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Na segunda semana do primeiro confinamento, rasguei uma folha de um caderno e escrevi: ‘Se precisar de ajuda, bata no 2º esquerdo. A qualquer hora. Qualquer ajuda’. Só quando estava a escrever, pensei nas consequências da minha oferta. Elenquei uma série de contingências plausíveis para me virem tocar à campainha e alegrei-me instintivamente com as antecipações. Temperos para um prato inédito a reboque da moda dos cozinhados que se tem alastrado pelas redes sociais, uma compra que ficou por fazer ou um produto de maior urgência e ainda pequenos recados. A vizinha do primeiro direito já por duas vezes me pediu a leitura dos números miudinhos da conta da água, porque o falecido marido lhe esconde os óculos,

(fazia-me a vida negra quando era vivo e agora, depois de morto, goza o prato, menina)

também me passou uma nota para a mão e instruiu-me no caminho até à papelaria do Largo de Santos, que na montra passou a expor os prémios da Santa Casa atribuídos aos clientes afortunados, onde antes estavam as páginas do Borda D’Água.

(ali, a sorte não limpa os pés antes de entrar; é mais longe, mas vai a Santos).

Não seria de afastar este género de solicitações. Já com a cafeteira ao lume, acabei por concluir que acalentava missão de maior envergadura, qualquer coisa que reanimasse os músculos e fizesse de mim, se não uma heroína, um ser humano útil. É na migração das aves que as galinhas de capoeira se agitam, sentem o frémito do movimento, estrebucham as asas, como se perseguissem uma maré que as sobrevoa, ainda que as suas curtas pernas as elevem apenas a curtos saltos. Na Lisboa das gaivotas, a humilhação da passarada pequena sente-se com maior ardor e, na segunda semana de confinamento, não me bastava aplaudir os profissionais de saúde à janela e refastelar-me no sofá com resignado sentido de missão cumprida.

A cifra dos números crescentes, o resumo dantesco dos corredores dos hospitais, a alvura das fardas dos novos soldados da linha da frente fizeram-me observar a futilidade das pequenas ocupações domésticas e ver a janela de casa como o pato de aviário se cinge à altura da cerca. O papel que colei junto às caixas de correio, na entrada do prédio, seria a renúncia ao mito da desinteressada vizinhança lisboeta, que larga os seus velhos mortos tombados entre o corredor e a sala até o fedor exsudar as paredes. Depois, voltei para casa e fiquei à espera. Nesse dia, nada aconteceu. No seguinte, também não.

A uma segunda-feira acordei com o toque mal-educado da campainha antes das oito da manhã. Sei bem distinguir um toque aflito de um rude: nas urgências, o dedo pressiona o botão intermitentemente, como um pedido de socorro em código-morse; já a impertinência extrai da campainha uma linha de som inteira, que nos bate na cabeça como um pau.  À porta, ninguém. Quem por ali passara já se fora embora, deixando para trás um saco robusto de pano e um cheiro intenso a trabalho braçal.

Recolhi o saco, era pesado e maleável e concluí, passados poucos minutos, que seria ele a emanar o odor de corredor de fundo. Para desagrado do feminismo genológico que me causticou o pensamento desde o berço, acabava de ser presenteada com uma trouxa de roupa suja, na verdade, imunda, ainda que não por igual. As peças, quase todas calças, estavam cobertas por uma camada de pó branco, lembrando o giz nos quadros de ardósia das escolas de província, e apresentavam manchas escuras nas zonas dos joelhos, nódoas antigas de uma genuflexão militante, principalmente na perna direita.

Pelo corte e a qualidade do tecido, não haveria dúvidas de que se tratava de fardas de trabalho, impermeabilizadas à intempérie, maleáveis ao esforço dos músculos, avessas à preguiça. Não era roupa de mandrião ou de passeio e, se tivesse levado as golas ao nariz – coisa que não fiz -, acharia o malte da cevada bebida à sombra, num intervalo da jorna.

O saco irritou-me, naturalmente, porque me presenteava com uma lição. Perante a minha solicitude voluntariosa, alguém me confrontava com os meus desgraçados propósitos fundeados na vacuidade. Grandes Intenções assistencialistas à deriva como as baleias que dão à costa desorientadas. Estava bem de ver que, no contexto pandémico, o dono do saco seria mais útil ao regular funcionamento do quotidiano e a mim caberia, com hombridade, o papel de lhe lavar a roupa. 

Sacudi a neurastenia e agi rápido, eram roupas de quem não trabalharia devagar e o mais certo era que lhe fizessem falta. Optei por uma lavandaria self-service, daquelas que têm aparecido como cogumelos nas esquinas da cidade, e conferi os bolsos antes de enfiar a roupa no tambor da máquina industrial. Para além de um cigarro fumado até metade, e guardado com método, encontrei uma taluda vencida e um bilhete antigo para um filme francês no Cinema Ideal.

Esta última descoberta alegrou-me tanto como me surpreendeu e o sentimento de espanto chicoteou-me uma vez mais a consciência. Por esta altura, já tinha fantasiado bastante acerca do dono daquelas roupas, avaliara com cuidado os vizinhos do prédio, para os afastar de imediato da ponderação, este era estrangeiro, ave passageira entre os lanços de escadas, que entrara por inaudita razão no prédio e vira no meu bilhete uma honesta oferta. A massa humana com que avolumara as peças de roupa tinha muitas qualidades, mas não era cinéfila, dali levava outro ensinamento.

Nisto pensava, enquanto as calças e as camisolas do meu desconhecido tamborilavam pesadamente às voltas e voltas na máquina, tinham uma cadência militarizada que se afeiçoa às fardas. Hesitava. Faltava-me planear como procederia à devolução da encomenda e, quando o programa de enxaguamento principiou, acabei por decidir deixar o saco onde o tinha encontrado.

Na manhã seguinte já lá não estava, apenas o tapete na soleira, como se nada se tivesse passado. Levantei-me tarde, depois de muito redemoinhar na cama por causa de umas obras que esburacavam a rua a aflitiva velocidade, e a ausência de um agradecimento não me indispôs totalmente. Desci para recolher o correio e um homem olhou-me do passeio em frente, sem interromper o trabalho. Mantendo-se em posição de pedido de casamento à cidade, com o joelho direito no chão, o calceteiro fazia música com o seu martelo na pedra. Alegrou-me ver que, a par com a brancura da calçada, a roupa limpa que trazia vestida também brilhava ao sol.  


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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5 Comentários

  1. Adorei ler. Por vezes a forma como alguém embrulha um pedido de ajuda tolda o mérito desse pedido. Mas o pedido, a necessidade, continua lá. Esta crónica é uma boa lembrança.

  2. Gostei muito de ler! Uma escrita que nos prende ao sentido humano que vai revelando. Parabéns!

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