Um buraco. Foi o que ditou a nova vida da Rua da Prata. Depois de ter estado encerrada durante quase um ano, quando o coletor pluvial, construído no século XVIII, colapsou, após episódios de chuva intensa, a 24 de novembro de 2023, a rua voltou a abrir à circulação. Mas diferente: pela primeira vez, sem automóveis.

Foi há dois anos. E a desconfiança dos moradores e comerciantes era muita: o que será desta rua sem carros? Irá o comércio morrer?
Quem ali vive diz ter conquistado “qualidade de vida” – uma rua com menos ruído, mas com mais vida. Talvez nunca se tenha pensado ver, sobre o asfalto da Rua da Prata, skates e correrias de crianças, pequenos concertos, carros de bagagem de hotel e um passo desacelerado que já não tem de fugir ao tempo dos semáforos – embora eles continuem em funcionamento.
Mas, entre os comerciantes, as opiniões estão divididas: uns a favor da rua livre de carros; outros contra. Embora as principais queixas sejam sobre um fenómeno muito anterior: o encerramento de escritórios na Baixa e a saída de habitantes, que têm trazido um progressivo declínio na passagem de clientes habituais e ao acentuar da dependência do turismo, numa freguesia hoje dominada pelo aparecimento de novos hotéis e pelo Alojamento Local (AL). Recorde-se que, na freguesia da Rua da Prata – Santa Maria Maior – o rácio de AL por alojamento habitacional chegou aos 71% em 2022. Ou seja, aqui, por cada dez habitações contavam-se sete unidades de AL.
Apesar de os carros já não passarem por aqui, apenas transportes públicos e ciclistas, tudo na rua se mantém: a mesma largura de passeios em cada um dos lados da rua, o mesmo asfalto na faixa central. É uma rua em espera de saber no que se vai tornar definitivamente. E não se sabe mesmo, passados dois anos.
As únicas mudanças visíveis são as marcações da ciclovia que agora ocupam parte da faixa de asfalto. Peões e ciclistas conquistaram espaço, mas a rua, com mais de 500 metros de extensão, continua sem um único banco para sentar ou árvore para oferecer sombra.

A nova presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Maria João Correia, considera a medida “positiva”, mas considera estar a perder-se a oportunidade de “dar a esta rua uma nova cara e um novo uso” e defende uma “requalificação profunda da Rua da Prata”.
Questionada pela Mensagem, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) não respondeu em tempo útil, justificando a dificuldade na resposta com a “tomada de posse tardia” do executivo autárquico, “aguardando-se ainda a delegação de competências” dos vereadores eleitos.
E a Rua da Prata continua com o futuro em espera.
Junta de Freguesia quer “transformar” Rua da Prata, com “pontos de descanso e sombras”
Independentemente de não se conhecerem planos ou calendário do município para promover o redesenho da rua, a Junta de Freguesia explica que “tem defendido junto da Câmara a necessidade de uma intervenção estrutural, tanto no subsolo – no coletor pombalino – como à superfície”.
À Mensagem, Maria João Correia defende uma requalificação da rua “capaz de a transformar num verdadeiro espaço de mobilidade suave e convivência, com prioridade ao peão”. Para o futuro da Rua da Prata, a presidente Junta pretende que esta “deixe de parecer uma via automóvel”, situação que considera incentivar atualmente “comportamentos indevidos” e “passe a ter um desenho urbano coerente com a circulação que se pretende – pedonal, ciclável e com transporte público”.
Assim, defende uma mudança no perfil da rua, com “pavimentos acessíveis, mobiliário urbano, reforço de sombras e pontos de descanso”.
No curto prazo, reivindica a implementação de “sinalização clara e imediata da proibição da circulação automóvel”, reforço da fiscalização e o início do processo de requalificação.
Em 2020, durante o mandato de Fernando Medina, o anúncio da então prevista da Zona de Emissões Reduzidas (ZER) para as zonas da Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado tornava público uma simulação gráfica representando uma ideia para a requalificação da Rua da Prata. A proposta, como é sabido, não avançou.
Na simulação gráfica da Rua da Prata, divulgada no âmbito da apresentação da ZER prevista para as zonas da Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado, é visível o aumento dos passeios, a eliminação do asfalto e a instalação de bancos:


Dois anos depois, o que dizem moradores e comerciantes?
O tecido comercial da Rua da Prata está em transformação e essa conclusão é unânime. São vários os prédios em reabilitação, há novas lojas a abrir, mas também espaços fechados e lojas que fecham para dar lugar a hotéis – em 2023, um artigo da Mensagem dava conta deste fenómeno: edifícios que antes tinham cinco e seis lojas passaram a ser unicamente ocupados por hotéis, eclipsando quase por completo o comércio local anteriormente existente.
O que gera discórdia entre moradores e comerciantes da Rua da Prata é outro tema.
Encontramos Diosinda de Jesus Marques dentro de uma das últimas ourivesarias resistentes da rua. Ali, na Jóias Miguelangelo, no número 58, não cabem mais de duas pessoas para além da lojista. Estava sentada, de máscara na cara, enquanto conversava com a vizinha que atendia ao balcão. Com vontade de falar, conta que vive aqui há 50 anos, com janela para a Rua da Prata. A vida profissional também passou pela Baixa, com 20 anos de trabalho num restaurante da Rua dos Fanqueiros.
Quando questionada sobre a Rua da Prata sem carros, não hesita. “Acho mal.” Não concorda com a proibição da circulação automóvel na rua. Não necessariamente por ter saudades do barulho dos motores, mas porque a medida veio pressionar ainda mais outras ruas do centro histórico, como é o caso da Rua da Madalena, para onde foram desviadas carreiras da Carris e muito do trânsito que atravessa o centro histórico.

Sobre esta situação, a Junta de Freguesia denuncia aquilo que considera ser “falta de estratégia para a mobilidade no coração da cidade” e aponta uma solução – o Plano de Mobilidade para o Centro Histórico, apresentado pela própria em novembro do ano passado.
Mais próximo da Praça da Figueira, encontramos Elsa Guerreiro. Há 32 anos a trabalhar na Achega, loja de malhas. Dez anos antes de começar a trabalhar nesta loja, com 15 anos, já trabalhava. “Vivia em Alfama e sempre trabalhei aqui na Baixa”.
Lembra o período alargado de obras, depois do colapso do coletor pombalino que fez ceder o asfalto, como um dos piores para as lojas desta rua. As pessoas continuavam a poder passar, mas não era assim na cabeça de muitos lisboetas.
“Quando a rua fechou – não sei se foi um erro de divulgação – mas a maioria das pessoas que via por aí julgavam que a rua estava completamente fechada”.

O colapso do coletor em 2022 não foi um episódio isolado. Já no final de janeiro deste ano, outro colapso obrigou a novo encerramento da circulação de elétricos na rua. Desta vez, durante quatro meses. Para Elsa, a sucessão destes episódios estará a causar nos lisboetas “um bocadinho de medo de virem”.
A lojista reconhece que a rua pode ganhar com a reabilitação do edificado, mas identifica também o efeito negativo que a abertura de alguns hotéis tem significado para o comércio. “Os prédios realmente estavam a precisar de obras, mas não precisavam de tirar os lojistas. Abre-se um hotel e os lojistas saem”. No lugar de várias lojas, conta, surge por vezes apenas um restaurante.
“Temos a Baixa como? As pessoas que moravam aqui já não existem. A não ser estas que vêm sazonalmente. Temos esplanadas, hotéis e souvenirs.”
Elsa considera que a rua precisa de “voltar a ter lojas, artigos portugueses, que tragam o público aqui. As Zaras existem em centros comerciais. Lojas portuguesas praticamente só existe esta. Tínhamos boas perfumarias, sapatarias. Tínhamos os bancos, advogados e um mar de gente. Até aos vizinhos vendíamos. Agora, não”, diz, sublinhando que as novas lojas que vão surgindo “são para os estrangeiros. Nós não temos capacidade económica de ir lá”.
Também falta, diz, “pessoas a viver na Baixa. Sim, porque eu fui nascida e criada aqui e gostava que as pessoas voltassem a estar aqui”. Mas, para isso, são necessárias “rendas acessíveis”.
Na outra ponta da rua, próxima do Terreiro do Paço, encontramos Cristina Santos e Celeste Antunes, lojistas na Ponto Prata, loja do grupo Cerimónia. Desde 1971 que ali se vendem carteiras, malas e calçado. A clientela passou a ser constituída maioritariamente por turistas, contam, apontando para o hotel em frente. Este hotel, da cadeira Eurostars, foi inaugurado no início de 2023, ocupando um edifício em que anteriormente funcionavam cinco estabelecimentos comerciais. Hoje, encontra-se ali apenas um restaurante, pertencente ao hotel. Apesar do impacto negativo no tecido comercial da rua, é o próprio hotel a recomendar aos seus hóspedes a visita aos estabelecimentos próximos, incluindo o Ponto Prata, contam as lojistas.

Cristina está na loja desde 2022, mas já havia trabalhado na rua, vinte anos antes. Celeste veio para a Rua da Prata em 2012, mas leva já 41 anos no grupo Cerimónia. Confirmam o aparente receio de que falava Elsa: “Como isto esteve muito tempo fechado, parece que [as pessoas] têm medo de vir para aqui”.
A recuperação da rua tem sido gradual, à medida que o tempo passa e que cada prédio vai sendo reabilitado. “É hotéis, é Alojamentos e…”, afirma Cristina. “E sorrir”, completa Celeste. “E sorrir”.
Os hotéis, responsáveis pelo encerramento de várias lojas na rua, acabam por trazer parte dos clientes que entram. “As senhoras da receção indicam-nos e vai-se vendendo alguma coisa”, conta Cristina.
Quando a questão é a proibição da circulação automóvel, a lojista não duvida da medida. “Só pelo barulho e pela poluição que fazia, vale a pena.”
Celeste sublinha aquilo que já ouvimos – a perda de trabalhadores de escritórios da Baixa tem consequências no comércio local. “Havia muitos serviços aqui que foram para o Parque das Nações. A Baixa já não tem aquele apelo. É triste, mas é isto.”
Rua sem carros? Só quando a polícia está a olhar
Apesar de a sinalização ser clara, nem sempre é respeitada.
Durante a reportagem da Mensagem, a meio da manhã da passada quarta-feira, foi possível testemunhar a passagem de vários automóveis pela Rua da Prata. Junto à Praça da Figueira, alguns aguardam atrás dos elétricos, sem se aperceberem que a espera pelo arranque das carreiras poderia ser alargada, já que aquela é a paragem terminal. Depois de largos segundos ou minutos de espera, invadem a ciclovia para contornar os elétricos e, depois, seguem viagem.
“A Polícia Municipal tem sido incansável”, conta Rui Barata, há 20 anos morador na Rua da Prata e membro da recém fundada Associação de Moradores e Amigos da Freguesia de Santa Maria Maior (AMAS-M²).
Desde que passou a rua sem circulação automóvel que a fiscalização da interdição está a cargo de agentes da Polícia Municipal, que ali se encontram de plantão durante longos períodos do dia. A exceção da interdição existe apenas para a tomada e largada de residentes e operações de cargas e descargas entre as sete e meia e as nove horas da manhã.
Apesar da sinalização vertical existente no local, quando não se encontra ali um agente, a infração é habitual e, segunda a Junta de Freguesia, está a causar “uma sensação de insegurança entre transeuntes”.



“Nota-se bastante à noite e quando os polícias mudam de turno ou vão almoçar – não há respeito pela sinalização”, relata Rui. A solução que a associação de moradores aponta é a fiscalização automática, por meio de câmaras de leitura de matrículas – uma opção que já foi assumida pela própria autarquia.
No final de 2023, altura em que a Rua da Prata reabria sem automóveis, o presidente da CML, Carlos Moedas, anunciou a instalação de câmaras para controlar e fiscalizar o trânsito na Baixa. Na altura, o autarca explicava que já existia, para tal, autorização da Comissão Nacional de Proteção de Dados. Apesar do anúncio, que apontava para 2024 como ano para a operacionalização do investimento na aquisição destas câmaras, não foram divulgadas novas informações, fazendo depender por inteiro da Polícia Municipal a fiscalização do cumprimento das restrições de circulação na Baixa.
Associação de Moradores quer evitar “péssimo exemplo da Rua Augusta”
Com o encerramento da Rua da Prata à circulação automóvel, Rui Barata ganhou “sossego”.
“A nível pessoal, ganhei qualidade de vida.” E a posição da associação a que pertence é a mesma: “Mais silêncio, menos poluição, quer ambiental quer sonora. Ganhou-se bastante.”
A Associação de Moradores e Amigos da Freguesia de Santa Maria Maior foi formalizada no final de 2024. Nasceu da “carolice” de um alargado grupo de moradores – cerca de 200 – dos vários bairros da freguesia. Só se comunicavam por e-mail, “interessados pelo bem comum”. Estavam separados, “cada qual a lutar pelas suas quintas – uns pela Baixa, outros pela Sé, outros pela zona ribeirinha, pelo Castelo, e assim sucessivamente”.
Surgiu a ideia de criar a associação, “apolítica”, e hoje são cerca de 500 pessoas inscritas, “maioritariamente todos residentes de Santa Maria Maior”.
A associação defende que a rua fique “conforme está – sem qualquer trânsito automóvel, continuar a circulação das bicicletas, das pessoas”.
“É muito bonito ver da janela as pessoas a circular sem terem de olhar para a esquerda e para a direita por causa dos carros.”
À semelhança da Junta de Freguesia, a associação desconhece quaisquer planos para a requalificação da rua, apesar de já ter pedido uma reunião junto da CML.
Perante a possibilidade de alterações ao perfil da rua, Rui Barata é cauteloso.
“Prefiro que a Rua da Prata se mantenha conforme está neste momento, do que venham a fazer uma nova Rua Augusta.”


A associação de moradores já se pronunciou relativamente a esta questão, considerando “fundamental garantir que a pedonalização das vias públicas é para a utilização pelos peões e não para estas serem mercantilizadas”.
Numa tomada de posição tornada pública no seu site, a associação explica ser contra a “privatização” do espaço público através da “instalação de esplanadas”, bem como contra “atividades causadoras de ruído e outras perturbações para a vida diária dos moradores”.
Em 2024, a Mensagem contou na Rua Augusta mais de 1200 lugares para sentar em esplanadas, mas nenhum banco público.

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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O futuro da Rua da Prata estará no Comércio que para lá se consiga atrair, com critério, com regras, com uma ideia clara de planeamento e ordenamento comercial. Primeiro saber-se o que lá existe, depois saber-se o que faz falta e depois … gerir o espaço como se de uma galeria comercial a céu aberto se trate. A UACS, a ADBP, a AHRESP, a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal de Lisboa saberão “disto” e … muito mais!
Havia bancos nas transversais da Baixa, mas com a invasão das esplanadas (não é só na Rua Augusta), tiraram-nos todos. Isso e o fecho e falta de investimento no comércio tradicional, comércio tradicional esse que ainda é o que me leva à Baixa, cada vez com maior relutância, estão a matar a Baixa.