há 40, Joana recorda uma vida inteira passada no bairro, onde descobriu amigos, família e uma união entre moradores como hoje não há. Após uma década a morar em Sesimbra, a alentejana de 16 anos chegou às barracas de Linda-a-Velha, com o intuito de morar perto dos irmãos que já se encontravam na zona. “Conheci logo o meu marido com quem casei e aos 19 anos já ia no terceiro filho. Uma senhora cedeu-nos uma barraquinha que tinha a mais e começámos a fazer a nossa vida”.

A revolução dos cravos é como se fosse ontem. Nessa data tão querida, a preocupação de Joana era apenas uma – onde iria encontrar pão? “Fui ter com o padeiro, como costumava, e ele disse-me que naquele dia só havia um pão e que nem sabia se amanhã ia haver mais. Eu pensei logo ‘ai como é que esta malta vai comer?’”. No fim de contas, tudo se resolveu. O dia que terminou com uma ditadura de quase 50 anos foi passado junto da mãe, hábil nas artes de fabrico de pão. A simbologia revolucionária salta à vista, numa escolha própria de quem tinha muitas bocas para alimentar.

Ao lado do marido António Patinhas, Joana frequentava manifestações e as reuniões associativas, na Quinta dos Cravos, que fazia as vezes de sede. “Às vezes ficavam em reuniões até às 3, 4 da manhã para acertarem pormenores com a Isabel, o Nuno e o senhor Zé. Depois de saírem, eu e outras mulheres ainda íamos lá esfregar tudo com sabão azul e branco. Deixávamos tudo limpinho para eles poderem trabalhar”, conta.

Joana recorda o dia em que marcharam com cartazes por Linda-a-Velha, após colocarem o primeiro tijolo no bairro. “Um senhor que morava ali numa vivenda ao lado dos terrenos do bairro começou aos tiros à gente! Porque não queria pessoas das barracas a morar perto da vivenda dele”.

O momento da entrega das casas ainda é recordado com lágrimas nos olhos: ver pela primeira vez os seus três filhos, habituados a dormir na mesma cama, instalados cada um no seu quarto. “Quando nos atribuíram a casa, as ligações para ter água e luz ainda não tinham sido feitas. Pedi-lhes para esperarmos mais algum tempo até tudo estar completo, mas eles estavam tão entusiasmados… como podia dizer que não?”. Nos primeiros dias, remediaram-se a ir buscar água ao chafariz local e a usar um pequeno lampião, ainda guardado no alpendre de Joana.

No que depender de Joana, continuará a assinalar os dias da liberdade, até durante a pandemia. “No ano passado, pus em todas as janelas da casa um cravo vermelho feito por mim em papel. Eu vivi o 25 de Abril e significou muito para mim. Tenho sempre de o comemorar, mesmo com coisas simples”. É com orgulho que mostra fotografias do seu trabalho, a repetir por mais um ano. Os tempos são de incerteza, mas, na casa de Joana Correia, já se sabe que celebrações do 25 de Abril nunca hão de faltar.

Roberto e a nova geração de moradores

É na atual sede da Associação de Moradores, no coração do bairro, que Roberto Oleirinha exerce os seus encargos diários. Com 38 anos, o vice-presidente da associação não chegou a viver o período revolucionário, mas garante estar empenhado em fazer justiça à história que lhe veio parar às mãos. “Com o passar dos anos, as pessoas da minha geração acabaram por se afastar um pouco da realidade do bairro, seguimos as nossas vidas e saímos”. Mas a possibilidade de criar o filho longe da azáfama do centro de Lisboa, aliada à proposta para integrar a associação, fizeram-no regressar ao espírito comunitário.

Roberto Oleirinha é a nova face da Associação 25 de Abril. Foto: Mariana Mateus

Roberto considera que a Associação ainda tem um papel muito importante, ao continuar a priorizar a “intervenção direta na vida das pessoas”. Lamenta, por isso, que os tempos pandémicos não sejam os mais favoráveis à mudança. No seu entender, ainda há muito a fazer no bairro e a nova geração que se instala, seja para retornar aos tempos de infância ou comprar casa, tem potencial para agir. “A chegada de novas pessoas ao bairro é sempre positiva. É uma forma de recuperar as casas e renovar as dinâmicas que aqui se vivem”.

A prioridade, agora, “é disponibilizar serviços sociais, porque é um bairro envelhecido”, refere. Assim justifica a maior atenção dada às atividades do centro de dia, decisão pouco consensual. “Direcionamos o nosso serviço para a demográfica mais dependente, que é a que hoje nos procura”, responde, com uma linguagem que é estranha aos velhos revolucionários.

Que tipos de projetos se seguem? A reabilitação de muros e espaços verdes, uma nova pintura para todo o bairro. A renovação do polidesportivo e mais valências sociais como o projeto Sala 25, onde se reaproveitará a cave da associação para a “prática de desportos, sessões de fisioterapia e psicologia, tanto para idosos como para jovens”. Por agora, esperam-se melhores dias, onde se possa, uma vez mais, festejar o 25 de Abril no largo do bairro, sem preocupações de maior.        

O passado e o presente convergem em Linda-a-Velha, no centro de um bairro revolucionário. Aqui moram importantíssimos testemunhos de luta, transformados em histórias de sucesso por, simplesmente, terem sido ouvidos. Há que escutá-los de novo. Por um futuro em que a história não se repita. Por um futuro em que ter uma casa nunca mais seja sinónimo de revolução. 25 de Abril sempre.


* Matilde Dias é estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa/FCSH e está a fazer um estágio na Mensagem ao abrigo do protocolo Repórteres de Bairro. É de Linda-a-Velha, descobriu em criança o gosto por brincar com as palavras e ouvir histórias. De momento, tenta converter essas duas paixões em profissão, aventurando-se no mundo do jornalismo. Este texto foi editado por Frederico Raposo.

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8 Comentários

  1. Por um futuro em que a história não se repita … porque infelizmente a memória dos homens e a falta de contar a história às novas gerações nós pode levar, mais uma vez, a repetir. Excelente texto, com histórias reais que podiam ter ficado por contar.Parabéns.

  2. Excelente texto fez -me rolar as lágrimas pelo rosto, a minha mãe foi dessas lutadoras mas a vida não quis que ela soubesse o era morar numa casa digna, o meu irmão Fernando um lutador homem de quem tenho o maior orgulho, a Isabel Cordovil o engenheiro Nuno, pessoa por quem tenho muito orgulho e respeito.
    Obrigado por tudo a todos que lutaram para termos uma casa!
    25 de Abril sempre!!!

  3. Éramos nós nas vivendas e eles nas barracas. Eu criança a espreitar por trás das canas o que era ali na rua de trás. Não me esqueço de brincar ás escondidas pendurados nas janelas ou num canto mais escuro, roubar tijolos e cimento para fazer também uma casa no meu jardim… A Isabel que me ajudou tanto nos trabalhos da faculdade, a Lurdes minha amiga mais tarde com filhos da mesma idade, saudades do que foi um tempo de mudança e esperança. É o que fica. Nós já não moramos ali.

  4. Excelente texto.
    Tenho muitas memórias do “25”, toda a minha infância foi passada com o Bairro 25 de Abril bem presente, pois morei toda a vida ao lado do bairro.
    Ainda hoje lá tenho muitos e grandes amigos.

  5. Hoje neste bairro a onde sou morador desde 1980 já não há gente que veja se não fosse o 25 de Abril de 1974 Hoje uma grande parte desses moradores elegem nos órgãos políticos quem na altura do início da construção do bairro não nos viam com bons olhos Foi um dos que ajudou na sua construção por isso falo com conhecimento São outros tempos

  6. É em lágrimas que leio está reportagem. Um bem haja para todos que contribuiram lutaram para esta realidade de hoje. Não posso de deixar de falar no Fernando Rosendo meu irmão mais velho, que muito deu á Associação de moradores. Grata por fazer parte deste Bairro. Um muito obrigado a quem fez está reportagem

  7. Parabéns Amigo Rosendo. Fiquei muito satisfeito e feliz com o li.
    Depois de tantos trabalhos no ultramar, como conseguiste partir para outra luta tão grande. Um abraço.

  8. Não deixem morrer Bairro nunca se esqueçam de quem lutou pelo bairro e por uma vida melhor pena tenham se esquecido de muita gente lutou para erguer o bairro bem haja Engenheiro Nuno Vasconcelos,Isabel Cordovil ,Carlos Antônio Maximino Penedo , Fernando Rosendo muitos outros ficaram esquecidos .

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