Voltei a Lisboa após uma temporada no Brasil onde operei o joelho – coisas de atleta -, passei a quadra de natal com a família e aproveitei o sol. Ele mesmo, o sol, a quem pouco vi desde o retorno, apenas de relance entre as nuvens, sem muito vontade de dar as caras. Fiquei a pensar que o astro-rei também tirou férias, quem sabe lá na minha terra, onde brilha feliz e altivo.
Quem o pode culpar?
E já escrevi aqui antes: Lisboa sem sol é a anti-Lisboa. Quando cá cheguei há dez anos, pouco chovia no inverno, apenas uma garoa molha-parvos pela manhã, lavando superficialmente as ruas. Era o cenário perfeito, um frio suportável e o sol a brilhar, garantindo a luz e o céu azul. O inverno chegava e partia e nem se sentia a presença dele. Isso é o que era.
De uns anos para cá, algo mudou, virou céu cinza mais para Londres e parece chover mais. “É o tempo dela”, alerta o vizinho, resignado. É sim, mas a chuva, assim como acontece com os meus filhos, parece usar o tempo dela de forma errada e passa o dia todo apenas a chover, quando poderia ler um livro ou ver televisão.
Como se não bastasse, a chuva agora vem acompanhada das ventanias, todas apressadas, a cruzar o país a tantos quilômetros por hora, sem se preocupar em serem multadas. “São as depressões”, alerta o coitado do repórter na televisão assanhado pelo vento, aderindo à moda dos últimos invernos de os jornalistas surgirem descabelados no ecrã.
Depressões – nunca concordei tanto com um nome atribuído a alguma coisa. As depressões me deprimem, não vou mentir. Ainda mais em série, uma seguida da outra. O pior é que, para esse tipo de depressão, não há placebo que dê jeito. Resta ao sujeito apenas calçar umas botas, vestir o casaco e andar por aí empunhando o chapéu de chuva como um florete, esgrimindo com o vento.
Nesta semana, a última depressão além da cabeleira dos jornalistas assanhou o telhado da minha casa e agora há um vazamento no meio da sala, bem onde está a luminária, por onde goteja um pinga-pinga incessante, como se o lampião da Ikea fosse uma estalactite e o cômodo uma caverna escura, pois não é mais possível acender a luz.
É difícil admitir, mas nunca foi tão difícil voltar a Lisboa.
Foi difícil não só pelas depressões climatéricas, mas também pelas depressões da vida comum de um imigrante, para quem o tempo tem sido sempre difícil seja inverno ou verão. O imigrante culpado de tudo, da crise na saúde, da crise na educação, da crise na habitação, o imigrante só não é culpado do tempo ruim. Pelo menos, por enquanto.
Desci do avião direto para votar nas presidenciais. Lá do Brasil, acompanhei como pude o debate político, mas assim como muitos declaram fazer na segunda volta, o meu voto não foi orientado pelas propostas ou pela minha ideologia política, e sim, pelo pragmatismo: era preciso pensar nos meus filhos imigrantes, pensar em mim também. Era preciso votar pela nossa segurança.
E assim como não há melhor nome para batizar uma depressão climatérica do que depressão, um voto nunca foi tão seguro quanto o voto em Seguro. E votei nele como votaria em qualquer outro candidato que não fosse o outro que gratuitamente me detesta, até mesmo no Almirante, cuja melhor qualidade política é ser especialista em manter flutuando algo que pode afundar.
E, seguramente, vou repetir o meu voto na segunda volta.
Nestas presidenciais, mais importante do que quem vai vencer, é quem – e o que – será derrotado. Não será a solução para todos os problemas, mas um paliativo, como o placebo que nos ajuda a seguir adiante por entre as depressões do clima e da vida, até que o tempo cinza e sem horizontes mude e voltemos a ver a luz, não só do sol, mas no fim do túnel.
Quem sabe assim, voltar a Lisboa não seja cada vez mais tão difícil assim.

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Que assim seja. Vou a Lisboa com frequência desde 2010 e, tristemente, reconheço-a cada vez menos. Tudo muito “cool” e quase mais nada “fixe”. Trocaram minha hora e meia de fila na imigração por insuportáveis cinco horas.
Mas o que seu texto trouxe-me à mente mesmo foi o primeiro inverno passado aí. Dias de frio, sol e céu azul, ou, como os chamo, “dias perfeitos”. Que seja, para si e para todos nós, menos difícil regressar da próxima vez.
Oxalá, caro Álvaro Filho, assim seja! Gratidão.