Delimitada a poente pelo maior troço remanescente da Muralha Fernandina erguida no século XIV, a secular Escola Básica e Secundária Gil Vicente (antigo Liceu Gil Vicente) é uma referência da comunidade. Fundada no coração do bairro da Graça, a instituição tem sido a segunda casa dos milhares de jovens que a frequentam, em três ciclos de ensino, num período de oito anos da adolescência.

A sede do agrupamento, na Rua da Verónica, liga as freguesias de São Vicente e Santa Maria Maior, conjugando um património variado, entre palácios, igrejas e ghettos dourados com nichos degradados (como é a Quinta do Ferro), habitação social e vilas operárias, além de comércio e serviços com finalidades díspares.

Nos últimos anos, a esta variedade somou-se uma miríade de representações sociais e culturais, onde coexistem lisboetas, nascidos e criados ou filhos adotivos do bairro, e uma vaga crescente de população estrangeira, imigrante ou não.

Neste enquadramento, a Escola Gil Vicente tem vestido a pele da pluralidade, “abraçando” um vasto filão de crianças e jovens filhos de imigrantes, muitos dos quais já nascidos em Portugal, e um número considerável de recém-chegados ao país e para quem a língua portuguesa é um universo desconhecido.

A vinda constante e em crescendo de estudantes estrangeiros dos quatro cantos do planeta constitui, em simultâneo, uma mais-valia e um enorme desafio: por um lado, emerge uma escola mais rica, que concilia uma panóplia de culturas de gentes de todo o mundo, e, por outro, a premência de corresponder à altura das necessidades pedagógicas que uma realidade orgânica tão diversa demanda.

A Escola Gil Vicente é uma referência na comunidade na Graça. Foto: Rita Ansone.

A integração dos alunos estrangeiros tem como peça fundamental superar as barreiras linguísticas, viabilizando assim a compreensão dos conteúdos programáticos das diferentes disciplinas e a inclusão na comunidade escolar de forma ampla. Neste processo de adaptação, cada aluno estrangeiro deve ser considerado um propósito fundamental na engrenagem como qualquer outra.

Acolhimento em todos os espaços da escola

Neste sentido, e de acordo com a legislação em vigor, uma ferramenta fundamental é a disciplina Português Língua Não Materna (PLNM), que permite a gradual aquisição de conhecimentos, com aprovação nos níveis A1, A2, B1 e B2. Assim, a Escola Gil Vicente tem vindo a mobilizar e a reforçar estratégias de acompanhamento destes alunos, propiciando motivação, encorajamento e a visão da escola como um espaço de aprendizagem, acolhimento e bem-estar.

O “abraço” aos alunos de todas as nacionalidades, no átrio do edifício, de frente para a entrada, é um exemplo. São quatro painéis com as respetivas bandeiras, dispostas por sequência geográfica, o da Europa ao centro, o da Ásia à direita e o de África e da América à esquerda. O quarto painel agrega, por ordem cronológica, as novas nacionalidades entradas nos dois últimos anos letivos.

Bandeiras dos países dão um “abraço” de boas-vindas aos alunos estrangeiros na escola Gil Vicente. Foto: Helena Vicente Gomes.

Esta foi uma das iniciativas tomadas no âmbito do projeto Casa – Comissão de Apoio Solidário aos Alunos – do qual assumi a responsabilidade de coordenação em 2023. É nossa intenção que os alunos das cerca de 80 nacionalidades, que, diariamente, frequentam a nossa escola, consolidem o sentido de pertença a esta comunidade. E sejam todo dia recordados disso, quando chegam e a escola os abraça num envolvimento emocional, onde todos são tratados como iguais e o racismo, a xenofobia e quaisquer outras formas de pensamento e tratamento preconceituoso e discriminatório são banidos e expulsos.

Também na cantina da escola, no piso inferior, a parede central enfatiza o mesmo propósito: desta feita, são muitos os relógios, sequenciados pelos fusos horários a partir do de Portugal, onde todos podem visualizar que horas são no seu país.

O acolhimento repete-se nas salas de aula do curso de português para estrangeiros adultos, o PLA – Português Língua de Acolhimento – oferecido há mais de duas décadas em regime noturno. Num espaço, o placard ao lado do quadro reproduz as nacionalidades dos alunos da turma, reforçando que os valores defendidos pelos professores da escola não concebem nem admitem comportamentos de hostilidade à população imigrante. Pelo contrário, tornam realidade diária alguns dos ideais consagrados na Declaração Universal dos Direitos humanos: equidade, paridade, humanismo e sentido de justiça.

Também em 2023, foi criada uma equipa de professores com enfoque nos desafios da multiculturalidade na escola, tendo desenvolvido um trabalho intensivo em articulação com parceiros da comunidade, como a Associação Renovar a Mouraria, e a colaboração permanente da Fundação Aga Khan: o mote do projeto é a “Interculturalidade, com permuta, intercâmbio e assimilação de culturas”, o que representa uma etapa mais avançada da multiculturalidade, que não pressupõe permeabilidade e interseção.

Helena Vicente Gomes é professora da Gil Vicente e responsável pelo projeto Casa. Foto: Rita Ansone.

No mesmo ano, surge o projeto “Sou Gil”, com um vasto grupo de professores a monitorizar aulas de apoio aos alunos estrangeiros recém-chegados ao país, coadjuvantes no processo de aprendizagem da língua portuguesa e na imersão na nossa história e cultura.

Trabalhar e interagir com alunos estrangeiros é uma das experiências profissionais mais enriquecedoras e gratificantes: o cruzamento de culturas e saberes faz de cada momento, de cada aula uma aprendizagem biunívoca e a empatia e o reconhecimento engrandecem o investimento de cada um de nós.


A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico.

Helena Vicente Gomes

Helena Vicente Gomes, nasceu e vive, desde sempre, em Lisboa. É professora de Inglês e Alemão da Escola Básica e Secundária Gil Vicente e, na sua vida, tem mantido o interesse e o fascínio pelas artes em geral: literatura, música, teatro, dança e belas-artes. Faz parte do projeto BIP/ZIP Vida com Graça, dinamizado pela Cooperativa Criar Cidade com o apoio da Mensagem de Lisboa.

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