Pisou, pela primeira vez, o Diário de Lisboa com 18 anos. Desse dia, Alice Vieira guarda o cheiro a chumbo, na rua Luiz Soriano. E duas certezas, quando entra na sala do Juvenil, o suplemento do jornal dedicado aos mais novos: jornalismo é aquilo que quer fazer e Mário Castrim será o homem com quem irá casar.

Antes há-de zangar-se com ele. Alice, refugiada em Paris, na casa de Maria Lamas, há-de participar nos confrontos do Maio de 68. E depois regressará a Lisboa quando sabe que Mário Castrim tem saudades dela. Hoje, é um nome incontornável da literatura juvenil, mas o marido, que morreu em 2002, sempre lhe disse que o Juvenil fora a sua única obra.

Aos factos: Alice Vieira tinha apenas 15 anos quando se tornou a “amiga” nº 963 da publicação semanal do Diário de Lisboa. O Juvenil nascera um ano antes, em 1957, coordenado por Mário Castrim, Augusto Costa Dias e Manuel Salgueiros, e contava com as célebres ilustrações de António Fernando dos Santos, mais conhecido por Tóssan.

Dirigia-se a jovens entre os 13 e os 18 anos, com várias rubricas, mas a sua atração principal era dar a estes leitores, tratados por “amigos”, a publicação dos seus trabalhos. Uma espécie de blogue, antes do tempo, abrindo os media a uma camada que não tinha lugar.

O primeiro texto de Alice Vassalo Pereira – assim assinava os textos – foi publicado na edição de 11 de julho de 1959. Chamava-se Naquele Beco Triste e contava a história de uma menina que sonha “sem constrangimento” e que carrega no olhar a “esperança de um futuro melhor”.  Mas nem todos os seus textos tiveram o mesmo destino.

As críticas aos artigos enviados pelos jovens eram publicadas na rubrica “Conversa da Semana”. Na edição de 5 de março de 1960 Alice recebeu uma nada abonatória: “O teu pequeno artigo ‘Madrugada’ possui qualidades literárias, mas é demasiado pessimista. Porque há-de o poeta ter a mão anémica? Porque há-de odiar a vida? Manda trabalhos mais saudáveis”.

Alice não desistiu e continuou a escrever, motivada pelo próprio Mário Castrim. Quando, em 1961 o jornalista passou a dirigir sozinho o suplemento, Alice Vieira, com 18 anos, integrou a redação. Como não existiam escolas de jornalismo, os profissionais mais velhos tornavam-se os verdadeiros mestres. “Acho que aprendi tudo no Diário de Lisboa”, confessa.

Quatro anos depois de ter nascido, o Juvenil era já “um suplemento para jovens mais velhos e muito politizado. Não eram só os textos e os poemas. Tinha uma página ou duas de noticiários – que os outros não tinham – e era cortadíssimo pela censura”, recorda. Mário Castrim dá-lhes liberdade para escreverem até reportagens, que integram o espaço noticioso do suplemento. Na censura, por vezes o processo de avaliação do Juvenil é de tal forma demorado que perdem os comboios que levam o Diário de Lisboa ao resto do país.

“Era uma despesa desgraçada. Mas nunca tivemos nenhuma pressão do diretor do jornal. Nunca nos disseram não escrevam isso ou estão a dar prejuízo”, garante Alice. Todas as semanas preparam duas edições do suplemento, para garantir que alguma coisa possa avançar. “Para eles, aquilo era muito perigoso, porque eram jovens a falar para jovens. Jovens a motivar outros jovens”, explica.

Não é só em Portugal. Os jovens são por essa altura os protagonistas de movimentos de contestação por toda a Europa. A “praxe” que Alice Vieira tem quando entra para a Universidade de Lisboa, para estudar Filologia Germânica, é a greve estudantil de 1962. A 2 de março de 1967 “foge” para Paris e refugia-se na casa de Maria Lamas, sua prima. Está cansada da censura, mas também cansada da relação amorosa que tem com Mário Castrim, casado, que não se decide a sair de casa para ir viver com ela.

Em Paris, convive com Jorge Amado e Pablo Neruda. “Aprendi que tínhamos de lutar por aquilo que queríamos. Apanhei tanto gás lacrimogéneo que fui parar ao hospital”. Ainda tenta ser correspondente e enviar textos sobre o que irá culminar no Maio de 68, mas é tudo censurado.

Alice Vieira e Mário Castrim

Uns meses depois, regressa a Portugal porque sabe que Mário Castrim saiu finalmente de casa. “Ele estava no aeroporto à minha espera. Estava muito apaixonado, mas pôs-me logo a trabalhar. Na altura, já fazia crítica de televisão”, explica. Em 1968, casam e, em setembro desse ano, Alice Vieira assume a direção do Juvenil, até 1970, ano em que o suplemento termina.

Desses anos do Juvenil, recorda os encontros que organizou no Diário de Lisboa com os colaboradores, onde passaram António Sérgio e Ferreira de Castro. “Manter aquela gente toda a trabalhar, focada num objetivo, não foi fácil” – Mário Castrim tinha muito orgulho na sua obra e dizia que o Juvenil tinha sido a única obra dele.

Mário Castrim iria ser o grande crítico de TV portuguesa. Alice Vieira também teve uma passagem pela crítica televisiva, já no Diário Popular. É dessa época uma história muito curiosa: como ambos viviam na mesma casa, escreviam em simultâneo, depois do final da emissão. Acabadas as crónicas, ambos depositavam as crónicas no mesmo saco de pão que ficava pendurado à porta. De manhã cedo vinha um paquete e levava as duas crónicas, para os jornais que ficavam na mesma rua do Bairro Alto, um em frente ao outro. E nunca os textos saíram trocados.

Discutir “tudo aquilo que era proibido”

A Luis Filipe Castro Mendes o Diário de Lisboa chegava de comboio, a Chaves, no dia seguinte a ser editado. Pouco lhe importava porque era o Juvenil que queria ler o diplomata, escritor e ministro da Cultura entre 2016 e 2018. Ainda hoje o suplemento lhe recorda-lhe uma “adolescência feliz”, mas isolada. O sinal da televisão portuguesa nem sequer chegava à sua casa. “Era uma outra realidade. A comunicação era muito difícil”, explica. 

Luis Filipe Castro Mendes, em Lisboa, enquanto estudante.

Através do Juvenil conheceu melhor Herberto Helder e leu os primeiros dossiers sobre António Sérgio. No Juvenil publicou os primeiros textos, entre 1965 e 1967, e conviveu com outros colaboradores, sempre que vinha a Lisboa. “Amigos de há 50 anos, como o Nuno Júdice, o Jorge Silva Melo ou o José Pacheco Pereira”, conta.

“O Juvenil era importante porque criava estes laços entre as pessoas e porque se descobriam talentos e nos permitia discutir em privados nos encontros que organizavam. Discutia-se tudo aquilo que era proibido, desde a política ao sexo. A vida afetiva era altamente controlada. É difícil de imaginar, mas os contracetivos era proibidos às pessoas que não eram casadas. Estávamos sempre a falar da censura e dos livros proibidos. Isto ia desde Lenine à Antologia da Poesia Erótica e Satírica. Desde As Três Marias ao Henry Miller. Desde o Karl Marx o Marquês de Sade”, conta.

De abril de 1965 ate à entrada na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1967, os seus poemas são presença habitual nas páginas do Juvenil. “A experiência e o acolhimento que tive no Juvenil foram muito importantes para aquilo que eu acho fundamental na minha vida: a afirmação literária. O Mário Castrim e a Alice Vieira ajudaram-me muito. Davam sempre uma crítica muito frontal”, confessa o escritor. 

Na semana de 7 de julho de 1966 ganhou o prémio de melhor conto, com Outubro, do concurso Fósforo Ferrero, que atribuía semanalmente 500$ ao melhor conto, ensaio e trabalho de artes plásticas. O júri contava com personalidades como José Gomes Ferreira e Matilde Rosa Araújo. “Era subsidiado por um medicamento que a minha mãe me dava para estudar para os exames! Não sei se fez bem ou se fez mal, sei que o prémio fez muito bem”, conta.

O suplemento juvenil que marcou uma geração

“Agora é do género ‘Ah tu também estás no Facebook!’? Para nós era ‘Ah tu também escreves para o Juvenil!’?”, brinca Alice Vieira. Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, considera que o Juvenil foi, acima de tudo, um “espaço de politização, experimentação e de afirmação” de uma nova geração. José Manuel Lencastre, que analisou, na Universidade Nova de Lisboa, FCSH, as crónicas de televisão de Mário Castrim, publicadas no Diário de Lisboa entre 1969 e 1974, sublinha que era um homem muito avançado para o país daquele tempo, dividido entre a sua “formação marxista e fervor católico”, o que teve repercussões no próprio suplemento e na geração a que se dirigia.

Também a hipótese que o suplemento dava aos jovens de enviarem tudo o que produzissem para a morada do jornal, como se lê  no regulamento de colaboração, era algo pioneiro, que só mais tarde foi adotado por outras publicações, como o DN Jovem.

Miguel Cardina não tem dúvidas de que a reação ao conservadorismo do Estado Novo foi fundamental para a politização desta geração, a que se somou a Guerra Colonial, a partir de 1961. A cultura, cada vez mais plural, que “não seguia os cânones daquilo que era difundido pelo diapasão do Estado Novo, nem necessariamente os cânones clássicos da cultura neorrealista”.

É a época dos movimentos contra a Guerra do Vietname nos EUA, as contestações na China em 1966, em Espanha, na Checoslováquia, no México, acrescenta. Esta franja de jovens politizada tinha a “França como farol de luz”, esclarece. No entanto, “a juventude que se manifesta em Paris não tem às costas o fantasma de uma guerra” e o conservadorismo do regime português era muito superior.

Mas de uma coisa não há dúvida: os jovens do Juvenil – e tantos outros que se envolveram neste movimento – foram também motor para o capítulo que se seguiu na política portuguesa.

Leia mais sobre o centenário do Diário de Lisboa, aqui e aqui e aqui.

*José Damião é estudante de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa – ao abrigo do protocolo de colaboração com a Mensagem, para o Especial 100 Anos do Diário de Lisboa, também publicado no site +Lisboa. Texto editado por Catarina Carvalho

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