O Mercado do Forno do Tijolo anda diferente. Este ano, a Junta de Freguesia de Arroios tem tentado reativar este lugar na cidade, retirando carros, criando zonas de lazer, sombras, cinema ao ar livre e até debates com fregueses. Mas, esta sexta-feira, 11 de setembro, chega uma nova inspiração para o que pode ser o Forno do Tijolo.

No âmbito do Festival TODOS, a lusodescendente Sandrina Martins, vinda diretamente de Paris, chega para discutir o futuro do mercado e o seu potencial enquanto espaço de cultura e comunidade. Há uma razão para isso: em 2015, foi ela quem assumiu a tarefa de dar uma nova vida a um antigo mercado histórico de roupa em Paris, o Carreau du Temple – hoje um espaço onde convivem instalações desportivas, feiras de arte, desfiles de moda, debates e cinema; e do qual ela é diretora.

Um processo que nasce da força cidadã: foram os vizinhos do mercado parisiense que lutaram contra a demolição deste espaço, o único edifício vivo na lista de monumentos históricos do bairro. Em 2001, o então mayor, Bertrand Delanoë, decide recuperá-lo e, dois anos depois, havia 133 propostas para analisar sobre o futuro do Carreau du Temple. A população votou nas finalistas.

O resto da história é Sandrina que nos conta.

A conversa decorre às 17h30, no Mercado do Forno do Tijolo, com moderação de Miguel Abreu. Poderá o Forno do Tijolo (e outros mercados de Lisboa) inspirar-se na história da transformação de Le Carreau du Temple?

Estivemos à conversa com a atual diretora, dias antes da chegada a Lisboa. Leia aqui:


Sabemos que no passado, o espaço Carreau du Temple funcionava como um mercado de roupa. Afinal, o que aconteceu a este mercado? Por que é que acabou por fechar?

Antigamente, era mesmo um mercado muito importante no centro de Paris, no fim do século XIX, com uma arquitetura industrial típica da época. Em francês, falamos de halle. Há muitas halles na França e cada uma tinha uma especificidade: na Halle du Châtelet era a fruta, em La Villette antigamente vendia-se carne, e no Carreau du Temple era sempre roupa.

Le Carreau du Temple, em Paris, antigamente. Foto: site Le Carreau du Temple

Depois, quando começou a fast fashion, nos anos 80, pouco a pouco o Carreau du Temple entrou em declínio e já quase não se vendia nada. Os vendedores deixaram praticamente de vender. Nos anos 80, a cidade de Paris decidiu fechar o edifício e o encerramento definitivo foi em 1984 ou 85. 

Até que ponto as opiniões dos moradores locais foram tidas em conta na decisão sobre o que fazer com o espaço vazio?

Em 2002, houve uma consulta pública em Paris, no próprio bairro do Carreau du Temple, com os habitantes e os vizinhos, e eles decidiram fazer uma renovação completa do mercado, para o transformar num espaço cultural, desportivo e também dedicado a eventos. Mas ainda não se sabia muito bem o que significava essa parte dos eventos…. 

Então, e o que é que encontramos hoje no Carreau du Temple?

Para explicar de forma simples, diria que a atividade do Carreau du Temple assenta em três grandes pilares complementares. O primeiro pilar é a nossa programação cultural, que inclui espetáculos, festivais, exposições, e debates. O segundo é uma missão muito importante de interesse público: o acolhimento de escolas, associações e cidadãos através de aulas regulares de dança, desporto e bem-estar. Temos ioga, ténis, pilates e muitas outras atividades, num total de mais de 90 aulas por semana. Depois temos um terceiro grande pilar, que é a exploração da halle para grandes eventos.

Cerca de 80% das nossas receitas próprias estão ligadas ao aluguer do espaço e a estes grandes eventos, incluindo também as feiras de arte. 

As obras começaram em 2004 e duraram quase dez anos. Foi muito tempo, porque descobriram um cemitério muito antigo por baixo do Carreau du Temple, e por isso foi necessário fazer um trabalho arqueológico no sítio do mercado. Depois, em 2014, abriu o “novo Carreau du Temple”, como lhe chamaram.

O “novo” Carreau du Temple, em Paris. Foto: Fernando Javier Urquijo
O “novo” Carreau du Temple, em Paris. Foto: Fernando Javier Urquijo

Como é que chegou à direção do Carreau du Temple?

Quando me candidatei, já tinha algumas ideias, porque, em França, quando uma pessoa se candidata à direção de um equipamento cultural, tem de apresentar um projeto. Não conta apenas a experiência profissional. Escrevi um projeto de cerca de 30 páginas e fui selecionada. Eu tinha algumas intuições, sabia mais ou menos o que queria fazer, mas era também um equipamento muito novo, que só tinha aberto um ano antes. Hoje, o projeto que desenvolvo é muito diferente daquilo que escrevi há 11 anos.

Quais das suas ideias que tinha inicialmente chegaram a concretizar-se?

Muitas. A intuição mais importante que tive foi combinar as atividades culturais com as atividades desportivas. A ideia era não ser apenas um espaço dedicado à cultura, mas pensar também na capacidade do espaço para acolher pessoas que tradicionalmente não frequentam equipamentos culturais. Com as atividades desportivas, podemos atrair mais pessoas. Estamos no centro de Paris, o que também é uma situação particular. E isto permite-nos combinar várias atividades diferentes em simultâneo. Todos os dias temos aulas de desporto e de dança, mas temos também uma programação de espetáculos e festivais e alugamos a grande Halle, que é uma grande nave industrial. Tudo isto já fazia parte do meu projeto inicial. Depois, claro, alterei muitas coisas, como os temas dos festivais.

Mapa do Carreau du Temple. Foto: Le Carreau du Temple

Há um perfil demográfico específico entre o público do Carreau du Temple? As pessoas vêm sobretudo dali ou também de outras zonas de Paris?

Fizemos há pouco tempo um estudo sobre o nosso público, por isso já posso responder com alguma precisão: um terço das pessoas são do centro de Paris e vivem perto, outro terço vem de outras zonas de Paris, e um terço final que vem de fora da cidade. Aquelas que vivem fora de Paris vem sobretudo para ocasiões específicas.

O Mercado do Forno do Tijolo em Lisboa, embora fique a uma curta distância do centro da cidade, está numa zona mais residencial e com relativamente menos importância histórica. Acha que, se o Carreau du Temple não estivesse numa localização tão histórica e tão central, ele teria o mesmo sucesso? 

Acho que o projeto podia ser o mesmo, porque há outro espaço industrial com valor patrimonial que se tornou num espaço cultural num bairro que não é nada central, o Centquatre-Paris. Fica longe do centro, num bairro um pouco difícil do ponto de vista social e económico, e funciona muito bem. Conseguiram criar uma comunidade em torno do projeto. Para eles, é mais difícil alugar o espaço do que para o Carreau du Temple, que fica num bairro da moda, muito hype. Mas creio que se o Carreau du Temple estivesse noutro local, a cidade de Paris teria isso em conta e aumentaria o subsídio para compensar essa maior dificuldade em alugar o espaço. Em Paris, estamos muito habituados a ter muita oferta cultural e muitas atividades associativas. As pessoas que vivem em Paris gostam muito de frequentar diferentes espaços.

A renovação tornou-se uma referência para outros espaços. Que potencial vê neste modelo para inspirar a transformação de lugares como o Mercado do Forno do Tijolo? 

Não há praticamente cidade nenhuma que não tenha um espaço industrial ou um antigo mercado. Muitas vezes, as delegações internacionais vêm visitar-nos para procurar inspiração. E eu pensava que o Mercado do Forno do Tijolo tinha uma arquitetura mais industrial, mas agora estou a ver que não é bem assim. O que me parece interessante aqui em Arroios é a presença simultânea do mercado, onde ainda se vende comida, de uma piscina, ou seja, de um equipamento desportivo, e também de uma sala de leitura, que talvez tenha alguma ligação a um auditório ou a uma sala de espetáculos. É a combinação de diferentes atividades que permite criar uma maior ligação com o público e com a comunidade, porque as pessoas que normalmente não frequentam os espaços culturais mais clássicos podem sentir-se mais à vontade num espaço um pouco diferente. Isto é particularmente importante para os jovens, sobretudo aqueles que se sentem mais afastados destas questões culturais.

O Mercado do Forno do Tijolo, em Arroios. Foto: CML

O Mercado do Forno do Tijolo é um espaço híbrido, onde as diferentes lojas estão ligadas por um espaço exterior comum, que funcionava como parque de estacionamento. Acha que, se os diferentes espaços do Carreau du Temple não estivessem todos ligados sob o mesmo teto, existiria a mesma unidade entre as pessoas e as atividades?

Não sei, acho que esse é um grande desafio para este mercado em Lisboa, mas é um desafio muito estimulante: perceber como se pode pensar um projeto a partir daquele espaço. Não é possível pegar num projeto que existe noutro lugar e dizer: “Está bem, vamos pôr este projeto aqui.” Isso é impossível. A arquitetura é fundamental. É preciso olhar para aquilo que tem em Arroios e construir um projeto a partir daí, tendo em conta as especificidades do lugar. Um projeto tem de ser pensado a partir das particularidades do próprio lugar. Tenho a certeza de que é possível encontrar um projeto muito estimulante e interessante, o projeto certo para aquele espaço.

Que conselhos daria a um mercado histórico como este, em Arroios, que quer passar por uma transformação semelhante?

Eu não vou lá para dar lições. Cada sítio tem a sua própria história e as suas próprias condicionantes e dificuldades. A principal lição da minha experiência no Carreau du Temple é: a renovação de um espaço que anteriormente não tinha uma função cultural não deve ser pensado apenas como um espaço cultural; essa diversidade que já existia deve ser preservada. Não quer dizer que um espaço dedicado apenas à cultura não funcione – há muitos teatros que funcionam assim -, mas estes espaços mais originais, com uma história diferente, permitem pensar num projeto novo, capaz de criar uma comunidade à sua volta. 

Acho muito positivo que aqui já exista uma piscina. Uma pessoa pode ir à piscina e, quando sair, nesse mesmo dia, pode ir ver um filme ou assistir a um debate. Ou pode voltar noutro dia para fazer outra coisa. É mesmo esta diversidade de usos que considero importante e que deve ser respeitada e mantida.


Forno do Tijolo: que mercado é este?

No dia 4 de agosto, o futuro do Mercado do Forno do Tijolo foi posto em debate. Numa sessão participativa organizada pela Junta de Freguesia de Arroios, moradores e comerciantes falaram sobre o que deve mudar num espaço que, durante décadas, fez parte do quotidiano do bairro dos Anjos, mas que viveu todos estes anos sem grandes planos.

Inaugurado em 1949, o edifício guarda mais de meio século de histórias de Arroios. Durante anos, foi um ponto de passagem obrigatório para os moradores: comprava-se peixe, carne, charcutaria, congelados, vinho, flores e plantas. Mas os hábitos mudaram. O boom dos supermercados na cidade e a diminuição do poder de compra alteraram a relação de muitos moradores com o comércio tradicional.

Ana Cristina sente essa mudança todos os dias. A florista, de 51 anos, instalou-se no mercado há 18 anos, quando percebeu que era o único mercado da zona sem uma banca de flores. “Antes as pessoas lá fora tinham que fazer fila para entrar aqui. Tínhamos sempre muita gente, principalmente de manhã. Agora está bem mais complicado”, conta.

A banca de Ana Cristina é uma das que resistem num mercado onde a perda de movimento se tornou visível. Para os comerciantes, o problema não é apenas a concorrência dos supermercados. É também a perda do hábito de sair de casa, circular pelo bairro e fazer compras em vários pequenos negócios. É precisamente aí que a Junta vê uma possibilidade de transformação.

O Mercado do Forno do Tijolo. Foto: Junta de Freguesia de Arroios

Hoje, aqui, moram um café, uma florista, uma peixaria, uma papelaria, um cabeleireiro, o FabLab (laboratório municipal de fabricação digital), o BioLab Lisboa (um laboratório de ciência cidadã criado numa parceria entre a FCUL e a Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências), também o Lidl, uma pequena loja de legumes e frutas e a Bandim. No miolo do mercado, ainda praticamente nada.

Mas as mudanças já são notórias: onde antes havia estacionamento sem regulação, dezenas de carros estacionados na área do mercado, há agora bancos, mesas e até sombras. Manuel Banza, da assessoria da junta de freguesia, e um dos responsáveis pela nova vida do mercado, mostrou que, logo após a aplicação das primeiras sombras (criadas nos corredores exteriores do mercado com recurso a redes ou tecidos que representem a diversidade cultural de Arroios, com o apoio da Bandim), a temperatura começou a baixar. Poderá este ser, um dia, um refúgio climático em Lisboa?

Mas as intervenções não ficam por aqui: além das sombras e dos eventos culturais que ali têm acontecido, a Junta de Freguesia começou a remover o alcatrão para plantar árvores. E tem disponibilizado equipamentos desportivos para ténis de mesa e badminton.

Manuel Banza chama ao Forno do Tijolo “um diamante por explorar”: um espaço no centro da cidade, com equipamentos subutilizados e pouca vida na rua.

Mas as mudanças têm dividido moradores e comerciantes. Como, aliás, se ouviu na reunião participativa de 4 de agosto. “Pode, sim, chegar novo comércio, mas tem que ser moderado para não atrapalhar os negócios que já aqui estão”, resumiu um dos moradores presentes. Houve também quem deixasse um aviso sobre os horários: “As pessoas que vivem aqui ao lado trabalham, há que ter noção disso. O mercado deveria fechar por volta das 22.”

A decisão de retirada dos carros, por exemplo, gerou oposição entre alguns moradores e comerciantes, que temiam que a redução do estacionamento prejudicasse ainda mais as vendas. “Retirar os carros daqui é que vai atrapalhar o negócio.” Mas, para Banza, retirar parte dos carros permitiu imaginar outra utilização para o espaço. “Ficámos com muito espaço para intervir”, explica. “Podemos criar sombras, bancos, atividades e um novo espaço público de raiz.”

A nova utilização começou a atrair iniciativas. A Festa do Cinema Italiano realizou uma sessão ao ar livre no espaço antes ocupado pelos carros. A ideia não partiu da Junta: segundo Banza, foram os organizadores do festival que contactaram a autarquia depois de verem que havia espaço e bancos onde antes estavam estacionados os automóveis. “Quando criamos condições para as coisas acontecerem, são as próprias pessoas que se querem apropriar destes espaços”, diz.

A requalificação ainda está em curso. As lojas 1 e 2 tiveram concurso aberto para receber um projeto de restauração centrado na literacia alimentar. As bancas vagas junto à peixaria poderão dar lugar a um mercado de proximidade dedicado a produtos produzidos na Área Metropolitana de Lisboa. E a Junta estuda ainda horários diferentes dos praticados habitualmente nos mercados – a ideia é testar um modelo que permita comprar ao fim da tarde ou à noite, quando muitas pessoas saem do trabalho, em vez de fechar à hora de almoço, como a maioria dos mercados.

A ambição da Junta é transformar o Forno do Tijolo num espaço que ligue alimentação, cultura, desporto, inovação e convivência. Banza admite até que o nome “mercado” pode já não chegar para descrever o que imagina para o local: um espaço polivalente, aberto a eventos comunitários, cinema, feiras, concertos e atividades para crianças.

Mas, para já, a medida de sucesso é mais simples. “O que nós queremos é vida naquele espaço”, diz. Crianças a brincar, pessoas sentadas à sombra e moradores capazes de usar aquele pedaço de cidade “sem a necessidade de consumir”.


Hannah Brosh

Hannah é natural de Inglaterra, nasceu em 2006 e estuda Linguística na Universidade de Oxford – estudos que complementou com uma vinda para Lisboa e um estágio com a Mensagem. É apaixonada pela linguagem e dedica também o seu tempo livre à escrita de contos e poesia.

Hélvio Dó

Hélvio Dó, nasceu em Portugal em 2006, filho de pais angolanos. Cresceu na Serra das Minas, onde desenvolveu um olhar atento para as histórias das comunidades que hoje procura contar. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pelo Instituto Politécnico de Bragança, em Mirandela. Interessa-se por jornalismo de proximidade, cultura e questões sociais, com especial interesse pelo jornalismo multimédia, produção audiovisual e narrativa visual.

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