No topo do Parque Eduardo VII, há dois obeliscos, a bandeira de Portugal hasteada e o Monumento ao 25 de Abril projetado por João Cutileiro em 1997. Mas imagine o que seria ver, também ali, um Palácio. Durante anos, esta não era só uma ideia, mas sim um futuro projetado. Um futuro que fez parte da vida profissional do arquiteto Keil do Amaral ao longo de 27 anos. 

O arquiteto Francisco Keil do Amaral.

Passados 50 anos da morte do arquiteto lisboeta que procurou conciliar o tradicionalismo com o modernismo, o Museu de Lisboa recorda, numa exposição inédita, esse palácio que nunca chegou a materializar-se, mas que viveu no papel durante anos.

Esta seria a grande obra, nunca concretizada, da carreira dele.

A exposição “O Palácio da Cidade de Keil do Amaral” pode ser vista no Palácio Pimenta (Museu de Lisboa) até 11 de janeiro de 2026. Sintetiza os muitos projetos que surgiram ao longo do tempo para um Palácio da cidade, dando destaque àqueles que foram concebidos por Keil do Amaral.

“É o projeto que acompanha toda a carreira dele”, diz Rita Fragoso de Almeida, investigadora do Museu de Lisboa.

E um projeto que se liga também à história do próprio Museu de Lisboa, que Keil do Amaral pretendia instalar nesse Palácio no Parque Eduardo VII. Com essa ideia posta de parte, o arquiteto ainda desenharia um plano para adaptar o museu ao Palácio Pimenta, mas nem esse chegou a ver a luz do dia…

O Parque Eduardo VII. Foto: Arquivo CML

Um Palácio no Parque… antes de Keil do Amaral 

Para contarmos a história deste Palácio que vive só no papel, há que contar a história do parque que o acolheria: o Parque Eduardo VII. Este parque remonta a 1887, ano que se seguiu à inauguração da Avenida da Liberdade, criada à imagem das boulevards parisienses.

É nessa altura que a Câmara Municipal de Lisboa lança um concurso internacional para a construção do “Parque da Liberdade”.

O vencedor do concurso seria o projeto do arquiteto paisagista Henri Lusseau, que propunha aproveitar os terrenos daquela zona para criar avenidas, organizando o espaço em função de um grande lago, com envolvente de maciços rochosos, cascatas e árvores, e, finalmente, um Palácio de Exposições na extremidade norte.

Mas, como tudo nesta história, o projeto não foi para lá do papel: dificuldades financeiras levaram à rescisão do contrato.

Entretanto, um novo estudo seria apresentado por António Maria Avelar em 1899, estudo esse que marcou presença na Exposição Universal de Paris de 1900.

Mas também este não avançou.

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Os primeiros planos para o Parque Eduardo VII. Foto: Rita Ansone

A discussão em torno do Parque Eduardo VII, que ganhou este nome no início do século XX à custa de uma visita do Rei de Inglaterra a Portugal, reacendeu em 1908.

Foi nessa altura que o arquiteto Ventura Terra, que projetara a Casa dos Viscondes de Valmor e o Edifício de Ventura Terra, na rua Alexandre Herculano, entrou em cena, propondo a construção de um grande palácio para exposições e festas. Mas um palácio que era diferente do de Lusseau: este não surgia isolado no topo do parque, erguendo-se antes próximo de uma rotunda. E, pela primeira vez, nele instalava-se o Museu da Cidade.

Porém, o concurso que elegera este projeto como vencedor acabaria por ser anulado…

O futuro do Parque Eduardo VII permaneceu uma incógnita durante quinze anos, até que um outro arquiteto, Luís Cristino da Silva, conhecido por ter projetado o Capitólio, apresentou uma nova proposta no ano de 1930, no I Salão dos Independentes, na Sociedade Nacional de Belas Artes. O arquiteto propunha o prolongamento da Avenida da Liberdade para norte através de uma alameda, onde se construiria um edifício que albergaria o Palácio da Justiça. No parque também se ergueria um monumento em homenagem à implantação da República. 

Mas, adivinhe: este projeto também não chegou a avançar. 

Um Palácio no Parque… agora com Keil do Amaral 

Foi em 1944 que Keil do Amaral, um jovem e já muito viajado arquiteto que integrava uma equipa da Câmara Municipal de Lisboa, apresentou aquela que seria a primeira de quatro propostas para o Parque Eduardo VII, tendo em conta as prioridades estabelecidas pelo executivo para este espaço: o arranjo do Parque e a construção do Palácio da Justiça.

Com o primeiro projeto, Keil do Amaral instalava no alto do Parque Eduardo VII um complexo de edifícios públicos, entre eles o Palácio da Justiça e um Museu Municipal, que surgiam enquadrados numa nova praça. “Uma proposta que é desenvolvida individualmente, mas que acaba por não avançar por questões políticas e financeiras…”, explica Rita Fragoso de Almeida. 

Em 1947, surge então um segundo plano, desenvolvido em colaboração com os arquitetos Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa. Aqui, o Palácio surgia como um complexo multifuncional de quatro pisos, onde se instalaria a sede dos serviços culturais da Câmara, uma sala para concertos, um auditório, uma biblioteca, um restaurante, áreas de exposição temporárias, um Museu da Criança e um Museu da Cidade de Lisboa. Previa-se ainda a criação de um miradouro com um monumento dedicado a Nuno Álvares Cabral, que se enquadrava entre dois pilares. Este plano resultou em dois projetos, com diferenças estéticas entre eles.

Destas propostas, só se chegou a construir o miradouro e o pedestal da estátua.

Uma década depois, surgem novas ideias. 

Em 1958, surgia um projeto uma vez mais de Keil do Amaral, em colaboração com os arquitetos Manuel Taínha, Raul Chorão e Carlos Ramos, numa altura em que o Parque era transformado por um arranjo urbanístico levado a cabo pelo arquiteto urbanista Faria da Costa e pelo arquiteto Rodrigues Lima.

O trabalho conjunto entre as duas equipas resultou num projeto modernista que mantinha a função cultural do Palácio. Aqui, a ligação entre o miradouro e o parque fazia-se através de plataformas que ampliavam o espaço exterior a sul e, a pedido da autarquia, propunha-se a introdução de seis jogos de água e a redução em largura da alameda central, através da plantação de alas de árvores de grande porte. 

Mas a ladainha repete-se: nada avança e, dez anos depois, mais um projeto. O último dos projetos. Nos anos 70, o Palácio da Cidade ganha a denominação de “Palácio de Congressos, Música e Exposições” e Keil do Amaral concebe uma proposta onde se recuperava a ideia de um edifício modular. Neste Palácio, previa-se uma área museológica dedicada ao Museu da Cidade de cerca de 4 500 m2. 

Nunca nada avançou.

Um vazio urbano e um museu

A ideia de um Palácio no Parque Eduardo VII, onde se instalaria um museu da cidade, acabaria por ser abandonada. Entretanto, discutia-se a possibilidade de adaptar o Museu da Cidade, que fora instalado provisoriamente no Palácio da Mitra, a um outro Palácio: o Palácio Pimenta. Uma ideia que não agradava a Keil do Amaral, pois o arquiteto sempre defendera que o museu teria de surgir num edifício criado de raiz.

Keil do Amaral viu-se, no entanto, obrigado a ceder e a realizar um estudo para adaptar o Museu de Lisboa ao Palácio Pimenta. O estudo, idealizado em conjunto com Irisailva Moita, a então diretora do Museu de Lisboa, propunha a ampliação do piso térreo do palácio através de galerias que prolongavam o edifício para o jardim e o relvado, com os serviços do museu instalados no sótão. Mas nem este plano avançou… Em 1971, o Presidente da Câmara António Jorge da Silva Sebastião ofereceu o Palácio Pimenta à Orquestra Filarmónica de Lisboa e ao Órfeão Municipal. O museu neste palácio só abriria ao público mais tarde, e por fases, entre os anos de 1979 e 1984. 

Quanto ao topo do Parque Eduardo VII, este permaneceria um vazio urbano.

A última intervenção aconteceu em 1997, quando o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles ali projetou o Jardim Amália Rodrigues, ligando Monsanto ao Parque. No mesmo ano, erigia-se também o Monumento ao 25 de Abril, de João Cutileiro.

“Aquele é um lugar que nunca foi bem resolvido. Não há um pensamento urbanístico sobre aquele que é um local de eleição, um miradouro sobre a cidade”, resume Rita Fragoso de Almeida.

Como Keil do Amaral sonhou.

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Rita Fragoso de Almeida, que integrou o projeto científico da exposição. Foto: Rita Ansone

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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