Pirilampos
Foto: Unsplash

Ver pirilampos, um hábito de infância para alguns, tornou-se um pequeno milagre luminoso. Entre as luzes da cidade, Lisboa já quase não os vê. “As pessoas deixarão com o tempo de observar pirilampos nas noites de primavera e verão, o que será uma surpresa desagradável para aqueles que se lembram dos tempos de criança. As novas gerações ficarão impedidas de ver um dos maiores espetáculos da natureza” avisa Gonçalo Figueira, 47 anos, antropólogo e coordenador da iniciativa Lightalive, um projeto que já há mais de 15 anos monitoriza e conserva biodiversidade, com um maior ênfase nos “seres bioluminescentes”, ou seja, os pirilampos.

Na área metropolitana de Lisboa, ainda há lugares para os ver. Em Sintra, por exemplo, ainda há noites de verão em que a serra brilha. Não são postes de luz ou carros a passar — são pirilampos. Também na serra da Carregueira e no parque florestal de Monsanto. Estas zonas, apesar da sua proximidade de áreas urbanas, ainda detém condições favoráveis para sobrevivência destes insetos luminosos.

No Parque Florestal de Monsanto, o “maior pulmão verde da capital” e a maior concentração de pirilampos de Lisboa, “tem-se notado um decréscimo notório”, conta Gonçalo. “Existem regiões em Portugal onde o declínio está confirmado.” A visão é clara: quanto mais se expande as frentes urbanas ou a agricultura intensiva, mais os pirilampos diminuem — ou desaparecem.

O projeto Lightalive — ou luz viva, se traduzido — tem vindo a criar, desde 2018, uma rede de reservas que se encontra em expansão, mas já soma 16 espaços protegidos, no qual participam tanto especialistas como entusiastas. Mafra, Porto, Sintra, Rogil, Faro, Cantanhede, Reguengos, Leiria, Palmela, Coruche, Viseu e Paços de Ferreira são as regiões por onde as reservas se espalham. Algumas das reservas são áreas privadas, necessitando de autorização prévia dos proprietários para poderem ser visitadas, outras mantém a suas portas abertas ao público.

“O trabalho de gestão nas reservas Lightalive passa por não perturbar as zonas chave onde há populações de pirilampos, por não usar pesticidas e não utilizar iluminações artificiais em excesso. Em algumas reservas faz-se também reabilitação de habitats.” explica o coordenador da iniciativa.

Esses espaços com espécies autóctones preservadas, pouca ou nenhuma iluminação artificial e onde a presença de pesticidas é reduzida ou nula, tornam-se no local ideal para os pirilampos habitarem. A bioluminescência depende da preservação de ecossistemas como esses.

Sem essas condições, os pirilampos não conseguiriam alimentar-se, reproduzir-se — e, inevitavelmente, brilhar.

Hoje, proteger os pirilampos exige mais do que vontade. Exige ações concretas. Mapear as populações e conservar os seus respectivos habitats, evitar o uso de pesticidas e reduzir a iluminação artificial, são algumas das ações necessárias para proteger estes pequeninos insetos luminosos.

Um dos maiores desafios para garantir a preservação da espécie continua a ser uma das bases: “É a educação, conseguir fazer chegar de forma eficiente à população e aos órgãos governativos as nossas preocupações e propostas.”

Uma noite iluminada em Sintra

Os pirilampos já não iluminam as ruas de Lisboa, mas em Sintra, continuam a brilhar. Foi um apaixonado por Sintra, José Manuel Dias Pereira, 53 anos, guia turístico e fundador da Lynx Travel, que organiza trilhos noturnas onde os participantes podem voltar a ver as luzes que em tempos brilham nas noites de verão.

José Pereira, o guia que mostra os pirilampos na Serra de Sintra. Foto: Mariana Riscado

A Lynx Travel nasceu em 2011, de forma singular. Foi num café que José Pereira decidiu fazer do seu hobby, trabalho. “Estava a beber um café e dizia no pacote de açúcar, “Um dia eu transformo o meu hobby num negócio”. Eu peguei nessa ideia e decidi criar a Lynx Travel. Eu já fazia trilhos pontualmente, mas decidi, a partir desse momento, profissionalizar essa atividade.”

“Em busca da floresta encantada: Trilho dos pirilampos” acontece numa época especial para os pirilampos, a época de acasalamento. O fenómeno, que decorre entre maio e junho, permite às pessoas observar de perto o brilho característico dos pirilampos — brilho esse que ocorre no fenómeno de acasalamento — em plena serra de Sintra.

O trilho dos pirilampos percorre a serra de Sintra e passa por zonas pouco iluminadas, envolvidas por vegetação densa — arbustos, carvalhos e outras espécies da serra. A ideia é simples: com a lanterna desligada, deixar que os olhos se habituem à escuridão enquanto observam a serra, atentos a qualquer pequeno sinal de luz.

“Apesar de termos um auxiliar, que será uma lanterna ou um frontal, a ideia é irmos com as luzes apagadas sempre a observar para ver quando é que os pirilampos aparecem” explica José.

O passeio começa ainda de dia. Foto: Mariana Riscado

O trilho é, no entanto, mais do que um simples passeio noturno para observar pirilampos, é também uma forma de sensibilizar as pessoas para a importância da preservação ambiental: “Toda esta experiência tem como objetivo também sensibilizar as pessoas para a proteção da natureza, tendo em conta que estamos num parque natural e há muitos cuidados a ter em conta” sublinha o guia.

A experiência foi pensada como algo único — e não se deverá repetir. Segundo José, o lema da Lynx Travel é “sempre por um caminho diferente”, evitando experiências “massificadas” e procurando, em cada saída, trilhos e percursos novos.

O brilho que vem da química

Observar a luz produzida pelos pirilampos é também uma forma de entrar em contacto com um fenómeno natural, a bioluminescência. É através desse processo que os pirilampos produzem a luz que se vê nas noites de verão.

Vasco Bonifácio, professor no departamento de Bioengenharia do IST, Instituto Superior Técnico e também investigador do iBB, Instituto de Bioengenharia e Biociências do IST, explica que a bioluminescência é um processo químico que se dá no abdómen do macho, composta por três componentes: uma enzima, a luciferase, um composto, luciferina e oxigénio. É com estes três componentes que o pirilampo, através de uma reação biológica, produz luz.

Já no laboratório a história muda. É possível criar, através de um processo artificial, um produto similar às luzes dos pirilampos.

“No laboratório nós substituímos a enzima e o composto, por outros reagentes. Usamos o luminol, um composto para dar a cor e usamos água oxigenada como agente oxidante, em vez do oxigénio” explica o químico.

Já alguma vez utilizou uma pulseira florescentes em algum festival ou festa?

Muitas dessas pulseiras são produto da quimioluminescência, o processo químico realizado nos laboratórios. “Dentro do tubo de plástico têm lá o composto e o corante, e depois têm um capilar de vidro com água oxigenada. O que fazemos é, ao torcer a pulseira, partimos o tubo capilar que vai libertar água oxigenada e fazer a reação química com os outros componentes químicos que lá estão dentro.”

Mas este processo químico vai para além da criação de pulseiras florescentes. A reação do luminol é usada para a deteção de sangue — que não pode ser visto a olho nu — na investigação criminal. A reação entre este composto e lixívia provoca uma emissão de luz azulada, a quimioluminescência, que quando entra em contacto com sangue, mesmo que seja invisível a olho nu, o torna visível. Esta reação é também uma ferramenta fundamental na investigação criminal.

Bruno Reis

Tenho 21 anos e sou natural de França, apesar de ter vivido desde criança em Portugal. Desde pequeno tive um gosto pela escrita, maioritariamente uma escrita mais criativa ficcional. Apesar de nunca ter perseguido, ou tentado criar algo original do início ao fim, a liberdade e a beleza da escrita manteve-se sempre nos meus pensamentos. Sou aluno do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Viseu e vim para a capital para estagiar na Mensagem de Lisboa. More by Bruno Reis

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