A primeira vez que Joana Sequeira Nobre foi a Cabo Verde entregar vestidos, todos eles desenhados e criados a partir do seu atelier, a meninas em situações de pobreza, foi confrontada com a pergunta: “Tia, é novo?”. Estávamos em 2017. Acostumadas a receber “roupa velha vinda de contentores de Portugal, muitas vezes com cheiros horríveis”, o cheiro a novo era uma novidade para muitas destas meninas. Esta história começa em 2006.

“Sonho com um mundo em que todas as meninas tenham, pelo menos, um vestido.” Há 15 anos, Joana Nobre Garcia, antiga economista, nascida e criada em Rio Maior, trocou os número pela costura, uma paixão antiga. Sempre quis trabalhar com um propósito, impactar vidas. Então, em 2016, coseu as duas vontades e fundou, com duas amigas, Ana Bragança e Vanessa Campos, uma associação onde mulheres de várias idades se juntam para criar roupas para crianças em situação de vulnerabilidade – a Dress a Girl Portugal.
Já vestiram 225 mil crianças, em 42 países diferentes.
O dia de costura solidária
Estamos no atelier Rosapomposa, no bairro de Telheiras, no Lumiar, Lisboa. Um lugar que Joana, entretanto transformada em professora, escritora e criativa, tornou em muito mais do que um espaço de trabalho: este é hoje um ponto de encontro intergeracional, onde o tempo livre ganha propósito e há até espaços para fazer novos amigos.
Todas as quintas-feiras são dia de costura solidária no atelier.

Ao lado de Joana está Sónia da Cunha Vaz, 65 anos, que conheceu a associação através de uma amiga. Já envolvida no apoio a instituições na Guiné-Bissau, viu na iniciativa uma forma de “fazer mais e diferente”. Sónia lembra uma menina “estigmatizada por ter um olho azul e outro castanho” e que precisou daquele vestido para se sentir finalmente incluída entre todas as outras meninas.
No atelier, os voluntários dividem-se entre organizar matérias, criar moldes e confeccionar peças, num trabalho coletivo e dedicado. Mas todos os vestidos têm algo em comum: a ausência de botões ou fechos, substituídos por elásticos. Uma escolha “crucial para que as peças durem mais e possam passar de irmão para irmão com a mesma qualidade”, acompanhado o crescimento da criança, conta Joana.
Dos vestidos às almofadas de algodão
Na associação, também se faz roupa para os rapazes – calções que são enviados para outras iniciativas solidárias. Sónia recorda um menino das ilhas dos Bijagós que recusou trocar uns calções demasiado grandes “simplesmente com o receio de perder o que para ele já era seu”. Cada peça que criam está a fazer alguma diferença.
Por isso também, durante a pandemia de covid-19, foram produzidas cerca de 33 mil máscaras e kits essenciais em forma de mochilas, em parceria com o Exército, que incluíam roupas, estojos e jogos feitos em tecido.
“Abraçamos um novo movimento”, conta Joana. Além disso, a doação de dois mil metros de algodão branco (por um hotel que preferiu manter o anonimato) permitiu que este material, raro e de alta qualidade, fosse usado na produção de almofadas para hospitais, chegando a unidades em Aveiro, Coimbra, Santarém… e até Istambul. “Dormir em almofadas de papel ou de algodão é uma diferença brutal”, diz.

O trabalho da associação começa muito antes do corte e costura. “Desde o momento em que alguém oferece tecidos, com um coração generoso, já se cria algo”, explica a presidente da associação Dress a Girl.
Os pedidos de doação chegam através de escolas e organizações locais, sendo muitas vezes a Joana ou os próprios voluntários que os entregam pessoalmente. “Este é o espírito”, destacando que a ajuda nunca falta, seja na entrega ou no apoio logístico necessário.
A Dress a Girl Portugal conta com 68 grupos organizados, com sede em Cascais e núcleo operacional em Lisboa, que se reúne todas as quintas-feiras. Muitos voluntários trabalham a partir de casa, recebem materiais e contribuem à distância. O alcance do projeto ultrapassa fronteiras, com grupos nos Estados Unidos, Luxemburgo, Macau, entre outros.


As mulheres por detrás das agulhas
Leda Bernardo, 73 anos, de Lisboa, está ás voltas de um tecido. Depois de ter perdido o marido, e com as filhas já fora de casa, encontrou aqui um espaço de continuar a sentir-se útil. E, nove anos depois, diz que “gosta muito de vir e sente uma irmandade”.
Numa mesa próxima, a voluntária mais velha, Maria José, de 88 anos, dedica-se a descoser e a passar a ferro. “Gosto imenso de quando vejo os vestidinhos que vão”, diz, vendo nisso uma “contribuição enorme” que dá ao mundo.
Ao lado, Maria José, 80 anos, natural do Algarve, ajuda a costurar as peças. Descobriu a associação através de uma reportagem na televisão e, vivendo sozinha, encontrou uma forma de preencher os dias para ajudar outros. Diz que todas as peças “são feitas com muito carinho e amor, e… sobretudo, muita solidariedade”.



O primeiro vestido
As entregas são momentos afetivos e educativos, feitas em escolas porque são locais seguros. Joana apresenta-se, partilha um pouco da sua vida e garante que “cada criança recebe um vestido… é dela e de mais ninguém”.
“Se pensarmos que quase todas as crianças nunca tiveram nada novo e exclusivo, esse gesto ganha outra dimensão”, conta Sónia.
Apesar do apoio logístico de parceiros como Euro Atlântica, STP Airways, e TAP Air Portugal, o maior desafio continua a ser garantir que as peças chegam com segurança. Por isso, há que ter uma ligação próxima às comunidades locais. “Tentamos ensinar a costurar, valorizando quem lá está. Não queremos substituir ninguém, queremos fazer juntos”, conta Joana.
Ao envolver mães e professores, o impacto transforma-se em autonomia e permite que o projeto não morra, com comunidades a ganharem autonomia através da costura, a criar projetos próprios e até pequenas marcas.

Joana testemunha realidades duras, mas encontra forças no esforço das famílias, sobretudo das mães, que veem nos filhos a esperança de um futuro melhor. “São crianças com traumas, mas quando sentem carinho, não nos largam”.
“As crianças são mesmo o futuro destes países… quando eu saio, tenho a certeza de que uma destas crianças se sentiu mais importante, mais digna, melhor e tem esperança de mudar a vida.”
Joana Nobre Garcia
*Texto editado por Catarina Reis

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Eu vivo na Itália onde sou casada com um italiano há 24 anos. Trabalhei por muitos anos em museus de Veneza. Infelizmente, fique doente e muito depressiva.
Meu grande sonho é morar em Portugal,mas meu marido não me permite!
Tenho certeza, que se vivesse aí e fosse trabalhar com vocês numa obra tão linda como está, reconquistar a minha alegria de viver e faria novas amizades, que é só do que mais preciso neste momento muito particular que estou vivendo!!
Parabéns por quem teve a brilhante idéia de fazer feliz milhares de crianças!!
Tenho mão para costura bordado e artesanato!!
Quem sabe um dia possa encontrar vocês!?
Sou segura que um raio de sol entraria em minha vida para sempre!!
Tenho 71 anos.
Um forte abraço para todos vocês dessa grande e genuína família!
Tudo o que eu acabei de ler sobre os vestidos para as meninas de África é muito bonito e uma ação de louvar,….MAS EU PERGUNTO Á SENHORA FUNDADORA DO PROJETO,SE ELA JÁ PASSEOU PELAS RUAS DE LISBOA E PORTUGAL?!, SERÁ QUE A SENHORA NÃO REPAROU NAS MENINAS E SOBRETUDO OS MENINOS PORTUGUÊS, QUE NÃO TÊM ROUPA NOVA ,NEM SAPATOS,NEM BRINQUEDOS,NEM COMIDA ,NEM CASA?!,A SENHORA AINDA NÃO REPAROU?!,NEM ESCOLA?! NÃO REPAROU?!,EU PEÇO A ESTA SENHORA FUNDADORA DESTE PROJETO QUE EU REPITO É DE LOUVAR, QUE SAÍA ÁS RUAS DO SEU PAÍS E DA SUA GENTE E Veja AS LÁGRIMAS DAS MENINAS E DOS MENINOS DO SEU PAÍS E A SUA GENTE,ESTES TAMBÉM CHORAM E CHORAM MUITO E A SENHORA NÃO OS OUVE?! OBRIGADA
Dress a Girl Portugal!
INACREDITÁVEL!
Porque será que a informação televisiva (pelo menos) massacra os expetadores com “ópio” e não mostra, repetindo, um exemplo destes?