
Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).
Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.
Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.

Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).
Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!
Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).
É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.
Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.
Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.

Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…
É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.
Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.
A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandros.



A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…
Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.
Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.
Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.
Ou, se calhar, e isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os fechei no cofre para a herança dos netos.

A importância de Mário Zambujal é o mito. A todos os mitos cola-se-lhes uma imagem. A dele é o sorriso. Elas pelam-se por ele, eu sei. Eu sei, até por outra razão, ele aparecia na televisão e relato, debate, programa acabado, eu ia para o espelho tentar a nuance que mais se assemelhava à sedução que acabara de ver e invejar. Nada a fazer. Quantas vezes eu caprichei na procura de melhor sinónimo que o dele, porque, pelo menos, aí (também iludido), supus o duelo mais perto de armas iguais.
A editora Cube do Autor também deu conta (quem não?), da sedução do tal sorriso. Nos três livros, em cada um, há o sorriso na cinta (foto); o sorriso desenhado na página de falsa folha de rosto; o sorriso na segunda badana, caricaturado pelo irmão (Francisco Zambujal, velho cartunista dos Cromos d’ A Bola); e, finalmente, o desenho do sorriso na contracapa.
Quatro sorrisos por cada três livros de uma Edição Comemorativa, 12-doze-12 sorrisos, e nem é por culto de personalidade. Só reconhecimento por um magnífico malandro.

Outro reconhecimento, a editora pediu a Marcelo Rebelo de Sousa um prefácio para um dos três livros agora republicados. Calhou o Cafuné (não sei porquê, mas gosto de imaginar). Um romance passado entre as cavalariças do palácio de Queluz e a corte portuguesa antes de fugirem para o Brasil – histórias com muito lençol.
Marcelo termina os seus dez anos de mandato presidencial daqui a dias, mas ainda é descendente de cargo do colega Chefe de Estado, Rei João VI, marido da Carlota Joaquina. Esta, no livro de Mário Zambujal, destapa-se um pouco, e até mais tapada valia mais, numa vida airada.
O prefácio da Crónica dos Malandros estava tomado, vinha da edição de 2011, escrita por Gonçalo M. Tavares. Marcelo descalçou a bota (os seus, enfim, antecessores de 1808 desnudaram-se muito mais) e aceitou fazer o prefácio ao livro Cafuné. A coisa prometia porque cafuné geralmente é prefácio de coisas raramente abordadas em público por Presidentes, mesmo em vésperas de deixarem de o ser.
Porém, Marcelo Rebelo de Sousa deu-nos a volta em grande. Escreveu o prefácio, assim: “Mário Zambujal”, ponto. Parágrafo. “É um símbolo.” E assim por diante com pontos e parágrafos, sempre frases curtas, algumas belas frases, amizade, admiração. Sabemos de Marcelo o gostar de gostar. Embora, quando menos se espera, lá está, haja palavras inesperadas.
Enfim, ele assinou e deixou um P.S.:
“Pediram-me um Cafuné. Segue uma Crónica de um Bom Malandro.”
Um dia, se os tempos nos não merecerem, escreverei uma crónica sobre isto. Termos tido a honra de um “P.S.”, assim. Graças a um admirado e a um admirador.

Sobre a Crónica dos Bons Malandros, o centenário de Mário Zambujal é uma boa ocasião para repetir (voltar ao Bernard Pivot inicial) a homenagem à ciência da gramática e aos guardadores das palavras.
Numa crónica, a ação, por exemplo, é para o acontecido nos ser contado. Daí termos enviado em nosso nome um cronista e não um cirurgião dentista, por mais que este saiba da poda dele. Assim, se um tipo, fugindo de forma desesperada toca a uma campainha, Mário Zambujal di-lo como há de dizer: “Silvino não tocara a campainha, gritara socorro com a ponta de um dedo assustado.”
Os vocativos também são para serem escolhidos porque eles nomeiam, não são ao calhas. A Crónica dos Bons Malandros chama aos seus, assim: Adelaide Magrinha, Arnaldo Figurante… A páginas tantas (ele usa muito literalidades destas, sem nunca cair no mau gosto de acrescentar “literalmente” entre duas vírgulas), a meio do livro, dizia, já nos julgamos amigos de infância dos personagens.
Arnaldo é nomeado Figurante, e assim ficou, por ter participado numa filmagem internacional em Lisboa, que metia uma cena de perseguição na Rua Augusta. Em Portugal o filme foi estreado no Condes. O putativo futuro ator apareceu em duas cenas, cada uma com o seu porém. Numa, a câmara apanhou o Arnaldo na posição correta para ele ver o Tejo, mas a pior para ele ser visto no Condes, onde só apareceu de costas no écran.
Na outra cena, a tal da perseguição, ele viu-se, sentado na plateia, a correr do écran para si próprio. O tema é estudado no cinema de vanguarda, o paradoxo do espetador e ator, única pessoa e mesmos palco e momento. Mas o que impressionou mais o Arnaldo foi, no intervalo, ninguém o ter reconhecido.
Antes do cinema, porém, Mário Zambujal mostrou-me o Arnaldo com a intensidade de Hitchcock, apesar de prantado em papel, em vez de película. Ainda no primeiro amor, o boxe, o futuro Arnaldo Figurante dá-se conta que aquilo não é para ele, durante um combate, já decorria a contagem de um KO em que ele estava estendido.
“… cinco… seis… sete…” – o salão rugia, o seu treinador exigia que ele se levantasse, o árbitro contava… Arnaldo, na nuvem do desmaio, recordava que o adversário “deslizava no passo certo, no soco certo, na esquiva perfeita”. Tudo o que ele não tinha. Em cima do “DEZ!” do árbitro, a decisão estava feita. Estava? São tão duras as decisões dos que sabem “só sei que não vou por aí”, quando ele próprio sabe que não houve porra de decisão nenhuma.
O sucesso principal da Crónica dos Bons Malandros foi endossado sobretudo à coloquialidade do texto, o falar até nas frases corridas, “a Calçada da Glória, uma vez galgara-a com tal mecha que deixou a cascos de rolha…”
O falar é telegráfico. Na madrugada da esquadra o subchefe aponta com a esferográfica: “Profissão?” Eram duas as detidas, a mais usada cobre a colega, uma iniciada, dá um passo (“como se quisesse entregar a resposta em mão”) e entregou: “Putas”.
O subchefe não gostou, (“abanou tristemente a cabeça e censurou”): “Então isso diz-se assim?” A mesma mulher, a mais velha e gorda, pensou que talvez tenha perdido o respeito à autoridade, e emendou: “Putas, senhor subchefe.”
Falar telegráfico, tanta conversa.
A rapariga era a Adelaide, vamos encontrá-la integrada depois na quadrilha dos Bons Malandros, dados a golpes sem violência. O chefe era Renato, o Pacífico, furiosamente contra o uso de armas. Tanto, que antes era conhecido como o Valium 10. Reparem como o grupo teve o cuidado de também armar a Adelaide com mais um nome, Adelaide Magrinha. Funciona como um patronímico, uma marca, um sinal – que no caso dela impedia a tentação de lhe chamarem o que ela fora.
Reparem finalmente, e aqui acabo, a delicadeza confirmada do Mário Zambujal. Não é só uma escuta continua, uma atenção ao outro, um sorriso gentil. Tudo isso pode estar, e ser só pose. Não é só também tanto saber no contar.
Lançada em 1980, a Crónica dos Bons Malandros já vai nos 46 anos – perdão, meio século! – edições muitas, filme (do Fernando Lopes), série televisiva (RTP) e muitas, muitas entrevistas do autor.
Um escritor não se pode queixar das contingências, ele é o Deus da sua história e personagens. E também não tem de pedir desculpas por elas. A Adelaide é a Adelaide, tinha uma aparência frágil e arranjou um inesperado amor, este foi preso e ela caiu na rua, recuperou pela solidariedade de um grupo, o amor voltou e ela, pelas últimas notícias, página 148, da última edição, ela é a única da quadrilha que pode ter alguma esperança.
Caro Mário Zambujal, não quero saber onde anda a Adelaide Magrinha. Quero é assinalar o teu cavalheirismo por nunca teres nem no texto nem em posteriores conversas à volta da tanta vida e curiosidade pública que a Crónica dos Bons Malandros gerou, nunca teres feito uma só alusão, que outros fariam, ao nome da mais frágil e comovedora personagem, a Adelaide.
Há muito ano, mais até do que o teu centenário, quando José Malhoa procurou modelos para o quadro a óleo “O Fado”, 1910, encontrou-os na rua do Capelão, Mouraria. Ele, Amâncio Augusto Esteves, rufia que afadistava e ela, mulher da vida esbandalhada e descomposta, vendedora de cautelas e prostituta.
A pintura, diz-se, atrasou um pouco porque por vezes o Amâncio voltava de uma breve passagem pela esquadra e embirrava com a alça da blusa da mulher, que na pintura descera mais do que os ciúmes dele permitiam. E lá tinha Malhoa de retocar um pouco menos de seio atrevido. Em 1910 o quadro estava pronto. Está lá tudo, a chinela no pé, o Senhor dos Passos, a lamparina de querosene, o pote de manjerico, um cigarro nos dedos dela, a garrafa de vinho e os olhos avinhados dele, mais a banza…

Ela tinha uma cicatriz, daí a inclinação exagerada da pose esbandalhada dela no quadro, era para tapar a face esquerda. Chamava-se Adelaide. Adelaide da Facada.
Foi bonito a Crónica dos Bons Malandros e o seu autor não terem feito nunca uma alusão a uma obra histórica e cultural que poderia incomodar os sentimentos e o resguardo da Adelaide, sua personagem infeliz. Já vi menos cuidados de influencers, pessoas reais, para com seus filhos menores.
Obrigado, Mário Zambujal, também por mais isso, decente até para com pessoas da ficção.
