Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Pá, ó Quive, não me lixes com mais essa. E, já agora, manda um olá ao Celso, e protege-te dos tantos Celsius da África setentrional. Tens a mania de andar de calças a torrar ao sol, de camisa a torrar à sombra, e isso é demasiado quente para não ires trabalhar de chinelo pipoca e tronco nu.

A sério que achas que eu teria ciúmes de quem desse nome a uma rua de Maputo? É certo que sou escritora, mas também sou de esquerdíssima esquerda (essa que fica muito à esquerda do mansíssimo PS português): já viste o perigo que seria ficar ao lado de um Mao Tse Tung, de um Lenine, de – santo Deus – um Kim Il Sung? Tenho dois filhos para criar, espero ter mais seis ou sete, não lhes posso dar essa vergonha. Sei até de uma avenida Ceausescu: não a apanhei, mas o Agualusa contou-me, e Maputo fica difícil de esquecer com a sua geografia plana em cima de tantos caos – quarteirões muito direitinhos em cima de pedra desfeita e nomes de ordeiros comunistas em cima de tanta desordem. Sobretudo, parem lá de dar a ruas nomes de gente que quer mandar além da conta. Tanta coisa boa para pôr no lugar – rua Maria, rua David, que são os nomes mais bonitos. Por coincidência, são os nomes dos meus filhos, vê lá tu.

De resto, depois de lida a tua carta, acho que és um intriguista. A forma como torces as palavras e como, com isso, torces a verdade é digna de um primeiro-ministro, um vendedor de banha de cobra, um charlatão – enfim, um escritor. A distinta lata – o topete, a desfaçatez – com que dizes que na boa educação moçambicana não se pode questionar os mais velhos, e a seguir saltas para os meus porquê, porquê, porquê. Quem te ler e for ao engano há-de imaginar-te muito sábio, muito idoso, com uma barba branca, à Pai Natal, e não essa pretinha e aparada e esse ar de miudinho fofo de coração virgem e alado. Mas a biografia do teu site não me engana. Quando tu nasceste, já eu gatinhava há muito, e já balbuciava mamã, papá, Pepo, libaía. Mamã, papá, Pedro, livraria. O Pedro conhecerás quando cá vieres. A livraria é hoje uma loja de detergentes e esfregonas, mas paciência. De resto, sim, sim, sim. Porquê, porquê, porquê. Porque é que é proibido arrancar frutos das árvores à noite?, porque é que achas que há espíritos no mar?, porque é que é esquisito eu querer ir ao Patrice Lumumba?, porque é que não há mais gente a querer entrar na Vila Algarve?, porque é que achas tão estranho que eu queira enfiar-me pelo buraco que há num muro? Como diria o Scolari: e o burro sou eu?! Acho uma palermice que o resto das pessoas não se lembre de fazer o mesmo. Tu não achas? Diz a verdade, que ninguém lê, e eu não conto a ninguém. (Será que, exceptuando a Francine, que cumpre ofícios matrimoniais e de certeza que lê contra a vontade, só porque tu a chateias muito, temos algum leitor? Conta aí um segredo indecoroso a ver se alguém reage.)

Depois do que me disseste sobre o slogan que o Samora Machel te espetou em cima, entendo melhor algumas coisas. É verdade que, em certos sítios de Maputo, vê-se muito aprumo, regras a mais, tecido demasiado engomado para portuguesa ver. Eu sabia lá que não era suposto andar de calções pela embaixada. Ou que devia ter ido de vestido de gala, madeixas loiras, manicure feita, a um debate no Camões. Estavam uns 70 graus, pá. Só não defendo que fôssemos todos de biquíni porque sou púdica como o raio. Bem notei, embora só depois de avisada, que se estava aí à espera de uma etiqueta colonial que até para o meu avô seria anacrónica, e olha que nunca o vi a usar outra coisa além de um fato. Com o meu pai, era o mesmo. Terias gostado dele, já que reclamas por eu andar na cidade como quem vai para a praia. Ele ia para a praia como quem anda na cidade. Já agora, já arranjaste um psiquiatra ao Mélio? O gajo ficou maluco por eu ter ido à Universidade de calções. Será que vocês os dois me fiscalizaram como o teu professor – as golas das camisas limpas, as unhas e o cabelo aparados? Com as golas das camisas, faço o que posso, as unhas estão sempre aparadas, roídas até não dar mais, mas o meu cabelo manda em mim mais do que eu. Na minha escola, nunca a professora se pôs a escrutinar-nos a limpeza da queratina, mas ensinou-nos a cantar o hino nacional, de pé e mão ao peito. Toda a gente a cantar sobre os egrégios avós, um país inteiro. Quando cá vieres, pergunta a gente aleatória que raio quer dizer egrégios – verás que quase ninguém sabe. Eu só sei porque em criança gostava de brincar com dicionários.

E agora termino com o Zé. Disseste para começar com ele, mas termino. É que tu não mandas em mim, Quive. Já devias sabê-lo, já não o disseste ao Matteo? Pá, e chama a Francine para lhe dizeres isto: claro que não é o Remédios. Há tantos Zés, como é que haveria de ser esse? Sou neta de um, filha de um, sobrinha de um, prima em segundo grau de dois ou três. Até o povo português se chama Zé. Nunca ouviste falar do Zé Povinho? Mas esse é meio tonto, está sempre com os copos, é um malcriado que gosta de fazer manguitos e, se não fosse um boneco inerte, estaria sempre a tropeçar nos próprios pés. Tudo isto, para uma abstémia com horror a grosseria, só dá vontade de fugir. O Zé era outro gajo, que prova tudo o que dissemos sobre Lisboa. Fomos amigos muito tempo, depois deixámos de ser. Até já escrevi sobre ele na Mensagem. Já reparaste que, quando dois amigos terminam, o pessoal à volta nem sabe o que dizer? Com dois amantes é mais fácil: esquece-a, ela não é mulher para ti, não te merece, vá com deus, filha da mãe, grande gatuna, que gente, que gentalha, nunca gostei dela, espero que morra a sós, em breve, que lhe caia uma árvore em cima, seja atropelada por um camião-TIR, faleça, pereça, feneça, sucumba, expire, fine, desencarne, desviva – enfim, que descanse em paz ou em guerra, mas nunca mais se erga do caixão. Assim é o amor quando o amor acaba. Para onde vai o amor quando o amor acaba? Da minha parte, vai para a morgue. E a amizade, apercebi-me há meses em conversa com a Teresa, é ranço: ranço dos ex-namorados dos amigos. Além disto, aparenta obedecer a uma coisa mais pura do que o amor romântico, uma coisa que vem cá de dentro e floresce e ilumina e nunca se tolhe ante as garras do ciúme ou de exigência a mais. É tudo tão puro, é tudo tão para sempre, que ainda hoje me choca que venha a acabar. Já perdeste amigos? Eu, desses mais puros, só dois: o Zé e uma amiga na infância. Esse fim deixou-me noites sem dormir, chocada, ultrajada, traída pela própria vida, que ainda me parecia previsível e compacta. Vivi até esse dia sem saber que existia o sofrimento. Ainda houve um terceiro caso, mas era amizade disfarçada de paixão: quando esta incendiou tudo com as brasas, nem pó restou. Com o Zé, foi só assim: deixámos de gostar um do outro e foi cada um à sua vida. E Lisboa é esta coisa com tanta vida dentro que não corremos o risco, à Maputo, de tropeçarmos um no outro em peças de teatro, estreias de filmes, exposições. Portanto, o teu provérbio tsonga aqui não bate certo – é mesmo possível que haja uma última vez para tudo. Eu até acho belo dizer um adeus para sempre: pegar em duas histórias, juntá-las, separá-las e ver o que acontece a cada parte. Mesmo quando sou pessoa normal, acabo por ser escritora. É lixado e é coisa de biruta. Nunca te aconteceu estar a meio de uma discussão conjugal e pensar em literatura? Tu feito narrador; à tua frente, Francine, a personagem. De repente, tu como personagem. E depois sai-te da boca uma frase afiada que ficaria tão bem em Times New Roman, tamanho 15, espaçamento 1,5? Pode ser meio chalupa, mas é também uma forma de se meter o romance na vida, em vez de andarmos sempre nesta coisa fácil de meter a vida no romance. Mas calma, que virei o texto: íamos nisto dos encontros, desencontros, e eu ia responder-te a essa africanice de te acontecer tudo por acaso. Acho que nunca me aconteceu nada sem querer. Mas eu sei lá. Eu não vivo na tua cidade déjà vu, embora tenha tido vários da última vez em que aí estive. Até fui procurar alguns, que gosto de andar à caça das migalhas do passado: a vista do Jardim dos Namorados, aquele jardim onde não se passa nada de jeito perto do Museu de História Natural, o centro da cidade a um domingo. E só não fui rememorar as ondas a bater no Clube Náutico porque aquilo estava em obras. Seja como for, percebi que é fácil bater com a cara em alguém. Em Lisboa, não é possível. Queres saber onde andam os lisboetas? Também não sei. Acabei de pensar nos amigos que tenho de Lisboa e acho que se contam pelos dedos das mãos. Os mais próximos nem sequer são de cá: um cresceu no Porto, outra em Rio Tinto, e ainda por cima vive em Nova Iorque. Lisboa é uma terra, mas há muito boa gente que tem outra. Eu tenho outra, mas já sou de cá, e, tendo dois filhos lisboetas, que outro chão será mais meu? Passeio onde filhos aprendem a dar passos é chão onde colar os pés a vida inteira.

Isto já vai longo. Posso deixar o assunto da noite e dos domingos de Lisboa e de Maputo para a próxima? Já estou cheia de me ouvir a falar do que não sei.

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