Quando li o título do artigo que a Tatiana Canas publicou na Mensagem, e constatei que a autora era jurista na CITE – Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, elevei as minhas expectativas: afinal havia mais alguém que conhecia o papel que a bicicleta teve, e tem, no empoderamento das mulheres.

“Andar de bicicleta fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”, dizia Susan Anthony no final do século XIX.

Pensei, assim, que a autora valorizasse o papel da bicicleta no combate às segregações sociais nas cidades espacialmente divididas, fragmentadas e que potenciam o conflito e a hostilidade que resulta dos egoísmos que o carro potencia. A prioridade dada ao carro propicia a exclusão, a elitização, e para que uma minoria se desloque de forma mais conveniente muitos outros, por necessidade ou opção, terão de se deslocar de outras formas.

A mobilidade citadina é a forma mais evidente das desigualdades em que aqueles que podem ter e usar carro ainda são fortemente subsidiados na sua mobilidade, com décadas de colossais investimentos na infraestrutura que lhes convém, com a afetação absurda de espaço público ao estacionamento, muitas vezes gratuito, da sua propriedade privada.

O uso da bicicleta levou, e tem levado, não só a mudanças de hábitos e do vestuário das mulheres mas também a uma mudança profunda da sua forma de pensar e de se relacionar diante da liberdade conquistada através dessa mobilidade deixando de depender da condução dos homens. O caráter democrático da bicicleta promoveu novos encontros sociais e rompeu com ancestrais padrões de intimidade aviltantes para as mulheres.

Mas não só de passado podemos falar. O movimento #BIKEYGEES, na Alemanha, que apoia e ensina mulheres refugiadas na sua integração através do uso da bicicleta tem merecido vários elogios e prémios.

O projeto “Sustainable Streets”, nos EUA, tem procurado defender os interesses daqueles que, com menos meios financeiros, usando a bicicleta como forma de transporte, são fortemente discriminados na infraestrutura necessária a garantir conforto e segurança nas suas deslocações.

O “Cairo Cycling Geckos”, o movimento criado em 2016 pela corajosa Nouran Salah para, inicialmente, distribuir, de bicicleta, alimentos aos ‘sem-abrigo’ durante o Ramadão, tornou-se um farol de esperança para as mulheres egípcias na sua afirmação de liberdade.

Mas, afinal, o texto não tratava nada disto, limitava-se aos arcaicos lamentos de quem parece ver na bicicleta a causa única de todos os problemas de mobilidade em Lisboa. Interrogo-me se é da aparente juventude da autora que não se recorda da cidade sem ciclovias em que os congestionamentos e a suposta falta de lugares para estacionamento já existiam. Em 1973, pasme-se, o Luís Filipe Costa fazia uma excelente reportagem para a RTP sobre “o trânsito infernal em Lisboa”.

Mas não basta o absurdo de certos argumentos, importa destacar as falsidades invocadas. A edilidade lisboeta, de facto, e ao contrário do que se escreve, melhorou os transportes públicos e o governo tornou-os muito mais baratos (o passe voltou a ser verdadeiramente “social”). E, de facto, a edilidade construiu muitos parques de estacionamento no que foi acompanhada por muita oferta privada sendo que por “silos automóveis” a autora reconhecerá que podem ser os inúmeros parques subterrâneos que existem em Lisboa sempre com vagas por preencher a qualquer hora do dia e da noite.

E se Lisboa decidiu seguir os exemplos de “cidades-modelo” em ciclovias fez bem pois nessas cidades a qualidade de vida é muito superior aquelas onde predomina o carro privado.

Falar de “geografia” para invocar Amesterdão, mas não falar de “geografia” para falar de Oslo dá jeito. Mas também dava jeito falar da meteorologia nessas tais “cidades-modelo” que a autora só deve conhecer no Verão.

Falar de “taxas pornográficas” de estacionamento em Lisboa é não conhecer o que acontece no resto da Europa e, pior, é ignorar que hoje um carro de um residente em Lisboa não paga para estar estacionado todo o ano no espaço que devia ser de todos e não só de alguns que optaram por uma mobilidade ineficiente, poluente, perigosa.

Sobre as mulheres/mães que, coitadas, não precisam de usar o Metro e são obrigadas a usar carro porque não conseguem transportar 30 kg de crianças numa bicicleta voltamos à ignorância do que o mercado já hoje tem para oferecer, uma bela cargo-bike, a um ínfimo preço se comparado com o de um carro, que não consome gasolina, não polui, e a leva, praticamente no mesmo tempo, fazendo algum exercício saudável, a qualquer lado da cidade.

E quando diz que consegue fazer esse percurso de carro em 7 minutos (“et voilá”!!) aí reside o cerne do problema, uma cidade pensada e feita em torno de quem tem e pode usar carro às 9 da manhã. É que para serem apenas 7 minutos para a Tatiana muitas outras mulheres/mães sem a mesma opção tiveram de se levantar às 6 da manhã, andar de transportes às 7 com os filhos pela mão, para estarem no trabalho às 9. Falar em “igualdade”, de género ou qualquer outra, sendo um exemplo de privilégio é estranho.

Mas fica sempre a dúvida quando lemos que termina escrevendo que tem a certeza de que é preciso promover o “ciclismo”(!!!) em Lisboa mas “não à custa de lugares de estacionamento (insubstituíveis, dado a saturação do subsolo), faixas de rodagem (tornando as vias intransitáveis) e passeios”. Só não percebemos afinal é como. Será com bicicletas voadoras?!

*jurista

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16 Comentários

  1. Excelente resposta Luís. Informar é uma ferramenta imprescindível para que as pessoas não sejam induzidas em erro ou desinformação. Obrigada, especialmente pela nota relativamente ao papel da bicicleta e do feminismo, sendo que a bicicleta continua a ser um meio de transporte de extrema importância para as mulheres, como poderemos ler no The Guardian hoje “Want to make the streets safer for women? Start with cycling”, https://www.theguardian.com/environment/bike-blog/2021/mar/26/want-to-make-the-streets-safer-for-women-start-with-cycling?fbclid=IwAR3JnzYUg1Sp3FQjELiYst5svjunSQs_nNA8iU78VSg3DBhHJZzA0Z5oamY

  2. Excelente resposta Luis.

    Eu desloco-me diariamente de bicicleta em Lisboa desde 2017, faço 20 km por dia nas deslocações casa – trabalho. Pelo meio deixo o meu filho no jardim de infância (mesmo quando chove). A minha mulher também começou a ir de bicicleta para o trabalho no ano passado. O problema da “geografia incomparável” resolveu-se com duas bicicletas elétricas cá em casa, e chegamos ao trabalho sem suar.

    Só o fazemos porque foi criada infraestrutura segregada na maior parte dos nossos percursos.

    As ciclovias que tanto empatam a Tatiana tiraram mais dois carros do centro de Lisboa. São dois lugares de estacionamento o que ficam livres para ela e para todos os outros que tanto criticam o investimento na expansão da rede ciclável.

  3. Que texto fantástico. Subscrevo na íntegra. Um texto educado, factual, sem ideologias, preconceitos ou acusações.
    Excelente resposta ao texto publicado. Parabéns Luís

  4. Lembro também o projeto Buffalo Bicycles que tem ajudado a melhorar a qualidade de vida e segurança das comunidades mais isoladas em África.
    http://www.buffalobicycle.com/

    Paralelamente, e focando a nossa realidade, a autora sugere que é necessário melhores transportes públicos para haver menos carros particulares. Mas essa discussão já existe há 50 anos pois para haver melhores transportes públicos é necessário que haja menos carros particulares na estrada.
    Infelizmente esta discussão circular será sempre suportada por falta de conhecimento/reconhecimento dos verdadeiros motivos do estado da circulação nas nossas cidades.

  5. Muito bem, Luís.
    Faz falta que esta visão não “status quo” chegue a muito mais gente, que provavelmente por nunca terem pensado no assunto, continuem a achar que o carro é um elemento indispensável para a mobilidade dentro das cidades.

  6. Caro Luis, não li o artigo da autora pelo que não tenho opinião sobre o mesmo.
    Da sua resposta intuo o que ela escreveu e estou, na generalidade, de acordo com os seus argumentos.
    Não estou, nunca estive, de acordo com o “nós e eles”. Todos somos cidadãos e pagamos impostos”.
    Defendia, antes do aparecimento das partilhadas, que podíamos expandir o uso da bicicleta se conseguíssemos um sistema de partilhadas que levasse a mais utilizadores, colocando a bicicleta na paisagem urbana, o que levaria os automobilistas a ter mais cuidado com elas (seria interessante ver como evoluiu a nº de acidentes).
    Assim como sempre defendi a segregação do trânsito: faixas bus obrigatório para transportes públicos e motas, faixas de rodagem só para as outras viaturas, ciclovias em rede continuada para bicicletas.
    Ou seja, cada um no seu sítio.
    A CML vai na direcção certa mas infelizmente a visão para a cidade com que concordo não foi objecto de verdadeiro debate publico, (como o tem sido em Londres, por exemplo). Identifico-me com a visão de F. Medina, mas a nível técnico e burocrático estamos muito mal.
    Não há normalização de soluções para as ciclovias, os técnicos não se deslocam no dia a dia de bicicleta (desenham realidades que não conhecem em termos práticos) e há soluções muito más (e basta copiar melhorando as melhores práticas de outras cidades). O mesmo se aplica ao tráfego automóvel — basta ver o estacionamento na Guerra Junqueiro.
    A ciclovia da 24 de Julho está cheia de ressaltos e buracos, a da Almirante Reis dificulta a saída dos carros do centro da cidade quando devia dificultar a entrada — devia estar na outra faixa, na Expo colocaram uns separadores que furam os pneus dos automóveis.
    Acresce que a rede de parques de estacionamento para bicicletas é praticamente inexistente. Espera-se, como de costume, que as bicicletas mal estacionadas venham a ser um problema para se correr atrás do prejuízo.
    Os passeios com calçada portuguesa (os nossos calceteiros eram muito bons mas perdeu-se know how) levam a que os idosos e mães com carrinhos de bebé andem na faixa de rodagem, etc.
    Finalmente, evoluímos nos transportes públicos, mas não criámos uma rede de creches para que as mães possam deixar as crianças na zona da residência (a preços acessíveis e com horários compatíveis com os dos empregos) e não tenham que andar de transportes com elas.
    Uma política de devolução da cidade às pessoas tem que ser pensada de forma integrada e não se resume a transportes públicos, passeios, bicicletas, etc.
    Para terminar acrescento que me desloco diariamente de bicicleta.

  7. Mais uma nota.
    Quanto aos carros porque se espera para que uma apartamento T2 (casal e um filho) tenha obrigatoriamente 3 lugares de garagem? O que permitiria proibir que nas zonas residenciais os carros pudessem estacionar na rua.
    É só mudar as regras.

  8. Lembro ainda o elefante na sala:
    o único motivo porque é necessário haver ciclovias é a falta de civismo dos automobilistas, o seu egoísmo e o seu egocentrismo. Estes fatores, em conjugação com veículos cujo design e marketing alimentam precisamente essa noção do “eu” mas que possuem uma capacidade enorme de destruição do “outro”, ludibriando o próprio condutor com uma falsa sensação de segurança (pois só há foco na segurança do “eu”), aumentam o risco de vida (sim, de vida) de todos os que partilharem o espaço com estes veículos.

    os autombilistas são os próprios responsáveis por lhes ser retirado espaço para ciclovias.

    as cidades não precisam de ciclovias e aceitar ciclovias é aceitar a derrota da sociedade de seres humanos. mas as ciclovias são um mal necessário para garantir que quando levo a minha filha à escola de bicicleta ela não é trucidada por uma máquina de 3ton a olhar para o telemóvel e acaba por morrer. cheia de razão.

    é muito fácil deixarmo-nos levar pela discussão da ciclovia. mas essa não devia sequer ser a discussão.

  9. Excelente texto. Dada a qualidade quase diária dos textos do Luís no Facebook, creio que não era descabido A Mensagem contar com o seu contributo de vez em quando.

  10. Li os dois textos e, enquanto no texto da visada havia imensos comentários femininos, neste caso, predominam os comentários masculinos.
    Desde 2017 que optei por usar a bicicleta para mês deslocar para o trabalho.
    Também uso o carro quando necessito.
    E, sim, tenho o carro estacionado por 12€ por ano. Não me envergonha.
    O meu marido não sabe andar de bicicleta é, apesar de várias insistências minhas para ir aprender, não quer.
    Adoro a cidade e como ela se está a transformar.
    Adoro sentir-me não minha desde sempre lisboa, pois como a autora do texto que mereceu está resposta também sempre vivi e trabalhei em
    Lisboa.
    Adoro cruzar-me com outros utilizadores de bicicleta é sorrir-lhes (apesar de poucas vezes ver retribuído o sorriso).
    Em suma adoro andar de bicicleta.

  11. Olá Rui,
    Estou em geral de acordo com o que escreves, mas permite-me alguns ajustes:
    – um dos principals motivos porque a rede ciclável não está normalizada em termos de opções técnicas é por causa dos compromissos políticos que obrigam a cedências, mas eu conheço vários dos projectistas envolvidos no desenho das ciclovias e são utilizadores intensivos da bicicleta como meio de transporte;
    – a Almirante Reis vai ser alvo de reformulação, não necessariamente para melhor, e se é verdade que o ideal era a faixa de rodagem poente ter ficado reduzida a uma via, a opção pela outra foi por causa das ambulâncias;
    – Os 3 carros estacionados nesse 3 lugares do subterrâneo do T2 irão, eventualmente, sair à rua e contribuir para entupir as ruas da cidade. Além disso, também precisarão de estacionamento no destino. Que espaço isso ocupará? Quanto custará? E quem pagará?
    Abraço

  12. Sem lugares de parqueamento de bicicletas e sem transportes públicos eficientes as bicicletas serão sempre uma coisa para quem pode pagar casa em Lisboa e tem um trabalho que permita perder tempo e esforço no caminho.
    A maioria dos carros dentro de Lisboa não são de egoístas ou desinformados que não gostam de bicicletas. São de pessoal dos subúrbios. Passam 55 mil veículos por dia na 25 de Abril, era interessante ver toda essa gente de bicicleta. E vir de Rio de Mouro de bicicleta para pegar ao balcão de uma loja no Saldanha às 9:00 e com um filho na cargo-bike. E morar no Sr. Roubado e trabalhar na Baixa, fazendo todo o trajeto de bicicleta.
    Não sei se sou eu mas praticamente não vejo zonas de parqueamento de bicicletas na cidade, percentualmente há muito mais bicicletas nas ciclovias do que há dois anos atrás mas como o ponto de partida foi baixissímo não há muitas bicicletas, pode-se dormir numa ciclovia que ninguém nos acorda. A biciceta continua a ser um acessório de fim de semana com a qual se passeia.
    Tornar a vida impossível aos carros particulares sem arranjar alternativas é como curar uma dor de cabeça com uma guilhotina. E as ciclovias podem ser muito hipsters, mas neste momento não são alternativa,

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