Por essa, Pitágoras não esperava: no Jardim da Alameda, a circunferência da bola que corre na hipotenusa do relvado inclinado em ângulo reto é igual à soma de um belo gol ao quadrado. Newton também surpreender-se-ia ao saber que o futebol anda a desafiar a lei da gravidade, mas nada grave, é que às vezes a força que atrai os corpos tem menos a ver com massas e quantidades de matérias.
E sim, com a força do futebol.
Vez ou outra, a Mensagem presenteia-me com uma história dessas.
Fábulas urbanas sem príncipes e princesas, fadas, bruxas e maçãs envenenadas. Narrativas de fazer corar às contadas por Sherazade, protagonizadas por destemidos heróis e heroínas de carne e osso sem espadas, varinhas de condão e direito a pedidos mágicos a génios dentro de lâmpadas que os ajudem a enfrentar o dragão do dia a dia e as mil e uma noites de luta de um imigrante.
Era uma vez um grupo de homens vindos de longe, reunidos no coração de Lisboa para driblar a dura rotina diária correndo atrás de uma bola. Espelho, espelho meu, eis o reflexo de que a remontada no placar adverso da vida se conquista com persistência, a força dos músculos, suor, criatividade e remates certeiros.
Na Alameda, o tapete mágico destes atletas de fim de semana, trabalhadores que descansam os braços fatigados para cansar as pernas, é o relvado de um jardim de relva irregular e terreno inclinado. Um estádio de futebol de faz de contas, que só existe na cabeça de cada um deles, um campo dos sonhos, pois o homem deixa de ser homem quando não é mais capaz de sonhar.
Neste derby, no clássico da Alameda, a bancada é a Almirante Reis e os adeptos são quem por lá passa apressado, à pé, no ventre do autocarro ou no volante do carro, o drible perfeito admirado na fração de segundos entre o sinal vermelho e o verde, o belo gol um privilégio para quem faz do assento da paragem no passeio uma tribuna de honra.
Um futebol acima de tudo colaborativo.
De repente, o peão distraído rumo ao compromisso é convocado a participar do jogo pelo potente assobio do jogador que errou o alvo. Daí, o executivo livra-se da pasta e se transforma em um guarda-redes de fato e gravata, evitando o destino fatal da bola rumo à avenida. No relvado, os companheiros de equipa de última hora agradecem à importante defesa numa salva de aplausos.
E o executivo recolhe a pasta e segue atrasado à reunião, mas com uma bela história para contar.
Bola reposta, o jogo recomeça. E lá vai o jardineiro, avançado nas horas vagas, cortando o relvado, a bola plantada nos pés, rumo ao golo. Só não contava encontrar pela frente o pé de ferro do soldador-defesa-central. É falta? Não é? Na pelada da Alameda, o VAR é o jogador à beira do campo à espera de entrar, que balança a cabeça negativamente, sem titubeios.
E no fim do jogo, não há derrotados, só campeões.
Não driblo, não chuto, mas tenho orgulho de fazer parte deste time, pois no inclinado campo da Alameda, todos os imigrantes estão na mesma equipa.
Imigrantes que defendem as várias cores, os vários tons de pele, de quem escolheu Lisboa para viver, mesmo que quase nunca – hoje, infelizmente, menos ainda – sejam tratados como parte do jogo, merecedores de participarem da imensa claque lisboeta.
Pelo contrário, quem veste a camisola do Imigrante Futebol Clube tem sido tratado como adversário, sujeito à constante mudança de regulamento com o campeonato ainda em andamento, aos pontapés pelas costas, à ira dos ultras, ao cartão vermelho injusto e à eterna ameaça de expulsão, quando todos sabem que o futebol é, antes de tudo, um desporto coletivo.
E só faz sentido, só é justo, quando as regras são as mesmas para todos.
A idílica partida no relvado inclinado no coração de Lisboa termina, mas na semana que vem a bola volta a rolar. Os jogadores do Imigrante Futebol Clube sabem, o jogo não para, prossegue mesmo após o último apito, pois os sonhos não morrem.
E a esperança dos craques do Imigrante Futebol Clube é de que a história dessa partida pode sempre virar.

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