Uma mesa de café e quatro cadeiras, na Praça do Carvão, mesmo à porta do MAAT Central, onde antes não existiam, chamam quem passa. O convite é simples: rabiscar ou deixar mensagens sobre a cidade, numa toalha de papel. Como se fôssemos convidados para uma conversa numa mesa de café. De repente, uma dedicatória: “Amo Lisboa”, escrito ali pela artista Joana Vasconcelos, na obra de dualgo.

Integrado na programação do 10.º aniversário do museu, este foi um dos momentos de ativação preparados por seis jovens criadores que, ao longo de vários meses, fizeram no Entre Margens. Um projeto de comunicação do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em parceria com a Mensagem de Lisboa.
A premissa era juntar o que não tantas vezes se une – o museu, artistas emergentes, a comunidade e os jornalistas. O passado 5 de outubro foi a celebração desse resultado: com peças e ativações dos criadores e com um jornal.

MAx Provenzano e uma troca de mensagens com a cidade
Num dia de festa no MAAT, em que o percurso junto ao rio parece entrar em rebuliço, MAx Provenzano convida quem passa na rua a parar, escutar e trocar mensagens. Não através de ecrãs, mas por meio de um dispositivo composto por duas máquinas de escrever, unidas pelo mesmo rolo de papel.
Vestido como um técnico de manutenção do sistema de comunicação que o próprio construiu, MAx apresenta o Entre Mensagens:
“Chamo-lhe infraestrutura de comunicação. E tenho de dizer que, ao construí-la, aprendi muito. Descobri que uma mensagem pode estar perfeitamente escrita e mesmo assim demorar a chegar. Que uma resposta pode existir e não encontrar quem a receba. Que o silêncio também é uma forma de comunicar, e que as instituições, como as pessoas, comunicam sempre, mesmo quando acham que não.”

O sistema não funciona apenas com emissores e recetores. À volta das máquinas, são precisas outras pessoas para segurar o papel, fazê-lo avançar e garantir que a mensagem completa o percurso.
A comunicação é ali, verdadeiramente, um ato comunitário.
E MAx reconhece-se nesse circuito. Enquanto migrante, nascido em Caracas, Venezuela, conhece bem as distâncias que uma voz pode ter de atravessar até ser ouvida.
“Sei o que é estar na margem de uma conversa. Sou migrante. Há muito tempo que a minha voz chega a todo o lado antes de mim: o sotaque anuncia-me, e a mensagem é lida antes de ser ouvida. Aprendi a medir a distância entre o que quero dizer e o que é entendido, porque a vida me obrigou a medi-la todos os dias. Quem vive na margem torna-se perito em infraestruturas, porque depende delas.”

À volta da instalação, várias pessoas começam a participar. Algumas aproximam-se com curiosidade; outras hesitam, sem saber bem o que escrever ou como utilizar uma máquina antiga.
Entre elas, duas mulheres venezuelanas vão ao encontro de MAx, porque reconhecem nele uma experiência que também é a sua, a imigração. E, naquele pequeno circuito, a comunicação, tal como MAx idealizou, cumpre o seu propósito: há uma cidade que se reconhece e que se aproxima.

A máquina de escrever centenária de Bruna Varela

No laboratório de criatividade, instalado na mesma praça, Ana Filipa Goulão, de 45 anos, residente em Lisboa, dá a conhecer à filha um objeto “raro”. A máquina de escrever de Bruna Varela, onde a criadora começou a registar poemas, tornou-se, naquela tarde, um dispositivo de comunicação entre gerações.
Nas mesmas teclas, Bruna transcreve O Espelho, um poema criado no contexto do projeto, sobre as diferentes margens, físicas e simbólicas, que encontra na cidade.
Entre o que o poema revela e as peças que encontrou no laboratório, Ana Filipa Goulão reconhece a distância que ainda separa pessoas e lugares:
“Existe o olhar de lá para cá e o olhar de cá para lá, mas ainda falta uma ligação maior entre as margens.”
Retrato da “Margem Norte” de Nuno Trigueiros
O laboratório foi também espaço para somar perguntas e trocar ideias, em duas visitas explicadas às obras de Nuno Trigueiros e Ivone Fernandes-Jesus. Os criadores partilharam aquilo que encontraram quando olharam para a cidade, a partir das suas próprias experiências.
A ilustração em tecido a que Nuno Trigueiros deu o título Ornamentações do Território, reúne símbolos, figuras e elementos da natureza da Linha de Sintra, a “Margem Norte”. A obra traça também um retrato dos jovens da periferia – como Nuno e os amigos com quem trabalha no seu coletivo – e das dinâmicas que moldam a forma como estes se relacionam com a cidade.


“As questões que represento são batalhas diárias, do quotidiano, que, de alguma forma, impedem muita gente de estar presente neste sítios e construir cultura. A acessibilidade ainda não é total”, afirma o criador.
Durante a conversa, uma visitante lança uma provocação: os artistas são, muitas vezes, “os primeiros” a levantar questões, como o acesso e a representatividade. Podem, por isso, ser também agentes de transformação nos bairros, nas comunidades e na cidade.
O jornal: seis olhares sobre o museu e a cidade

Foi a partir desta vontade de questionar através da arte que ganhou forma o jornal Entre Margens, distribuído no dia em que o MAAT assinalou o seu aniversário.
Inspirados por sessões teóricas sobre jornalismo comunitário, arte e periferias, e também pelas diferentes relações que cada um tinha com a cidade, os seis jovens criadores tornaram-se contadores de histórias.
Entrevistaram-se em duplas, desenvolveram reportagens e elaboraram uma proposta de manifesto, sintetizada pela Mensagem de Lisboa.
O desafio era pensar um Museu do Futuro, “mais acessível e mais próximo”, numa reflexão sobre as barreiras que ainda podem afastar algumas pessoas das instituições culturais.
A edição impressa, paginada por Rui Leitão, pode ser levada e folheada no laboratório instalado na Praça do Carvão. Os artigos, reportagens e entrevistas produzidos ao longo deste percurso serão também publicados em breve, no site da Mensagem.
As histórias dos “invisíveis” do MAAT, contadas por Ivone Fernandes-Jesus
Junto a um ecrã que conta as histórias dos funcionários que realizam o trabalho mais “invisível” no museu, Ivone Fernandes-Jesus explica como chegou à obra a que gosta de chamar um “documentário poético”.
A expressão abre a conversa a algumas perguntas: onde acaba a realidade e começa a ficção? O que distingue a arte do jornalismo? E como pode uma história real ser contada através de um olhar artístico?

A criadora explica que Invisível-Perceptível resulta da sua própria leitura da realidade. Reúne testemunhos e imagens dos trabalhadores a percorrer os seus lugares preferidos no museu, num processo que recorreu a métodos jornalísticos, como a entrevista, mas que procura valorizar um lado menos conhecido da vida de quem trabalha no MAAT.

“Vocês nunca os viram, mas eles estão aqui todos os dias”, diz. “Eles normalmente estão aqui para mostrar as obras de arte de outras pessoas e, no meu trabalho, eu quis que eles fossem a obra de arte.”
Depois de conhecer o retrato destes funcionários, Paulo Pereira, de 55 anos, residente nos Olivais, ficou com uma perspetiva diferente sobre os heróis que tantas vezes passam despercebidos. “É um preconceito que nós temos. Até quando estudamos História, decoramos os nomes de determinadas figuras, como Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral, mas sabemos que, na verdade, os seus feitos não seriam possíveis sem um trabalho verdadeiramente de equipa”, destaca.
Vileiro e a Cidade dos Serviços
Uma cidade também se faz desse trabalho coletivo – e de muitos serviços em que só reparamos quando deixam de funcionar. É para essa dimensão da vida urbana que olha o rapper Vileiro.
A sua formação em Arquitetura e Urbanismo levou-o a debruçar-se sobre o funcionamento da cidade, dando origem ao álbum Serviços, que apresentou nessa tarde, ao lado de Muleca XIII e Gabriel Parras.

Há três anos a viver em Portugal, Vileiro trouxe para o MAAT um pouco do universo que foi construindo entre Lisboa e Ribeirão Pires, São Paulo. O cenário, pensado e montado pelo próprio, cruzava referências ao seu quotidiano e ao imaginário urbano, entre camisolas de “times” de futebol.
No mesmo lugar onde, algumas horas antes, uma toalha de mesa tinha servido de papel para quem passava escrever sobre Lisboa, o dia terminou com música e uma nova forma de olhar para a cidade e para as pessoas que a fazem acontecer. Era talvez essa a ideia central do projeto Entre Margens: fazer o museu sair das suas paredes – e deixar a cidade entrar.

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