Ribeiro Cardoso foi jornalista no Diário de Lisboa de 1971 e 1988. Apanhou o final da ditadura, um desafio constante no jornal que se assumia como de esquerda. Iludir a censura era com imaginação, criatividade, cultura e qualidade. Curiosamente, nessa altura, recorda, “não havia cursos superiores de Comunicação Social… e isso não interferia na qualidade do jornalismo!” Ribeiro Cardoso recorda o seu chefe de secção De Ontem e de Hoje, Raul Rêgo, “um velho maçon, altamente graduado.” “’Isto está uma merda, reescreva tudo de novo, se faz favor’, dizia ele. E lá ia um gajo, envergonhado, escrever outra vez, num português mais fluente, tirar repetições que houvesse. Mas tínhamos que ter chefes assim.”

O jornalista Ribeiro Cardoso nos seus tempos do Diário de Lisboa.

Eugénio Alves também entrou para o jornal em 1971. “Éramos jovens, tentávamos sempre contornar a censura e eu tive algumas experiências engraçadas”, recorda. Num dos números de aniversário do Diário de Lisboa, Eugénio decidiu arriscar e escreveu uma crónica a denunciar a infiltração de esbirros do Ministério da Educação nas Associações de Estudantes. “No título é que estava lá tudo: ‘Gorila: o Vigilante da Selva’. Gorila era a designação dos estudantes e Vigilante da Selva a do Ministério da Educação”, recorda. Na redação, os jornalistas não acreditavam que a crónica passasse. A verdade é que passou e com grande destaque no jornal. “O problema foi depois, nos dias seguintes, em que os estudantes começaram a reproduzir aquilo e aí eu fiquei referenciado por parte do governo.”

Eugénio Alves a entrevistar Gabirel Garcia Marquez.

Segundo a tese “Portugal pela lente de Mário Castrim: as Cónicas Televisivas no Diário de Lisboa entre 1969 a 1974”, de Manuel Alexandre Lencastre, um inquérito realizado na década de 1970, sobre os hábitos de leitura dos portugueses, mostrava que o Diário de Lisboa era o segundo jornal vespertino mais lido; os seus principais leitores eram homens e, sobretudo, jovens. Nos finais da década de 1960 já era um dos jornais preferidos da população estudantil universitária.

António Pedro Ruella Ramos, o diretor durante 22 anos (1967-1989), referia que os leitores do jornal “não eram propriamente de direita ou de esquerda. Eram pessoas da média burguesia, cultos, engenheiros, professores, médicos, advogados e se calhar até eram relativamente conservadores, mas gostavam da independência do jornal”, num relato no livro “Jornalistas do Ofício à Profissão: Mudanças no Jornalismo Português (1956-1968)” de Carla Batista e Fernando Correia.

Ribeiro Cardoso relembra um dos episódios mais evidentes desta isenção e independência do jornal. Em 1972, na transladação dos ossos de D. Pedro IV, Rei de Portugal e Imperador do Brasil, de Lisboa para o Rio de Janeiro, Américo Tomás convidou todos os diretores de jornais para o acompanharem na viagem. O Diário de Lisboa aceitou o convite. “Vivia-se em ditadura, não havia outra forma”, conta. Mas o Diário de Lisboa enviou um estagiário, “um pobre diabo, no meio daqueles velhotes todos pró-regime”. 

Foi o próprio Ribeiro Cardoso, que acabou por viver uma experiência única. “Isto foi uma bofetada que o Diário de Lisboa quis dar ao Presidente da República, que fez o convite e que pagava as despesas aos diretores dos jornais. Foi um ato político por parte do diretor, uma coisa inteligente, uma resposta política original e interessante. A minha vida depois do Diário de Lisboa modificou-se em termos de consciência política”, diz o jornalista.

A importância política e social de ser jornalista

A investigadora da NOVA FCSH Cecília Barreira descreve o Diário de Lisboa como um jornal vanguardista e com uma grande influência nos mais jovens. Os jornalistas também eram eles jovens e contra o regime. “Éramos praticamente todos de oposição, por isso havia uma certa cumplicidade. Éramos jornalistas por paixão, por convicção. Havia camaradagem”, afirma Eugénio Alves que foi jornalista do DL até à declaração da sua morte, em 1989. Foi o jornal onde mais esteve envolvido, e onde fez a cobertura da maior parte das eleições políticas no pós-25 de abril.

O brilho no olhar do jornalista surge quando recorda a história de um homem que em finais de novembro de 1971 lhe apareceu à porta do jornal, a pedir, simplesmente que o ouvisse. “Estava na redação à noite de serviço, porque às vezes escrevíamos algumas coisas na véspera para o jornal, quando um homem amargurado, que já tinha chorado tudo, quis falar comigo.”

O Diário de Lisboa era na Rua Luz Soriano, onde estavam quase todos os jornais com sede em Lisboa. O homem já tinha percorrido todos os jornais, mas nenhum deles aceitara ouvir a sua história. O título da peça que resultou dessa conversa foi: “A outra face do chantagista”.

Dias antes, o alegado “chantagista” tinha sido detido pela polícia, supostamente, por sequestro de crianças. O homem, Armindo Pires, vivia, afinal, numa antiga vacaria com a mulher e os cinco filhos, sem quaisquer condições: “Lembro-me tão bem, o homem falou, falou, repetiu a sua história mais de quatro vezes, estava completamente desorientado.” A reportagem teve um impacto enorme. Mobilizou imensas pessoas e foram muitas as ajudas conseguidas, ao ponto de se ter fundado uma creche com o dinheiro que foi dado. “As pessoas recorriam aos jornais para se defenderem, para denunciar situações. E foi com esta história que percebi a importância que um jornalista pode ter, em termos sociais,” recorda Eugénio Alves.  

Leia mais sobre o Diário de Lisboa na crónica de Dora Santos Silva, aqui.

*Ana Beatriz Pereira é estudante da Universidade Nova de Lisboa- FCSH, do curso de Ciências da Comunicação. Este texto foi escrito ao abrigo da parceria com a Mensagem e editado por Catarina Carvalho.

Entre na conversa

2 Comentários

  1. Excelente artigo!
    E dois grandes jornalistas, sérios e competentes!
    Parabéns à Mensagem por os trazer “à ribalta”

    José Veloso

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *