
Olá, vicino
Não, não foi erro ortográfico. Quem lhe escreve hoje é a Sara Bassini, estagiária na Mensagem, imigrada de Veneza.
Em Itália, os vizinhos são “vicinos”, “olá” parece uma despedida em Portugal (“ciao”) e temos um termo muito específico para descrever as pessoas que mudam de humor com a mudança de meteorologia: meteoropaticos. A meteoropatia está no dicionário português e alguns dos que sofrem deste mal chegam a cancelar toda a vida fora de casa assim que a chuva vem. O resto do tempo passam-no a perguntar: “Quando chove?”.
Quando me mudei para Portugal, percebi que, ao contrário do que sugere o imaginário coletivo e todas as campanhas publicitárias sobre o quão soalheira é a terra lusitana, durante o outono e o inverno (e a primavera também!) há nuvens cinzentas e… chove bastante. Descobri também que quando chove em Lisboa, uma capital europeia normalmente cheia de vida, a cidade fica surpreendentemente deserta. Torna-se difícil ver lisboetas na rua debaixo da chuva. Os únicos que se aventuram são geralmente turistas holandeses ou alemães, facilmente identificáveis enquanto lutam com os guarda-chuvas e exibem orgulhosamente os seus impermeáveis fluorescentes.
E pergunta-me: mas por que razão iria eu pôr-me debaixo da chuva, Sara?
Respondo com uma provocação: Por que não? Por que razão ficam as nossas vidas (ao ar livre ou não) em suspenso sempre que chove? Vinda de uma cidade que conhece bem as cheias, Veneza, é estranho até para mim pensar na vida de antes, em que, mesmo com a água até aos joelhos, ou naqueles dias em que não se via a um metro de distância por causa do nevoeiro, a rotina continuava quase normalmente. As pessoas iam para a escola e para o trabalho na mesma, apenas com um par de botas de borracha.
Seria, pois, fácil para mim julgar esta cultura lisboeta, portuguesa. Mas, depois de viver aqui algum tempo, comecei a perceber por que é que os portugueses são tão céticos em relação a sair de casa quando o tempo está mau: Lisboa, com chuva, é pouco prática.
Para começar, a chuva vem muitas vezes acompanhada de vento, o que torna quase impossível chegar a qualquer destino seco, já que grande parte do percurso é passada a tentar evitar que o guarda-chuva vire do avesso ou se parta. As calçadas irregulares tornam-se ainda mais escorregadias e perigosas do que o habitual, e andar pela rua raramente é boa ideia, já que estas se assemelham mais a rios do que a estradas. E até o metro parece ficar meteoropático: a chuva acaba frequentemente por inundar uma estação ou parte da linha, resultando em atrasos ou cancelamentos. Durante o período em que vivi no Canadá, nem as temperaturas negativas e tempestades de neve lá fora mudavam a pontualidade dos transportes: nestes dias, o autocarro escolar aparecia pontualmente para me ir buscar de manhã.
Mas, para milhares de lisboetas, a chuva pode mesmo ser sinónimo de prisão domiciliária. E para alguns a prisão dura quase todo o ano. O meu colega Frederico Raposo comentava que, ainda que não tenha números para o provar, não tem grandes dúvidas de que há “menos cadeiras de rodas nas ruas de Lisboa”, comparando com outras cidades europeias. E não será por aqui viverem menos pessoas com deficiência, “é porque o ambiente construído não lhes permite o usufruto da cidade”, diz ele.
Enquanto a chuva não volta em força, aproveite para ler do que fala o meu colega:
E agora, a viver como uma verdadeira portuguesa, confesso: tenho sérias dificuldades em sair da cama se o céu não estiver azul e o sol a brilhar. É curioso como só ao viver noutro país consegui compreender verdadeiramente uma palavra da minha própria língua – meteoropatia.
Meteoropática me assumo.
Mas não somos todos assim. Talvez um dia siga o exemplo de Sheyla Ventura, que nem a chuva a trava de andar de bicicleta na cidade:
Até breve.
– Sara Bassini











