Subin sorri muito. É uma das primeiras coisas que as pessoas notam nele e tornou-se, cada vez mais, parte da identidade que projeta através dos vídeos que faz sobre a vida em Portugal. De vez em quando, os clientes reconhecem-no nos seus turnos na loja da Santini de Belém e pedem para tirar fotografias com ele – Subin diz que a gerente já começou a fazer piadas sobre tanta atenção. Mas é também a vender casas em Lisboa, para uma imobiliária, que Subin chamou a atenção.
A tantos quilómetros de distância do lugar onde nasceu, na Índia, tornou-se uma estrela das redes sociais. “Olá, maltinha!” é a sua imagem de marca.
Mas por trás desta imagem pública alegre está uma história menos visível: sair da Índia aos 19 anos, mudar-se entre vários países europeus, navegar pela burocracia da imigração, perder uma oportunidade de emprego promissora, ter vários trabalhos ao mesmo tempo e construir uma vida longe da família.
“Não gosto de me queixar,” diz Subin. “Prefiro procurar oportunidades.” O seu perfil de instagram brinca com o seu nome Subin e o português “subir na vida”.
Da Índia para a Europa
Agora com 27 anos, Subin cresceu numa cidade costeira da Índia, onde o mar se tornou uma parte importante da sua vida. Acordava por volta das 4h30 da manhã para ver o nascer do sol na praia. “O mar recarrega a minha energia.”
Crescer numa zona visitada por turistas também alimentou a sua curiosidade sobre o mundo. Lembra-se de falar com estrangeiros e perguntar-se como seriam os países de onde vinham. “Queria ver como viviam,” conta. “Queria vivenciar tudo isso.”
Aos 19 anos, deixou a Índia para estudar Empreendedorismo e Gestão, na Letónia.
Mais tarde, os seus estudos levaram-no para a Universidade de Huelva, em Espanha, e para a Polónia através do programa Erasmus. Estudou na Universidade de Gdańsk e conta que também aprendeu polaco durante o tempo que passou lá. “Adoro o meu país e tenho orgulho de onde venho. Claro, sou indiano. Mas queria explorar.”
A dada altura, um amigo que já vivia em Portugal falou-lhe do país — do clima, das oportunidades e da vida perto do mar.
Subin decidiu vir. Longe de imaginar o que se seguiria.
Uma oportunidade perdida
Era apenas uma das maiores desilusões dos seus primeiros anos em Portugal. E aconteceu justamente quando a sua vida profissional parecia prestes a mudar. Após concluir um programa de formação, Subin conta que recebeu uma proposta para trabalhar como gestor de contas no BNP Paribas. Diz que o salário era bom o suficiente. Para alguém que tentava estabelecer-se num novo país, parecia um ponto de viragem. “Pensei: ‘Uau, a minha vida vai mudar.’” Tinha recebido a proposta e estava a preparar-se para começar a trabalhar quando, segundo Subin, lhe disseram que a sua documentação de residência o impedia de assumir o cargo.
Na altura, aguardava pelo título de residência português através do processo de imigração então conhecido como “Manifestação de Interesse”. Diz que o processo acabou por demorar cerca de três anos.
O emprego desapareceu.
“Fiquei triste,” desabafa.
Olhando para trás, no entanto, Subin dá à experiência uma interpretação diferente. “Ainda bem que aconteceu,” reflete. “Porque se tivesse conseguido aquele emprego, não teria tido as oportunidades que surgiram depois.”
Voltou a trabalhar em restaurantes.
“Se não tiver nada, trabalho como copeiro ou faço qualquer outro trabalho,” afirma. “Tenho um enorme respeito por todo o tipo de trabalho.”
Aprender português fora da sala de aula
Subin comunica agora com facilidade em português, mas diz que nunca frequentou aulas formais da língua.
Em vez disso, aprendeu através das pessoas, do trabalho, de conversas online e da música.
Afeiçoou-se particularmente à música portuguesa e a Mariza, cujas canções o tocavam mesmo antes de conseguir entender totalmente as letras. “É mais do que as palavras,” diz. “Preciso do sentimento, da energia. Quando ouço essa música, ela leva-me a algum lugar emocionalmente.”
A música também se tornou um exercício linguístico. Subin escutava atento às palavras desconhecidas, procurava os seus significados e tentava reproduzir a forma como as pessoas falavam o português europeu.
Também praticava online com uma explicadora portuguesa chamada Patrícia. “Não gosto de aprender de forma formal,” refere. “Prefiro aprender informalmente.”
A interação do dia a dia tornou-se noutra sala de aula.
Subin conta que trabalhou por um breve período num restaurante indiano após chegar a Portugal, mas optou por não continuar lá porque queria ter um contacto maior com os portugueses e com a cultura local. “Estou aqui em Portugal para me integrar na cultura portuguesa,” afirma. “Sempre que vou para um país, tento fazer amigos desse país. Tento aprender a cultura.”
Vive sozinho na Amadora. Construiu um grande círculo de amigos em Portugal, mas os seus pais e irmãos permanecem na Índia.
Encontrar uma família longe de casa
Essas amizades tornaram-se particularmente importantes porque a própria família de Subin está a milhares de quilómetros de distância. E, talvez por isso, Subin descreva vários portugueses usando termos de parentesco. Um deles é Bernardo, um músico que Subin conheceu enquanto trabalhava num restaurante e a quem agora chama de “irmão”.
Subin recorda-se de ter chegado à festa de aniversário de Bernardo quase sem conhecer ninguém. Em vez de o deixar sozinho a tentar integrar-se, Bernardo levou-o a passear pela festa e apresentou-o aos outros convidados. “Ele não tinha de fazer aquilo,” diz Subin. “Nem tenho palavras.”
Na RE/MAX, onde agora trabalha no ramo imobiliário, fala de forma semelhante sobre as suas colegas Alexandra e Ana.
Ana, diz ele, tornou-se “como uma mãe” em Portugal. “Quando ligo para a minha mãe, mostro a Ana também,” conta. “Digo: ‘Mãe, esta é a minha mãe aqui em Portugal.’”
E, durante uma viagem de bicicleta de cerca de 700 quilómetros, de Lisboa em direção ao norte de Portugal — que Subin conta ter durado 24 dias —, ficou hospedado em casas de famílias ao longo do trajeto. Lembra-se de uma família perto de Porto de Mós com especial carinho: partilhou refeições com eles, conheceu os parentes e bebeu vinho e aguardente.
“Tratam-me como se eu fosse um dos seus,” recorda.
Vender casas e gelados em Lisboa
Atualmente, Subin divide a sua vida profissional entre três locais.
Trabalha na RE/MAX Extra, em Lisboa, enquanto faz turnos em regime de part-time na Santini de Belém e num restaurante.
O horário tornou-se numa das suas piadas favoritas. “Um ser humano só tem 24 horas,” diz. “Eu preciso de pelo menos 30 horas num dia.”
O imobiliário, contudo, é a carreira que espera desenvolver.
Já estava interessado no setor há algum tempo quando abordou a RE/MAX pela primeira vez. Segundo a sua gerente, Alexandra, a iniciativa partiu inteiramente dele. Abordou a agência pela primeira vez quando ainda viajava por Portugal e fazia vídeos. Manifestou interesse em juntar-se à equipa, mas disse que voltaria quando estivesse preparado.
Alexandra não esperava que ele voltasse.
Alguns meses depois, ele cumpriu a promessa.
“Ele disse: ‘Agora estou pronto. Vivo em Lisboa, tenho uma grande comunidade e acho que conseguiria fazer isto. Acha que me enquadro aqui?’” recorda ela.
Alexandra decidiu dar-lhe uma oportunidade.
Mudar a forma como Lisboa pensa
O que impressionou Alexandra não foi o facto de Subin já entender de imobiliário. Ele não entendia. Foi a sua predisposição para reconhecer isso e aprender. “Se eu lhe disser: ‘Por favor, faz desta forma’, ele faz,” diz ela. “É realmente empenhado.”
Para Alexandra, essa vontade é decisiva numa profissão onde os novos agentes têm muito para aprender. “Estou muito feliz com ele — não porque saiba tudo, mas porque compreende que não sabe tudo e sabe a quem pedir ajuda.”
O sorriso constante pode fazer com que Subin pareça brincalhão à primeira vista, diz ela, mas já viu outro lado dele com os clientes. “Com os clientes, ele consegue ser mais sério,” refere. “E vejo que os clientes o respeitam.”

A sua experiência com Subin reflete esse princípio: ele não foi contratado por saber tudo sobre o imobiliário português, mas sim porque teve uma oportunidade por estar preparado para aprender.
Ainda assim, o setor imobiliário ainda não lhe proporciona um rendimento previsível. As vendas podem demorar, sendo essa uma das razões pelas quais Subin mantém os seus outros trabalhos em part-time.
Um escritório internacional em Lisboa
Para Alexandra, a história de Subin levanta também uma questão mais ampla sobre a forma como os empregadores portugueses veem os migrantes. A sua própria experiência no estrangeiro influencia fortemente a sua resposta: lembra-se de estar afastada da família e de ter vários empregos, uma vivência que a ajuda a perceber por que razão alguém como Subin está disposto a manter um ritmo de trabalho tão intenso.
Argumenta que os empregadores não devem confundir a falta de familiaridade de alguém com a língua portuguesa ou com a cultura de trabalho local com uma incapacidade de contribuir. “Se lhes dermos um bom ambiente de trabalho, eles podem ser os melhores trabalhadores,” afirma.
Reconhece que os locais de trabalho multiculturais exigem adaptação. As pessoas chegam com diferentes idiomas, históricos profissionais e expetativas culturais, e os empregadores podem precisar de fornecer apoio adicional.
Mas, para ela, a vontade de aprender é o fator decisivo.
“Eles querem realmente ter uma vida boa,” diz. “Caso contrário, não teriam mudado de país.”
Subin trabalha num ambiente particularmente internacional. Alexandra conta que a equipa inclui pessoas com origens em vários países, incluindo Ucrânia, Paquistão, Argélia, China e Brasil. Alguns vieram para Portugal fugidos da guerra, enquanto outros se mudaram por trabalho, família ou outras oportunidades.
Essa diversidade traz vantagens e desafios.
A língua é um deles.
As reuniões são geralmente conduzidas em português, diz Alexandra, mas quando alguém não entende, os colegas fazem uma pausa para explicar em inglês ou noutra língua comum.
A agência também tenta corresponder clientes e agentes de acordo com os idiomas que falam. No mercado imobiliário internacional de Lisboa, no entanto, o desafio linguístico funciona nos dois sentidos. Alexandra diz que as agências precisam de agentes que falem português, mas também precisam de pessoas capazes de comunicar com clientes estrangeiros.
Subin fala malaiala e inglês, e aprendeu português e polaco.
As suas ligações no estrangeiro poderão vir a integrar a sua carreira imobiliária. O seu pai trabalha no Dubai, e Alexandra vê potencial para Subin desenvolver contactos com esse mercado no futuro.
Por agora, diz ela, a prioridade é que ele consolide os seus conhecimentos sobre o mercado imobiliário em Portugal.
O sonho de fazer vídeos
Subin conta que sonhava fazer vídeos desde que vivia na Polónia. Chegou a comprar uma câmara, mas no início faltava-lhe a confiança para a usar em público.
Com o tempo, começou.
O seu primeiro vídeo foi gravado na Praça Luís de Camões, em Lisboa. Desde então, a sua presença nas redes sociais cresceu a ponto de contar que as pessoas por vezes o reconhecem na rua e no trabalho.
O seu objetivo, diz, é simples: “Gosto muito de motivar as pessoas. Quero que as pessoas tenham sempre energia positiva.”
A próxima paragem
Apesar de todo o trabalho, Subin ainda arranja tempo para o lugar que o acompanha desde a infância: o mar.
Conta que já visitou praias por toda a região de Lisboa e por vezes apanha o comboio de Cascais sem ter decidido exatamente onde vai parar. Enquanto está sentado no comboio, pode subitamente decidir: “Ok, hoje saio em Carcavelos.”
No inverno, vai por vezes até à Ribeira d’Ilhas, na Ericeira, onde se exercita na praia com amigos.
Adora Lisboa — o seu movimento, as oportunidades e as pessoas —, mas imagina que o seu futuro poderá vir a ser diferente.
Um dia, se tiver família e filhos, diz que consegue imaginar-se a viver num local mais tranquilo, talvez em Peniche. Por agora, no entanto, Lisboa é onde está a tentar construir o seu futuro.

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