Está a Estação Elevatória dos Barbadinhos posta em sossego nas fotos de Francesco Rocchini – o italiano que chegou a Lisboa nos anos 40 de Oitocentos para trabalhar como marceneiro e acabou como fotógrafo da família real – e ninguém poderá imaginar que naquele 3 de Outubro de 1880 mais de mil lisboetas terminaram ali a tarde a benzerem-se uns aos outros com champanhe.

Ao fim da manhã daquele domingo, uma girândola de fogo de artifício celebrou a inauguração da nova obra pública, já depois de o arcebispo de Mitilene (auxiliar o cardeal patriarca) ter aspergido com água benta as paredes do edifício e as três máquinas a vapor compradas em Inglaterra. Agora que as águas do rio Alviela, no distrito de Santarém, estavam santificadas, a Estação iria começar a abastecer os bairros da capital. E, finalmente, poderia começar a festa.

Duas grandes tendas, ricamente engalanadas, e mesas compridas com iguarias diversas recebiam os convidados e a família real. Uns de um lado, outros do outro, evidentemente. O pródigo bufete assinalava isso mesmo, antes que alguém se distraísse: para os primeiros havia peru; para os segundos, pavão; uns comiam em pé; os outros, sentados, e numa mesa sobre um pequeno palanque, antes que o champanhe toldasse a vista e D. Luís e Maria Pia de Sabóia fossem confundidos com quaisquer vulgares convidados. A abastança, porém, não era classista: abundava a comida e a bebida para plebeus e para o séquito que acompanhava os reis.

Fotografia da Estação Elevatória dos Barbadinhos no Arquivo Municipal de Lisboa.

O repórter da revista “Ocidente” que ali esteve para assistir à inauguração do novíssimo reservatório confirmou, uns dias mais tarde, que também abundava a fome e que certamente a água do Alviela devia ter propriedades medicinais, pois abria “extraordinariamente o apetite”. Não tardou, contudo, que os mais de mil convidados esquecessem a comida, as águas, a Estação Elevatória e até a presença da família real.

Durante o bufete o que concentrou todas as atenções foi o desrolhar das garrafas de champanhe, que, a certa altura, acelerou de tal forma o ritmo que pareceu um “combate naval” aos ouvidos do jornalista da “Ocidente”. A imagem teria horrorizado os antigos ocupantes daquele lugar, capuchinhos italianos, denominados “barbardinhos” (José-Augusto França diz que a designação tem mesmo a origem mais previsível: a barba dos frades), que ali ergueram convento e igreja no século XVIII, e em cuja antiga cerca foi construída a Estação Elevatória.

Mas a ocasião não merecia menos do que pompa e champanhe: as três novas máquinas a vapor dos Barbadinhos, adquiridas por cem contos de réis, faziam ascender Lisboa ao pódio das grandes cidades europeias modernas.

Progresso e cobrança

A possibilidade de bombear água do Alviela, obra monumental dos engenheiros militares Joaquim de Sousa Gomes e José Joaquim Cabral Couceiro, permitia à cidade de Lisboa ter abastecimento domiciliário, promover a higiene pública e privada, investir no saneamento básico, e, não menos importante, auxiliar os meios de combate aos incêndios. Um habitante de Lisboa poderia agora consumir diariamente até 200 litros de água. Isto mesmo traduzia o progresso. E arrastava o seu habitual companheiro: a cobrança pelo consumo.

Sifões, aquedutos e condutas conduziam a água num percurso de mais de 100 quilómetros (a primeira captação) desde uma das nascentes do Alviela até aos Barbadinhos e daqui para outros reservatórios de Lisboa. Esta Estação Elevatória não foi a primeira de Lisboa. Não muito longe dali, onde hoje é o Museu do Fado, foi construída a Estação Elevatória do Recinto da Praia, também denominada Central Elevatória a Vapor da Praia, que, em 1868, utilizava bombas a vapor para bombear a água das fontes naturais de Alfama e abastecer a população daquela zona.

Estação elevatória dos Barbadinhos – a reconversão em museu permitiu manter aquilo que Rocchini viu. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Em pouco mais de dez anos, porém, a maquinaria do Recinto da Praia passou à categoria de peça de museu. Nos Barbadinhos, a Casa das Bombas possuía, como seria de esperar, bombas aspirantes. Mas eram gigantes e accionadas por três máquinas a vapor construídas em 1876 (mais tarde, foi acrescentada uma outra, também de fabrico inglês).

Também estas já passaram à condição museológica, mas foram mantidas no seu lugar original e a conversão da Estação Elevatória em museu permite ver aquilo que Francesco Rocchini viu e testemunhou nestas fotografias.

Maria José Oliveira 

É jornalista, investigadora do Instituto de História Contemporânea e aluna de doutoramento. Fez investigação e reportagem para a imprensa escrita, TV e cinema. Escreveu o livro Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Lisboa, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios. Tem 45 anos.

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