Não estava preparado para aquilo. Foi de surpresa, dito assim de supetão, com toda naturalidade e tranquilidade do mundo. Foi dito aparentemente sem intenção de ofensa, pelo contrário, talvez até com boas intenções, mas é como dizia a ama que catou os meu piolhos na infância, a velha índia analfabeta que lia o mundo como ninguém, de boas intenções o inferno está cheio.
Me pegou de surpresa justamente pois não foi dito por gente sem estudo e que nunca saiu de sua terra, gente sem viagens ou que, quando muito, foi ali em Santarém e voltou. Mas não, foi dito numa conversa entre gente culta, gente viajada, o mundo na palma da mão. Dito numa roda de pessoas com diplomas na parede, portanto, gente altamente qualificada, como diria o outro.
Gente capaz de falar três, quatro, idiomas, e talvez por isso tomada pela certeza de que, nos assuntos idiomáticos, não havia para ninguém, a resposta certa sobre qualquer dos mistérios da língua estava sempre ali, na ponta da língua. E assim, lá pelas tantas da conversa, alguém saiu com uma destas:
“É que em brasileiro isso aqui quer dizer isto ali…”
Aprender que no Brasil não se fala português, mas um idioma muito semelhante, um parente próximo chamado brasileiro, foi uma das lições reservadas à minha experiência migratória.
A outra foi aprender que não era nem eu, nem tu nem ele, mas um quarto pronome pessoal do singular. Era o Álvaro, conjugado mais ou menos assim, o Álvaro vai bem?, mesmo quando o interlocutor estava à minha frente e a falar comigo, mas referia-se a o Álvaro como um terceiro, um conhecido, um colega de trabalho ou alguém com quem dividia um t2.
E respondia, “o Álvaro vai bem, sim”, sem ter muita certeza de quem eu realmente era.
Duas lições, duas experiências transcendentais, metafísicas, epifânicas, quânticas, das que lhe desmaterializam da realidade e lhe catapultam para um multiverso qualquer: depois de mais de quarenta anos de vida, tive de cruzar o oceano para finalmente descobrir que o idioma que falava não era português, mas um primo do tio Latim, um galego falado com preguiça, o tal brasileiro.
E descobrir ainda que para os portugueses eu não era eu, mas um outro, parecido comigo como o português parecia com o brasileiro, mas ao mesmo tempo era diferente, distante.
Diferente, distante.
A diferença e a distância são as variáveis que unem as duas equações da minha experiência migratória, fundamentais na matemática, na conta, da relação entre portugueses e brasileiros.
Chamar o outro pelo nome é a saída estratégica entre a armadilha da intimidade do tu e o constrangimento do você, que por aqui carrega um peso hierárquico, mais adequado para o tratamento entre patrões e empregados, ricos e pobres, etcetera e tal.
O português poderia fazer como o italiano que, diante da mesma dúvida, antes de empreender uma conversa pergunta possiamo darci del tu? ou, melhor ainda, como os pragmáticos espanhóis que simpáticos à intimidade até um verbo criaram para o uso do tu, o tutear, ao sacarem um podemos tutearnos?
Mas não, na dúvida, a saída à portuguesa é pela distância, pela diferença.
Com esta história de se falar brasileiro é a mesma coisa.
A princípio, soa como um respeito ao português falado no Brasil, um reconhecimento da independência da nossa língua, o grito do Ipiranga do sotaque da antiga colónia, esse idioma tão peculiar, doce e cantado que merece até ganhar asas e voar por aí, seguir o seu caminho, como um filho na maioridade. Um statement carregado de boas intenções.
Mas de boas intenções, já dizia a velha e sábia índia, o inferno está cheio.
O verniz da polidez esconde a mesma estratégia sem brilho de estabelecer uma distância, marcar a diferença, entre o português correto, o português de verdade falado em Portugal e o arremedo de português brasileiro, com seus vícios, vicissitudes e vilipêndios ortográficos e gramaticais, dignos de um filho rebelde que não merece carregar o nome dos pais.
A forma de falar marca assim o eloquente elogio da distância, da diferença entre o eu português e o tu ou você do outro lado, do não-português. Muitos brasileiros não percebem as nuances desse jogo de poder jogado no campo da análise do discurso e correm para dizer que falam brasileiro, sim senhor. Mas não é isso que está em questão.
É claro que um dia o nosso português pode se transformar em brasileiro, mas será uma decisão nossa, soberana, uma escolha dos brasileiros e não estabelecida, imposta, por quem quer que seja para sublinhar uma distância, uma diferença.
E enquanto não tomarmos essa decisão de caminharmos com a nossa própria língua, defender que falamos português, e não brasileiro, é um ato de resistência à imposição imposição contra um muro erguido com palavras.
Por isso, eu não falo brasileiro. Não, ainda não.
Se quiser aprofundar o assunto, pode ouvir o último episódio do podcast Lisboa.BR, com o professor e escritor Marco Franco Neves. O tema também inspirou meu último livro, O Mau Selvagem, e dá título ao próximo, “Eu não falo brasileiro”, com as crónicas publicadas na Mensagem.

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Caro Álvaro
onde está venda o seu livro por favor? O “eu não falo brasileiro” Obrigada
Bom dia, antes de mais, obrigado pelo interesse.
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Boa leitura e boas festas!