No final da primavera de 1991, os pilotos que descolavam em treino da Base Aérea de Sintra, ao sobrevoar a vizinha localidade de Pêro Pinheiro, lançavam um olhar curioso ao estaleiro da Graviner, empresa de mármores e granitos. Alguns aviões insistiam em retornar e davam voltas e voltas, apontados a um mistério.
Lá em baixo, um vulto volumoso e de chapéu preto debruçava-se sobre pedras iguais, alinhadas e juntas. Por vezes delas exalava vapor. Era Bartolomeu Cid dos Santos a criar os painéis que iriam ser colocados num dos átrios e nos dois cais de metro na estação de Entrecampos, em Lisboa.
Sim, os painéis destinados a um subterrâneo da nossa cidade foram apreciados, em estreia, por seres alados, jovens pilotos.
Adianto também que algumas das pedras falavam naturalmente de mares e de oceanos, pois o que elas contavam era sobre nós, portugueses. Mas, como veremos neste episódio – Fala-me de Ti, Metro de Entrecampos! – a obra foi dedicada exclusivamente a livros e à sua catedral maior, A Biblioteca.
A Biblioteca, tudo, tudo sobre livros. Ainda lá está. Pouco lida.
O assomo de cultura foi exercido sem preocupações de popularidade. É pena. Na estação das Laranjeiras, por exemplo, o pintor Sá Nogueira ofereceu-nos laranjas mais hiper-realistas que as sumarentas da fruteira na nossa cozinha, algumas delas já cortadas, gomos à vista. Por acaso, lembro-me agora, só faltou uma ou outra semente.
Já a gare de Entrecampos, em 1991, cujo assunto para glorificar era livros, lombadas, letras, autores, prateleiras, versos, papéis definitivos e palimpsestos, vírgulas e estantes – A Biblioteca – cheia de muito, ficou um bocadito incapaz de nos convencer que o Metro de Entrecampos e a vizinha Biblioteca Nacional (ainda por cima linda e do Pardal Monteiro) eram quase a mesma coisa.




Também a técnica artística com que se trabalhou, pedra calcária lavrada por ácido (daí o vapor que os pilotos deram conta), não permitiu uma grande nitidez da imagem. Tudo somado, a experiência de Entrecampos arriscou-se à indiferença, num local de passagem de gente cansada.
Leitor, pergunte à volta: sabiam disto, uma Biblioteca lisboeta enterrada entre carris?

Quando o gravador Bartolomeu Cid dos Santos encomendou as pedras sobre as quais iria trabalhar, pegou numa fita métrica, abriu os braços, ambos esticados, definindo como deviam ser todas: iguais e daquele tamanho, na medida maior.
E assim foi. Há foto dele, grande e ventripotente, encomendando essa medida na pedreira. Ele terá feito outro gesto para definir o lado menor das pedras, mas desconheço como definiu esse tamanho, não vi foto. Em todo o caso, os retângulos sairiam todos iguais.
Cuidei descrever aquela foto do autor, de pé e braços abertos, porque essa posição explica bem para que serve a estação de Metro de Entrecampos na rede de transportes em que está inserida. Ela entrecruza quem vem do Norte da capital, Sintra-Odivelas-Sacavém (definida pela fita métrica horizontal), de manhã, e dali, Entrecampos, demanda as estações para Sul, até à Baixa (e desta, além Tejo, para Almada e Barreiro). E, ao fim da tarde, faz-se o sentido inverso.
Aquela estação de metro faz interface com uma estação de comboios, com o mesmo nome, Entrecampos. O que leva os nossos painéis, às horas extremas de ir e vir dos trabalhadores, a ser talvez o museu do país mais frequentado por gente pobre. Uma homenagem? Um desperdício?
A Mensagem não se queixa. A caça ao pormenor que me propus nesta série Fala-me de Ti, Lisboa! nunca me levou antes a tantos espantos “olha…” e “a sério?!” Desta vez até tive uma variante, “tou-te a topar, Bartô!”, com sonoro “ô” terminal, imitando eu (abusivamente, pois não o conheci), o vocativo que todos emprestavam a Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008). Até os seus alunos da Slade, prestigiada escola de Belas-Artes, do University College, de Londres, o chamavam assim.

Os piscares de olho e enigmas que ele espalhou pelo átrio sul e pelas duas plataformas do Metro de Entrecampos, vai ser tudo contado, assim saiba eu tudo.
Aparece um cego desnorteado… ou não
Como estão lembrados, no episódio precedente, falava eu do Martim Moniz e do seu papel no cinema português. O Nuno Saraiva, companheiro da imagem de abertura sob a qual costuma ir o meu texto, desenhou, por aquela praça fora, um músico cego, óculos escuros, bengala e viola no saco. Um abuso, pensei.
O boxeur Belarmino estava lá bem, ele foi filme, e grande. O regicida Buíça também apareceu em filmes e documentários, embora desperdiçado, pois nunca ninguém o filmou descendo as Escadinhas da Saúde, onde morava, na manhã do dia do crime que cometeu. O Malhoa também estava bem no desenho do Nuno, pois ele pintou ali a Severa, ela ou uma prima fadista e da rua do Capelão, com quem depois Leitão de Barros se inspirou para o filme português, A Severa, o primeiro, mais do que falado, cantado… Tudo bem.
Mas que raio estava ali a fazer, num Martim Moniz de filmes, o músico cego? Em nome de que ecrã ou matiné?! Irritou-me, pois eu sou, nesta série de crónicas, o Afonso Lopes, piloto-mor da esquadra que chegou ao Brasil em 1500. Eu, como ele, faço os factos (ele pilotou, eu escrevo).
Que aquela viagem estava programada para ir à Índia, partir Atlântico abaixo e virar à esquerda, no Cabo da Boa Esperança, era a ideia. Mas os factos foram os do piloto-mor: a esquadra, de facto, desceu, mas virou à direita e descobriu o Brasil, essa é que essa. O Nuno Saraiva era o ilustrador, e se o era, então que ilustrasse o que eu fiz. Tal como o Pero Vaz de Caminha ilustrou os factos criados pelo piloto-mor Afonso Lopes. Na sua Carta do Achamento do Brasil, o ilustrador não falou nem do rio Ganges, nem de caril. Falou do Monte Pascoal, de homens e mulheres “todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas” e que nisso “têm tanta inocência como em mostrar o rosto.” Falou dali, Brasil, onde estava, não de acolá, Índia, onde imprevistamente não estava.
Na última frase da longa Carta do Achamento, Pero Vaz de Caminha pediu ao rei D. Manuel I, o destinatário, que o perdoasse, “se algum pouco me alonguei” foi por causa do “desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.”
De facto, além do já referido, Pero Vaz de Caminha escreveu sobre o indígena que subiu ao camarote do Capitão, viu um colar de ouro no pescoço de Pedro Álvares Cabral e um castiçal de prata. E, os tendo visto, apontou para a terra, “como que nos dizendo que ali havia ouro [e prata]”.
Pero Vaz de Caminha rematou: “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.” O maior jornalista português da História também escreveu sobre dois grumetes que saltaram a amurada para ficar em terra. A Carta do Achamento é desejo de dizer o que interessa, tentar saber do que acontecia e tudo detalhado (usando substantivos, coisas, factos).
A essência do jornalismo.
Então, amansei. Afinal, o meu amigo Nuno Saraiva tinha razão. No anterior episódio ao que agora conto, passado na praça Martim Moniz, fazia todo o sentido desenhar e lembrar um músico cego. Não porque num filme de José Fonseca e Costa (A Balada da Praia dos Cães) se mostre uma cena de uma orquestra de cegos num bar do bairro e, portanto, o desenho evocasse mais uma relação entre o cinema e o Martim Moniz. Essa cena é coisa passageira, no meio de um grande filme com um admirável Raúl Solnado a fazer de inspetor da PJ.
O Nuno Saraiva publicou o desenho do músico ceguinho, não para insistir no tema cinema/Martim Moniz, do episódio nº 8, mas para lançar este episódio nº 9, que se passa, todinho, algumas estações metropolitanas adiante: Entrecampos! Umas escadas, uns corredores e, aí chegados, estaremos na capital lisboeta da literatura – uma gruta cirandada por milhares de passageiros todos os dias.

Pelos subterrâneos a caminho da Bilbioteca
Aproveitemos a curta viagem, indo para lá, para confirmarmos que alguns daqueles livros e autores que iremos encontrar em estantes de pedra nas cafurnas do Metro de Entrecampos nasceram algures da cidade.

Na rua de São Lázaro, que sobe do Martim Moniz onde foi o adro da igreja do Socorro demolida em 1949, no início dessa rua, havia o Bolero Bar. Lugar de putas com um cheirinho, como uma bica animada por pingo de aguardente: tinha uma orquestra de cegos. Os cegos variavam, segundo a fase de sucesso da casa, de orquestra inteira a só um pianista cego com um coxo baterista.

O Bolero Bar, Cardoso Pires frequentou-o sozinho e com amigos, falou dele em entrevistas, descreveu-o em muito lado e, sobretudo, em dois livros maiores, A Balada da Praia dos Cães e Alexandra Alpha. O primeiro inspirou um filme, sabemos, mas o Bolero Bar literário vale bem mais que o da tela, sobretudo pelo sortilégio que lançou a Cardoso Pires.
Para o lugar onde vamos está o Alexandra Alpha desenhado em pedra. Há dias, quando vi o livro no átrio da estação de Metro, lembrei-me (e já vão perceber porquê) que a edição brasileira foi lançada na Feira do Livro do Rio de Janeiro, em 1991. Nesse ano, o escritor português era a vedeta convidada.
Dessa Feira do Livro, os jornais também assinalaram nas novidades estrangeiras um daqueles livros de aldrabões que vendem conselhos lucrativos (geralmente certeiros: os autores ficam ricos): A Arte das Negociações.
O autor era um tal Donald Trump. Portanto, por estes dias, quando me cruzava com estas informações de 1991, Lula e Trump, as duas vedetas do dia, discursavam na ONU, em Nova Iorque. Sei lá o que isto quer dizer! Sei é que desde que foi criada A Biblioteca numa estação do Metro de Lisboa, foi cinzelada em pedra uma coincidência para eu a vir conhecer mais de 30 anos depois.

No lançamento português do Alexandra Alpha, Eduardo Guerra Carneiro encheu uma página do Diário Popular. Que sequência maravilhosa: um jornal popular reservou a um belo livro um grande jornalista e uma página inteira… Eis o resumo de Eduardo Guerra Carneiro: “Ainda: quadros de Bruegel com músicos cegos do Bolero Bar a caírem de borco, amparados uns aos outros, na madrugada já alta do Martim Moniz.”
Em Lisboa, se é sobre galés, é certinho como o destino, chato como remos a baterem juntos, está no Museu da Marinha, em Belém; se é uma cena de músicos cegos e bêbados à Pieter Bruegel, O Velho, é no Martim Moniz, alta madrugada.
Parece que estou sempre agarrado aos cantinhos esconsos da cidade; mas não parece, estou. E isso porque conheço o atrevimento com que Lisboa se projeta sempre como quem vai para as Molucas, ilhas da Indonésia. Para destapar um pouco a viagem próxima: um dos livros celebrado no átrio da estação de Entrecampos, é o Tratado das Molucas, de António Galvão, que foi para lá em 1527. Ele escreveu sobre a pimenta longa, o gengibre e o cravo que ajudaram a fazer o mundo redondo.
Em 1999, no ano seguinte à morte de Cardoso Pires, foi editada a sua Fotobiografia que, entre fotos e depoimentos, incluía uma entrevista feita por Inês Pedrosa. As palavras (as palavras são para carpentear, não existe?, devia) que se seguem são dele:
“A certa altura, nos inícios dos anos 60, a noite de Lisboa dá uma volta. As tipas começam a aparecer em sítios onde nunca apareciam. Aos pares, de um modo geral. Havia três miúdas da Faculdade de Letras que eram primas. Em qualquer bar que entrássemos, lá estavam as tipas. Sempre as três. E eu gostava de estar com elas. Eram miúdas com uma certa curiosidade, e que estavam numa fase de experiência. Eu achava muito mais giro aquilo do que conversas de rebéu-béu, e o Proust para baixo e Stendhal para cima, que não me interessava coisíssima nenhuma.”
Mais à frente, e sempre o Cardoso Pires, sobre os bares: “O meu favorito era o Bolero, porque misturava as prostitutas com os intelectuais. Não ia lá ao Bolero para andar na marmelada, não era tão garoto. Ia lá por causa do amor que encontrava naquilo tudo. A menina de Românicas à mesa com a prostituta – e a menina, de um modo geral, sempre a receber lições de moral da prostituta. Porque as prostitutas são as mulheres mais sérias que há, estão sempre a repetir “a minha mãe e os meus filhos acima de tudo” – isto foi Lisboa, segunda metade do séc. XX.
Um século antes, em Lisboa, segunda metade do séc. XIX, o mais perspicaz olheiro do povo lisboeta de então, Fialho de Almeida, narrou aquele local, ou semelhante como repórter literário – sublinho-o para não nos julgarmos entre ficções. Era literário porque ele escrevia como ninguém, mas repórter também, sentado no real, numa tasca onde “o cafezeiro, em camisola, um gordanchudo, barbaceno e alvar, trata a freguesia por gajas, e coça as peúgas nos entreatos da confeção dos capilés.”
É do texto O Violista Sérgio No Café Da Mouraria, de Fialho, dos primeiros para o folhetim Os Gatos, chamado assim por causa da graça e das garras, mais estas, com que ele escrevia cadernos mensais e semanais publicados entre 1889 e 1895.
Na verdade, Sérgio era o primeiro violoncelista da orquestra do São Carlos. Mas todas as noites ia abastardar-se para um tugúrio junto à igreja do Socorro. “Avermelhado pelo álcool”, Sérgio “é o tipo desses decilitreiros que monologam de noite pelas ruas” e “toca agora para admiradores em mangas de camisa e tamancos”.
No texto, enquanto Sérgio faz soar um trecho de A Danação de Fausto, de Berlioz, Fialho conta como, num canto do botequim, um carregador boçal aperta uma saloia inocente.
Dois cronistas da comarca de Lisboa, Cardoso Pires e Fialho de Almeida, separados por um século, mas olhando para a mesma praça e mesma gente.

Cronistas convocados pelo cartunista Nuno Saraiva para me prevenir com um cego visionário: é tempo de saltar para uma estação de metro que quer ser biblioteca.
Biblioteca na gruta com gente passageira
Enfim, Entrecampos. Antes de mergulharmos nas grutas apaineladas de livros pelo artista Bartolomeu Cid dos Santos, permitam-me só um pormenor, para dele sacar a respetiva coincidência. A praça de Entrecampos tem ao centro um monumento aos Heróis da Guerra Peninsular. Houve tempo em que o povo lhe chamava Galinha, por causa do “esbracejar dos soldados à volta de uma águia de aviário”. Levantem o olhar por uma vez e confirmem que é mesmo o que lá está.
João Carlos Rodrigues da Costa presidiu ao concurso para a estátua, inaugurada em 1933. Era general-de-divisão, mas não se lhe conhece batalha. De um gosto, sim. Ele era apurado bibliófilo e presidiu também às comemorações centenárias de Camões. Se acrescentarmos a esse fio ténue a presença próxima da Biblioteca Nacional, entendem porque o livro foi o condutor da ilustração das paredes do Metro local.
Se nas Laranjeiras faltou uma semente de laranja, Bartolomeu Cid dos Santos, no seu metro, caprichou nos pequeninos detalhes.
Entretanto, o grosso modo: a plataforma do nascente, dedicada a Pessoa; a do poente, a Camões. Como não, esses dois poetas, se um é génio moderno e o outro arrasta consigo o passado glorioso, os Descobrimentos? Ode Marítima e Lusíadas, partes suficientes para um todo, da mesma maneira que o Hemisfério Norte e o do Sul enchem a Terra inteira, o resto são meros cabos e enseadas.


Ora essa notória visão global não impede o pormenor.
Tenho explicação fácil, Bartolomeu era neto do Professor Reynaldo dos Santos e filho do Professor João Cid dos Santos, ambos cirurgiões, arte da minúcia, por causa da necessidade da exatidão com que métier principal deles foi praticado.
Quanto ao gosto por livros, o gravador de pedras também aprendeu em casa. O médico Reynaldo dos Santos foi historiador de arte, especialista do estilo manuelino, e tinha uma biblioteca com a arte, a literatura e a história a esgadanharem-se para se completar.
Um dia, o avô disse ao Bartolomeu: “Põe-me a biblioteca em ordem.” O rapaz perdeu o sexto ano do liceu em cima de um escadote e ganhou uma ciência primária: a necessidade de ler.
Já o pai, João Cid dos Santos comprou a casa do poeta Afonso Lopes Vieira, no Largo da Rosa, subindo para o Castelo, e fez lá três andares de livros.





Um dia, Bartolomeu leu um conto filosófico de onze páginas, “A Biblioteca de Babel”, inserido no pequeno livro Ficções que o argentino Jorge Luis Borges escreveu em 1941. Um livro pequeno, um conto de onze páginas, mas uma biblioteca que era mais que imensa, era quase tudo. Uma biblioteca que era um labirinto, um enigma.
Nas suas estantes havia todas as possíveis combinações das letras do alfabeto e de todos sinais de pontuação. E em todos os idiomas. E todos os livros perdidos também lá estavam, até os das civilizações de que não sabemos nada, nem mesmo se tiveram livros.
Suspeito que Bartolomeu Cid dos Santos queria fazer esta Biblioteca de Babel nos 150 metros que emprateleirou em pedra na estação de metro de Entrecampos. Acho que não conseguiu, mas tentou.
Vi lá, no átrio, a assinatura de Dinis Machado. Uma das ambições de Bartolomeu era, além do nome dos escritores (tinha uma lista inicial de 600), meter também as lombadas dos livros e até, para os vivos, claro, convidá-los a assinar num círculo de pedras os autógrafos dos autores.





Havia um lápis litográfico resistente ao ácido e a assinatura ficava gravada. Foram lá assinar a Natália Correia e a Agustina, o José Cardoso Pires, que foi o primeiro a aceitar, o que levou outros menores a deixarem-se de peneiras. O Miguel Torga não foi (estava a morrer), o Saramago e o Baptista Bastos foram e também o Herberto Helder, arredio a estas coisas.


Há fotos, e mais do que elas, as assinaturas na pedra que ficam na zona do átrio que nem obriga a esportular os 1,85€ da entrada mais barata para uma só viagem.
Também vi a assinatura do Luís Garcia de Medeiros que, confesso, não relacionei com nenhum livro, mas o nome não me era estranho. Mas, na verdade, vi depois a lombada do livro Noites, do tal Luís Garcia de Medeiros.

Mas, na verdade da verdade, nem livro nem escritor existiram, foi uma brincadeirinha de Bartolomeu Cid dos Santos. Lição para nunca fecharmos os olhos perante um livro, nem quando eles são de pedra.
Há pouco falei do Dinis Machado que vi assinado. E ele garanto que existiu, a prova é o meu agradecimento pelo seu O Que Diz Molero, livro que também lá está prantado numa pedra. Acontece, e conto isto para verem a imensidão desta Biblioteca no subsolo de Lisboa, Dinis Machado tem também um pseudónimo, Dennis McShade. E este só escreveu livros policiais, entre eles, o Requiem para D. Quixote, em 1967.

O protagonista do livro português Requiem para D. Quixote chama-se Peter Maynard. Do Ficções do argentino José Luis Borges, já falámos daquele conto sobre a Biblioteca de Babel, tão grande, tão grande que tem todos os livros do mundo, com todas as combinações possíveis de letras, onde há necessariamente uma Bíblia de mil páginas, e também outra igualzinha, mas com uma vírgula a mais na pág. 164. E outra Bíblia, onde essa vírgula vem logo na pág. 35.
E… Adiante.
Ora, no livrinho Ficções, além desse conto sobre a Biblioteca de Babel, há outro conto de Borges intitulado Pierre Menard, Autor do Quixote. Repararam nas coincidências, embora com pequenas variantes desse texto argentino com o policial português Requiem para D. Quixote, onde aparece com destaque um Peter Maynard?
Cá para mim, a ficção que Borges cometeu em 1941, Bartolomeu meteu em painéis, exato meio século depois, em 1991 – e isso aparece numa estação de Metro de Lisboa.
Aí, já cacei o Dinis Machado, assinatura e lombada de livro. Da próxima vez que for à Babel de Entrecampos hei de encontrar mais pormenores com uma infinitude de variantes.
No cais poente, o tal dos painéis de Camões, o fim da tarde é bom para encontros imediatos com bengalis, indianos e até nepaleses. Há muitos chegados a pé da estação de comboio, esperando depois o metro da Linha Amarela, para Ameixoeira e Odivelas.
Encostam-se a um painel e nem dão conta que tapam um rio sagrado.
Na verdade, Barto desenhou mal um rio, fazendo-o descer como uma cobra pelo painel abaixo. Quando o Ganges coleia nos mapas reais é horizontalmente, pelo norte da Índia, aos pés do Nepal e entrando no Bangladesh. Quando eu arranjar coragem, pedirei delicadamente àquele passageiro que espera encostado, que desencoste, destape o painel e aponto para a palavra solitária no sopé da pedra: “Ganges.”

Se o brilho do seu olhar o merecer, levo-o a outro painel logo adiante e este com dois rios: “Além do Indo jaz, e aquém do Gange/ Um terreno muito grande e assaz famoso…”
Chateio-me por Bartolomeu não ter corrigido a falta do “s” no Ganges. E sem ainda vocabulário comum para falarmos, eu e o imigrado, do “Canto VII” e da “estrofe 17”, direi “Lusíadas” e faço com dedos “4”, “5”, “0”, para exprimir o quase meio milénio que nos conhecemos. Lanço a mão para trás para dizer ao tempo que nos vimos pela primeira vez.
Ele despede-se de mim chamando-me “Camóis”, porque foi a última palavra que me ouviu., com um dedo meu a tapar um olho.

Para não ficar com fama esquisita na plataforma poente, deixo de cuidar dos outros e vou refrescar os meus olhos: “Nesta frescura tal desembarcavam. Já das naus os segundos Argonautas, Onde pela floresta se deixavam. Andar as belas Deusas, como incautas” – Canto IX, estrofe 64. Escrito na pedra, com uma bela mulher ao lado.

Nunca dantes, Bartolomeu, eu tinha ouvido palavra mais linda – “incautas” – num cais. Ouvi-a quando um metro fazia chiar a paragem. Gente, presumo, saiu e gente entrou. Não me virei do painel. Eu estava em casa.
Vi um livro de Bulhão Pato sem título – tinha desenhado uma amêijoa. Havia uma lombada com dez cafés e bares antigos de Lisboa – em último e letras mais coçadas, o inevitável Bolero Bar, como se ele envergonhasse.
Livros mal-ajambrados, com páginas tortas, encadernados em couro, costurados, do insignificante Joaquim Paço de Arcos ao grande lisboeta Nuno de Bragança.
Há um livro pequeno e deitado de Joaquim Leitão, e outro, vertical e vistoso de Júlio Dantas, juntos num painel. Joaquim quem? Ah, o secretário perpétuo da Academia de Ciências que ousou na escadaria do palácio juntar em azulejo a sua obra completa com a do presidente perpétuo Dantas? Esse. Na prateleira de Entrecampos tramou-se, a diferença entre eles foi cruel.

Numa pedra, há um desenho de Bartolomeu Cid dos Santos, de chapéu, encostado ao grosso volume Rimas, de Bocage. Nepotismo imposto pelo patrão da obra?
Passei por um Cadornega sobre as guerras angolanas, trezentos anos antes de eu as conhecer. Marília de Dirceu comoveu-me, sou irremediavelmente de outro hemisfério, filho de portugueses a tornar-me outra coisa – tão português.
Acabo de me meter, também eu próprio, na Biblioteca? Não, usufruto de cidadão.
Procurei e não encontrei amantes juntos de contracapa e capa. E, no entanto, numa prateleira, aparece Maria Lamas, a do monumental As Mulheres do Meu País, invocada por causa de um seu livro de simples divulgação, Mitologia Geral. Só na prateleira seguinte aparecem três livros de Ferreira de Castro, entre eles A Selva. Como deveriam estar ambos, Maria Lamas e Ferreira de Castro, juntos de capas dadas e títulos soltos, como foi a longa vida deles de amantes, de amigos e de escondidos.
Mas vi livros a voar, e outros esquecidos. Disse-me uma pedra, antes de chegar à silhueta de Pessoa: “Todo o vapor ao longe é um barco de vela ao perto”. Vi que o “Fernando Pessoa – Antes De Ser Grande”, usava camisola raiada como os pescadores de Saint Malô.

De um pintor suave, Francisco de Holanda, li um título de ensaio urbanístico como se fosse um poema em aguarela: Da Fabrica Que Falece a Cidade de Lisboa. Falei como é costume de um lugar de Lisboa, desta vez, uma biblioteca desarrumada. Como foi possível não a ter visto antes?
Descobri numa estante, sob uma prateleira com um título de Cesariny que se me varreu e um de O’Neill, A Ampola Miraculosa, noutra prateleira, entre um volume de A Velhice do Pai Eterno e outro com Os Simples, ambos de Junqueiro e, do outro lado, de Ramalho, umas Farpas sem capa porque em folhetim. E, entalados nessa mesma pedra, dois volumes de Os Gatos.
Passei um dedo pela pedra, senti veios, contornos que me falavam e deixei-me ir com a oferta. Usei o meu passe de reformado, desci as escadas e sentei-me no penúltimo degrau que levava à Linha Amarela.

Não procurei aquela composição de Berlioz sobre vender a alma ao diabo, A Danação de Fausto, que leva os carroceiros de sempre, num canto da gare, apertar as saloias inocentes. Em vez disso, para saudar uma Biblioteca, tão do Mundo porque portuguesa, não baixei o som do meu telemóvel e ouvimos: “Qualé ideia?/ Não ouves a tua cidade a chamar por ti?” – dizia o Dino d’Santiago, que é da Quarteira, a cantar Nova Lisboa, que bebia na Lisboa de sempre. A cantar no lugar certo.
Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

A visita guiada aos painéis da estação de metro de Entrecampos é um testemunho inolvidável do Ferreira Fernandes, à semelhança de outros que vão ficar para sempre gravados nas histórias da cidade e aos quais a Mensagem ficará para sempre também ligada.
Muito obrigado, parabéns e força para continuar que bem preciso é.
Para todos fortes saudações.
Joaquim Tavares
Aprecio histórias sobre Lisboa.
Estas são novidades.