Não se pode dizer que a paixão desta mulher por Lisboa seja digna de musical, um destino que parecia estar traçado desde sempre. Tem, no entanto, traços de tragédia romântica shakespeariana, um pouco de Romeu e Julieta.

Na verdade, antes de se apaixonar por um português, Daria Kovaleva só conhecia o lugar que Portugal e Lisboa ocupavam no mapa mundo. Depois, a história mudou. Arriscou tudo e trocou Moscovo por Lisboa. O amor entre os dois não duraria nem o tempo de Daria pousar em terra, em 2016, mas a emigrante substituiu-o por outro: o amor pela cidade de Lisboa. 

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Daria gravou em vídeo a primeira tour que fez sobre Lojas com História em Lisboa

Esse, não passou despercebido e, por isso, quiseram fazer dela guia turística. Receber um grupo, ansioso por conhecer os meandros de uma cidade, e mostrá-la, “é mais um serviço público do que uma carreira”. Quando Daria conta a história de Lisboa a estrangeiros que a visitam, não está apenas a ser guia. “É preciso ser-se historiadora, psicóloga (porque temos de sentir as pessoas) e ser atriz – ajo de forma diferente consoante os gostos e a história de cada pessoa ou grupo.”

Nascida em Moscovo, Daria formou-se na Russian State University for the Humanities e especializou-se em Linguística e Teoria da Comunicação, mas nunca trabalhou na sua área. Na capital russa, organizava eventos. “Comecei a trabalhar para a Orquestra Nacional Russa, a organizar as tours e a captação de fundos. Depois, trabalhei para uma designer de moda russa. A seguir movi-me mais para a área do turismo. Trabalhei em gestão de viagens corporativas para eventos. Comecei a gerir eventos fora da Rússia, para empresas internacionais em todo o mundo.”

Foi precisamente no papel como gestora de eventos para entidades e serviços internacionais que apanhou o avião para Portugal pela primeira vez. Tinha como destino uma conferência para médicos em Lisboa, que ajudou a preparar. E foi no último dia, ou última noite, que ganhou a desculpa para voltar. Saiu com um cliente, “houve química”… “e foi assim que conheci um português. Começamos a namorar à distância.” Um ano feito de encontros “a meio caminho, na Europa”. E um dia, “ele perguntou-me se considerava mudar-me para Portugal”.

Daria disse “sim”, mas acabou por terminar o namoro, antes da viagem, e o lógico seria que anulasse a viagem. “Ia para um país que mal conhecia e sem ninguém à minha espera”, lembra. Mas, curiosamente, e não sabe bem porquê, não desistiu de Portugal, embora, confesse, não tenha sido amor à primeira vista. “Claro que tenho olhos e consigo ver que o país é muito bonito. Mas não me apaixonei imediatamente. Estava a pensar em mudar-me, um dia, mas nunca para Portugal”, recorda. 

Daria confessa não gostar do frio lisboeta, pior do que o da Rússia, diz. Foto: cedida por Daria

“E claro que o tempo [em Lisboa] é bom, mas, honestamente, o primeiro Inverno que passei cá foi horrível”. Era setembro, os pés esfriavam e Daria esperava o tão elogiado sol que aquece o Tejo, mais do que a chuva o arrefece, mesmo em estações frias. Esfriou tanto, que Daria não hesita em dizer: “Prefiro o Inverno na Rússia”. E justifica: “lá, as nossas casas têm aquecimento central, podes andar de t-shirt. Aqui, não.”

E o bem receber de que tanto se gabam os portugueses? Não faltavam “bons dias”, sorrisos largados sem amizade travada primeiro, mas para uma recém-chegada a um país desconhecido, no qual estava disposta a construir vida por alguns anos, isso não bastava. “Os portugueses são muito abertos, mas em determinados momentos. Podes facilmente ir beber café com alguém, mas não significa que te tornaste amigo próximo imediatamente. Na Rússia, é completamente diferente: não sorrimos muito, mas fazemos amigos muito mais rapidamente. É normal ficares amigo de alguém que se senta ao teu lado no avião. Aqui, toda a gente me sorria, mas não era possível fazer amigos próximos.”

De dia para dia, Daria acreditava mais que tinha tomado a decisão errada. Não eram só os pés que esfriavam, a sua relação com Lisboa também. Contudo, mais uma vez, Daria escolheu persistir na sua escolha e não desistir da cidade. Como? Dando a conhecer a cidade aos outros. “Não foi amor à primeira vista [por Lisboa], foi mais um wise love”. O que aconteceu com Daria não tem ciência alguma, lembra. Basta pensar que é “como numa relação”: “Se não sabes se estás apaixonada, passas mais tempo com essa pessoa, a tentar conhecê-la melhor”. 

Dara aliou essa vontade a outros talentos já descobertos, a escrita – até já quis ser escritora – e a fotografia. Começou por registar retratos da cidade numa conta da rede social Instagram. “Passo a passo, foi assim que me apaixonei pela cidade: quando mais sabia sobre ela, mais me impressionava. Cada pedra, cada parede, respiram história.” Aqui, sim, Daria não temia em colocar Portugal à frente do seu país de origem, que não tinha por cultura a preservação das cidades. “Durante a União Soviética, a ideia não era preservar, mas construir de novo. Por isso, pequenas coisas do passado, como casas, não foram mantidas, porque eram vistas como más [para a imagem].”

De blogger para guia turística foi um pequeno salto. Daria estava a trabalhar numa agência portuguesa de eventos, com a qual costumava colaborar a partir da Rússia e que estava à procura de manager que falasse russo. Recebia frequentemente “grandes grupos da Rússia e de Itália” em representação de empresas e criava tours pela cidade para cada um deles.” 

Ser guia, no entanto, não estava nos seus planos. A acendalha foi lançada por um amigo que propôs a Daria que recebesse um outro amigo na cidade e lhe fizesse uma excursão “mais local”. “Tentei. E gostei. Bebemos vinho, levei-os a áreas que normalmente não são mostradas aos turistas, levei-os a Marvila. E, no final, não consegui dizer quem estava mais feliz: se eles ou eu”, lembra. Pouco depois, um dos seus seguidores habituais nas redes, com viagem marcada para Lisboa e conhecedor da história entusiasta de Daria com a capital, pediu-lhe que repetisse a tour. “Porque gostava da forma como eu contava as histórias.” E assim, por acidente, Daria tornou-se guia turística… independente.

Sentada à beira Tejo ao lado de uma amiga, com a cidade a anoitecer, Daria fazia contas à vida. Tinham anunciado o confinamento obrigatório (era março de 2020) e, pela última vez em vários meses, haveria enchentes de gente nas ruas. A lua, “que aqui parece enorme”, dava-lhe mais uma vez a sensação “como se estivesse num livro, em Lisboa”. A amiga, uma mulher da literatura, disse-lhe que livro era esse: “É como se estivesses no livro The Night in Lisbon [‘A noite em Lisboa’]”. Escrito por Erich Maria Remarque, retrata um mundo a entrar lentamente na II Guerra Mundial. “O sentimento era o mesmo: todo o mundo está a ficar doido à tua volta, tudo está a explodir, mas aqui estamos nós, sentadas na berma de um rio. E é tão pacífico. O mundo inteiro em guerra, menos Lisboa.”

Não seria bem assim. De imediato, o silêncio abateu-se sobre Lisboa. “No início, era bom poder tirar tantas fotografias sem ter de estar a apagar pessoas delas”, admite Daria. “Mas não me sentia segura, no centro, ao final da tarde. Ainda que Lisboa tenha sido considerada a 3.ª cidade mais segura do mundo há dois anos”. E, pior, o trabalho como guia transformou-se numa fonte seca. “Quando tínhamos muitos turistas, era um desastre, mas eu tinha muito trabalho. Agora, não temos turismo e [mesmo em outubro] eu não tenho trabalho.”

Para já, resta-lhe esperar um novo luar na cidade, ver a noite cair e os curiosos a regressar às ruas de Lisboa. Pelo menos, Daria já não está sozinha. Antes de a pandemia de covid-19 brotar no país, encontrou o amor num qualquer areal das praias da marginal que prolongou os seus planos de ficar por Portugal.

Conhece histórias de outros estrangeiros chegados à cidade que gostaria de ver aqui contadas? Diga-nos quais:


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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