Desde 2011 que Tiago Pereira, de 52 anos, se dedica a resgatar vozes escondidas e artistas sem palco, através do projeto Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. O realizador e radialista percorreu cerca de 230 concelhos do país a gravar pessoas e as suas canções, num gesto de apreço por toda a música, seja ela profissional ou popular. Toda essa memória coletiva está à distância de um clique através do Lastro, um motor de busca que “propõe uma nova forma de explorar música e tradição oral”.
Recentemente, Tiago trouxe o projeto para a freguesia lisboeta de Benfica, para demonstrar como, dentro de um único bairro lisboeta, se esconde um universo de tradições musicais — vindas do interior do país e até de outras nacionalidades.
Apesar de não se identificar com o modelo de ensino tradicional, é precisamente a partir das escolas que escolhe trabalhar. Tiago Pereira defende a urgência de trazer para as salas de aula as ferramentas da gravação e da escuta — uma missão que já está a desenvolver na Escola Básica Quinta de Marrocos, através do projeto Benfica à Música Portuguesa a Gostar Dela Própria.
Leia aqui a entrevista:
Como conheceste o bairro de Benfica?
Benfica é um lugar que me acompanha há muito tempo. É um lugar que tem a ver com a minha adolescência rebelde, digamos. No sentido de eu perceber o que quero para a minha vida como criador, em vez de seguir um caminho normal de estudos.
Porque trouxeste o projeto da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria para aqui? O que torna Benfica um território interessante do ponto de vista da tradição musical?
Quando eu aqui chego, em 1989, Benfica é claramente um bairro dormitório, mas com características que ainda hoje apresenta.
É um bairro que alberga muitas pessoas que vêm dos fluxos migratórios no fim dos anos 30 e 40 e também nos anos 50 e 60, de todo o país. Portanto, em Benfica pode-se encontrar pessoas de Trás-os-Montes, do Algarve, do Alentejo, das Beiras, do Literal Norte… Estas pessoas vieram para cá, essencialmente, criar negócios: casas de pasto, mercearias, drogarias ou outro tipo de comércio. Porque era um bairro que começava a florescer, precisamente pelo fluxo migratório das pessoas que vinham do resto do país trabalhar para a grande cidade de Lisboa.
O fenómeno seguinte, também bastante interessante, é que Benfica é um dos lugares da cidade de Lisboa que mais recebe os retornados das ex-colónias a seguir ao 25 de abril. Portanto, há um grande fluxo migratório de pessoas que estavam em Angola, em Moçambique ou na Guiné e que vêm para cá viver. Especialmente, muitas pessoas de Cabo-Verde vieram para Benfica e, por isso, a comunidade cabo-verdiana em Benfica é tão grande e está cá há tanto tempo.
Tudo isto faz com que Benfica tenha interesse para o trabalho da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria.
Como é que os movimentos migratórios contribuíram para essa diversidade?
Por um lado, Benfica tem pessoas mais velhas, que trabalharam na segunda metade do século XX na agricultura e que, de certa forma, mantiveram vivas as canções. Mesmo que tenham vindo para cá no fluxo migratório, as suas famílias ficaram lá e continuaram sempre a ter uma ligação clara à sua terra de origem.
Por isso, sempre disseram “Eu vou à terra”. Porque aos fins de semana e nas férias iam lá buscar mantimentos, azeite, hortaliças, carne e ver os familiares. Mantinham a ligação àqueles sítios e iam sempre trazendo coisas de lá, da cultura, da tradição oral, das cantigas e das práticas para cá.
Ao mesmo tempo, existe uma grande ficção científica estranha sobre a música portuguesa. Como é que nós tínhamos uma presença tão forte em África, mas tivemos tanta resistência àquilo que veio de África na música tradicional?
Os ritmos viajaram para outros sítios, mas parece que não conseguiram voltar para cá e encaixar na música tradicional.
E em Benfica existe isso! Existem esses ritmos cabo-verdianos, essas músicas de Angola… E o fluxo de novos migrantes que temos agora também ajuda a criar uma espécie de tradição musical do futuro – que vive das raízes destes sítios todos e da mistura entre eles.
De que forma Benfica se distingue dos restantes bairros de Lisboa?
Benfica, para mim, é um caldeirão gigante de culturas, que está a fervilhar. Vê-se que é um bairro que resistiu às coisas que fazem com que Lisboa deixe de interessar aos lisboetas. Lisboa perdeu o espírito de bairro, tem muitos turistas, não tem identidade. Benfica, pelo contrário, tem uma entidade muito forte, misturada com tantas outras. É um bairro que consegue ter a sua própria cultura, que deixou de ser dormitório e que não tem turismo.
Benfica é um dos últimos bairros sobreviventes desta Lisboa, que está a desaparecer e que se está a transformar. E, por isso, era muito importante conseguirmos vir para Benfica.
O projeto pretende criar um cancioneiro de Benfica. Como se descobrem os protagonistas desse cancioneiro?
De várias formas. Nós estamos aqui através de um protocolo com a Junta de Freguesia e, portanto, encontramos muitos artistas de forma institucional.
Por outro lado, estamos a fazer programação na freguesia e a atuar na regeneração de coletivos, com a criação de coros que vão cantar esta música que encontramos toda misturada em Benfica. Isso faz com que as pessoas se aproximem de nós ou que nos mandem e-mails a dizer “Eu sou músico”.
E, obviamente, no terreno. É crucial termos pessoas que vão para o terreno, que vão conhecer pessoas, que perdem dias a falar, a perceber o que há, porque aquilo que nós vamos encontrar é sempre o mais escondido. É isso que nos interessa gravar. Vamos gravar as pessoas que não têm palcos, as pessoas que não têm outra forma de sair cá para fora. E nós não queremos dar visibilidade, mas sim apontar, mapear. Indicar: “Esta pessoa está aqui, tem esta prática, tem isto para dizer”.

Por que é tão importante envolver a comunidade no trabalho que fazem – desde a presença nas escolas à criação de coros comunitários?
É gigante poder fazer uma espécie de eixo vertical em toda a comunidade. Por isso é tão importante entrar nas escolas. A partir do momento em que se começam a fazer estas pontes geracionais, permite-se que existam fluxos de aprendizagem que não iam existir de outra forma.
Até porque eles [os alunos] aprendem música na escola, mas a música que eles aprendem na escola não é a música que nós gravamos e que existe em Benfica. E, por isso, é muito importante que estas crianças possam aprender através de métodos que são importantes para elas hoje em dia. Todos eles estão ligados ao mundo através do seu próprio aparelho individual, que é um telemóvel. Todos eles gravam para o TikTok as suas brincadeiras e fazem fotografias para o Instagram.
Ao ensinarmos a gravar com câmaras e microfones de qualidade, estamos a ensinar também o fenómeno da escuta, porque a aprender a gravar também se aprende a escutar. E, a partir daqui, também fazer com que eles possam escutar outra música e entrar na comunidade. Também temos um coro infantil, onde as crianças cantam aquilo que gravamos e onde as estimulamos a fazer criação a partir das nossas gravações – para que possam ser elas a fazer as letras e as melodias com a nossa ensaiadora.
Saiba mais sobre o projeto que a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria está a desenvolver em Benfica, através deste artigo.

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