Com quase 70 mil habitantes — mais do que a população inteira da Gronelândia ou que todo o concelho de Santarém — Algueirão-Mem Martins é a freguesia com mais pessoas de Portugal. Em tempos, o último subúrbio da Linha de Sintra — a derradeira paragem antes da vila e da serra — foi mesmo a mais populosa freguesia da Europa.
Apesar disso, é um deserto noticioso — são poucos os meios de comunicação social que cobrem periferias como esta, tanto que o Projeto Narrativas da Mensagem de Lisboa selecionou precisamente Algueirão-Mem Martins como um dos locais com estas características para receber a nossa redação pop-up.
Embora seja uma freguesia relativamente jovem — mais de 27% dos habitantes têm menos de 24 anos, de acordo com os dados dos Censos de 2021 — e haja uma vasta atividade artística, Algueirão-Mem Martins é também considerado pelos locais como um “deserto cultural”. Não há espaços abertos ao público para consumir ou produzir cultura.
“Enquanto jovem nascido em Algueirão-Mem Martins, cresci sem nunca ter assistido a um espetáculo ou vivenciado uma iniciativa cultural significativa na minha freguesia”, sublinha o agente e produtor cultural Rodrigo Faria, que trabalha com o coletivo artístico Unidigrazz.

“Essa ausência foi determinante para eu me juntar aos Unidigrazz, acreditando que os artistas locais podem — e devem — contribuir ativamente para transformar o território onde vivem.”
Foi com esse espírito que ao longo dos últimos quatro anos desenvolveram uma ideia que agora se irá materializar: a 23 de maio, é inaugurado o Ponto Kultural, um espaço que pretende oferecer condições e recursos “a quem quer criar, experimentar e contribuir para um novo imaginário cultural da Linha de Sintra”.
“Mais do que um centro de criação, é um processo de transição — um ponto de viragem para o território”, realça Rodrigo Faria, um dos responsáveis pelo projeto, com direção artística dos Unidigrazz, que se vai iniciar, pelo menos durante um ano e meio, por agora com investimento da Fundação Calouste Gulbenkian, da Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins e da Câmara Municipal de Sintra.
“Aqui também há excelência”
Esta freguesia tornou-se num dos grandes bastiões da cultura hip hop em Portugal. Mas, dos Rádio Macau aos Excesso, passando pelos Ocaso Épico (entre tantos outros que fizeram dali a sua casa, como Marco Paulo ou Max), Algueirão-Mem Martins é a origem de muitos outros músicos. Noutros campos artísticos, destacam-se o trabalho do Teatro Corrente nas Mercês, do bailarino e coreógrafo Miguel Albino ou, em tempos idos, do pintor João Alves de Sá, entre vários outros exemplos.
Mas sempre fez falta “uma ponte”. Que é exatamente aquilo a que o Ponto Kultural quer ser. “Queremos conectar artistas, escolas, associações e entidades culturais locais com instituições nacionais como a DGArtes, fundações, escolas artísticas e meios de comunicação. É fundamental dar visibilidade às práticas culturais da periferia. Dar palco ao que de positivo acontece nestes territórios. Mostrar que aqui também há excelência, inovação, pensamento e arte contemporânea.”
Cultura, sim, mas nunca de nicho.
Querem que o projeto seja “acessível a todas as gerações, onde a educação cultural, a experimentação e a formação caminhem lado a lado”, remata Rodrigo. “Defendemos a informalidade como fonte legítima e rica de cultura. Há muitas culturas dentro de uma só cultura — e o nosso compromisso é com todas elas. A nossa porta está aberta para todos os que queiram criar, pensar e transformar. Porque a cultura também é um direito, e o nosso papel é ajudar a garanti-lo.”
Nas últimas décadas, a cultura urbana emergente tomou conta de boa parte do imaginário da freguesia e tornou-se numa das principais exportações locais, para todo o país e não só.
“Acreditamos que o potencial artístico que existe na Linha de Sintra é único. Noutras capitais europeias, este capital humano, esta criatividade e espontaneidade artística, seriam plenamente aproveitados. No entanto, sentimos um subaproveitamento evidente, tanto por parte do município como por algumas entidades culturais existentes, que continuam muitas vezes desligadas da realidade criativa local.”
Do cine-teatro Chaby Pinheiro ao Doiseme: a cultura ao abandono em Mem Martins
Apesar da imensa população e atividade artística, não existem praticamente espaços culturais a funcionar na freguesia. Não existe um teatro ou um cinema.
Há mais de uma década que o cine-teatro Chaby Pinheiro, entretanto convertido em centro comercial, está ao abandono no centro de Mem Martins.

O Doiseme, que foi cinema durante as décadas de 80 e 90, encontra-se na mesma situação. A programação cultural pública acontece nas épocas de festas como o Carnaval ou os feriados locais, mas não existe uma lógica de atividade cultural permanente.
Nos últimos anos, uma nova geração de criativos determinados em fazer a diferença tem despontado na freguesia. São artistas, agentes ou produtores culturais que, mais do que tudo, querem dotar a sua zona de espaços de cultura, valorizando os territórios periféricos que servem de inspiração e matéria-prima — e são críticos da falta de apoios e infraestruturas locais, que contrasta com a vasta massa artística da região.
Fomos conhecer (e ouvir) alguns deles:
Ivânia: fazer tudo… do nada
Com 27 anos, Ivânia Pessoa é uma designer, curadora e diretora artística freelancer de Mem Martins. Descreve-se como uma “artista não praticante” — não exatamente por escolha própria — e pertence à associação Clarabóia, que organiza eventos culturais em Sintra como as feiras de artes visuais e, desde o ano passado, o Festival Clarão.
É ela a responsável pelas feiras anuais que juntam algumas dezenas de artistas e marcas artesanais. O projeto começou na Biblioteca Municipal de Sintra, tendo passado depois para o Mercado Municipal da Serra das Minas, onde a terceira edição se irá repetir no próximo verão.
“Em Sintra é sempre muito complicado produzir alguma coisa nas artes visuais: onde é que podemos expor?”, questiona Ivânia. A falta de espaços é evidente e as feiras — que só duram um dia e não conseguem ter o mesmo impacto do que uma exposição que pode ser visitada durante vários meses — foram uma solução encontrada para preencher a lacuna.

“Quando saímos da biblioteca de Sintra, foi um pesadelo encontrar um sítio. Precisávamos de um espaço com determinadas valências. Tentámos em parques de estacionamento, em mercados, jardins, em escolas abandonadas… Depois começámos a ver espaços privados, mas ainda foi pior.”
O Mercado Municipal da Serra das Minas, numa localização central desta zona que já pertence à freguesia de Rio de Mouro, acabou por ser uma escolha feliz — mas mantém-se a evidência que é desafiante encontrar um local apropriado para expor e comercializar obras de arte. “Dizem que o mercado também vai entrar em obras em breve. E depois, para onde é que vamos?”
No ano passado, a Clarabóia organizou um ciclo de concertos na Linha de Sintra. Graças, mais uma vez, à falta de espaços pensados para a cultura, uma das principais atuações, que juntou os rappers Real Guns e DansLaRue, aconteceu num ringue de boxe. Ivânia Pessoa argumenta que conseguiram transformar o desafio numa vantagem, embora isso evidencie outro problema gritante — e mais profundo e transversal — no que diz respeito aos hábitos culturais em Portugal.
“Também é fixe não ser um espaço dedicado à cultura, porque já foi comprovado por vários estudos que as pessoas que não estão habituadas a consumir cultura fogem dos espaços culturais”, diz a designer, que tirou precisamente um mestrado nesta área de estudos culturais. “Olham para a fachada de um teatro e pensam: isto não é para mim. Então simplesmente não vão. Estamos a criar oferta num sítio em que não existe, já estás a resolver um problema, mas mesmo assim não é suficiente porque é um problema que vem da educação. Era muito importante que as escolas tivessem um papel ativo no consumo cultural.”
A capacidade de comunicar os eventos e de atrair público é outra das principais dificuldades sentidas pelos agentes culturais locais. A própria Clarabóia, que pretende trabalhar em Sintra, não tem um espaço próprio e os seus membros reuniram-se, durante muito tempo, em Lisboa.
“Da mesma forma que existem os núcleos da catequese, poderia existir um núcleo com materiais para se as pessoas quisessem experimentar coisas, ou só um espaço de ensaio ou um estúdio… Cada junta de freguesia, da mesma maneira que tem um polidesportivo, podia ter um polo cultural para as pessoas criarem. Sempre que procurei um espaço, ia para o Imovirtual, nem pensava que isso poderia ser assegurado pela junta ou pela câmara. Mas a cultura também é um direito.”
A proximidade com a capital também dificulta a que as suas periferias consigam emancipar-se culturalmente, a desenvolver um circuito artístico próprio. “Temos aqui muitos jovens artistas, mas não deixa de ser uma área residencial. É ingrato compararmos com Lisboa, uma capital cheia de espaços que foram pensados há anos e que tem outra movimentação. Há uma capital que acaba por sugar tudo aquilo que existe à volta. O facto de estarmos tão perto de Lisboa vai ser sempre uma barreira.”
Além disso, a cidade já não é a mesma, até para os criadores. “A Lisboa de há 10 anos era completamente diferente do que é hoje. Agora é tudo muito turístico, perdeu-se essa essência. Também me virei para Sintra por isso. É interessante vir para esta zona e procurar descentralizar”, diz.
Além da Clarabóia, associações como a Jipangue, a Narrativa Aleatória, a Dínamo ou mesmo a Fundação Aga Khan — que por vezes têm cooperado enquanto parceiras — têm feito esforços no mesmo sentido, de descentralizar a cultura feita na região de Lisboa e de potenciar zonas residenciais periféricas como possíveis espaços de criação e consumo artístico.
“Juntos somos mais fortes e temos notado esse crescimento”, reforça Ivânia Pessoa. “Os artistas vivem sempre da esperança.”
Miguel Pedro: do supermercado para manager de um dos músicos mais populares do país
Hoje é o agente de um dos mais populares rappers do país, Julinho KSD. Mas, durante muito tempo, Miguel Pedro era apenas um amigo que procurava ajudar o antigo colega de escola na fase embrionária da carreira. Com o grupo Instinto 26, tornou-se em mais uma das figuras de destaque a emergir do panorama hip hop de Mem Martins — e, em particular, do bairro do Casal de São José.
Empenhado em ajudar os amigos a organizarem o canal de YouTube e a desenvolverem um projeto artístico, Miguel Pedro poupou o pouco dinheiro que recebia do emprego que tinha num supermercado para comprar um computador a Diogo “Gazella” Carvalho — cineasta, artista local e um dos membros dos Unidigrazz. Era a única forma que tinham de o conseguirem recompensar pelos videoclips que, a partir dali, Diogo iria gravar para os Instinto 26.

Tudo mudou quando, em 2019, o single “Sentimento Safari” explodiu inesperadamente online. “Estava no trabalho no supermercado e a receber e-mails da Universal, da Sony, da Warner… Aquilo para mim era super estranho”, recorda Miguel Pedro. “Nunca tive qualquer formação, então foi muito difícil. Percebi que tinha feito um investimento de dinheiro e de tempo, mas que estava zero preparado quando o momento chegou.”
Acabou por entrar em contacto com outros agentes que trabalhavam com rappers em Portugal, procurando informar-se e dotar-se de ferramentas. Quando aos contactos das editoras somaram-se os pedidos para concertos, Miguel sentiu-se tão assoberbado que simplesmente se despediu do supermercado e começou a dedicar-se em exclusivo à carreira dos amigos — mesmo que a profissionalização ainda estivesse longe e o dinheiro ainda não tivesse chegado às contas bancárias.
Hoje, com uma carreira consolidada e muitas dezenas de concertos por ano, Julinho KSD e os seus Instinto 26 continuam na berra. E Miguel Pedro tornou-se um profissional da cultura.
Por onde quer que vão, do Minho ao Algarve, dos Açores a Cabo Verde, levam consigo a bandeira de Algueirão-Mem Martins, a base e essência de tudo, repetindo um código-postal que por esta altura já se deve ter tornado no mais famoso de todo o território nacional, tal é a sua presença no imaginário da música urbana contemporânea: 2725.
Embora sejam autênticos embaixadores da sua freguesia, tudo o que conquistaram foi a pulso e sem apoios das instituições públicas locais. Começaram por gravar as músicas nos estúdios caseiros de amigos. Hoje, Julinho KSD, embora só tenha 27 anos, já é uma referência que procura redistribuir o seu sucesso com a comunidade. Abriu o seu estúdio em Mem Martins através do selo Kuza Doxi — permitindo a muitos outros poderem gravar livremente as canções que escreviam e compunham no quarto.
“O Julinho pode e deve ter esse papel, mas Mem Martins já deu muitas provas de que é super necessário haver espaços deste género”, acredita Miguel Pedro. “Se tivéssemos tido isso no início, teria sido muito mais fácil. Podem estar a perder-se bons artistas por não haver esses espaços. O próprio Julinho sente que é difícil — entre todo o trabalho e a vida pessoal — dar a mão a toda a gente. Ele vai querer sempre ajudar, mas acho que esse papel não pertence ao Julinho, Mem Martins deveria ter o seu espaço e poderia ser um polo cultural incrível… As juntas apostam em polidesportivos, estão ali os miúdos a jogar à bola… Agora, a arte é menos palpável para eles. ‘Queres um espaço para quê? Vais lá fazer o quê?’”
A incompreensão face à cultura, sublinha, sente-se em todos os aspetos da sua vida. “Até hoje, para os meus pais, isto não é bem um trabalho. Eu percebo, são gerações muito diferentes. O meu pai diz que sou agente de uma banda de rock. Se calhar ele começou a levar isto mais a sério quando ouviu o amigo do filho dele a tocar na rádio, mas é difícil em Portugal levar-se isto como trabalho. Hoje ajudo em casa, vivo disto e eles já olham para isto de uma maneira mais séria, mas demorou muito tempo.”
DansLaRue e o ecossistema local do rap e da cultura urbana
Tinha apenas 14 anos quando se começou a envolver na comunidade hip hop local. Sempre fora um ouvinte devoto de rap, mas de repente estava a fazer trabalhos de design para artistas locais. Incentivado pelos mais velhos, entre o design, a fotografia e a música, DansLaRue foi-se tornando também ele um artista em ebulição no prolífico universo do rap de Algueirão-Mem Martins.
Começou por fazer parte de um coletivo, os Double M, antes de se lançar a solo em 2023 com “Niggas Sta Trap”. O primeiro e único concerto que deu na sua zona foi no tal evento promovido pela Clarabóia num ringue de boxe.
“É fatela viveres numa zona com tantos artistas e não teres nenhum espaço cultural”, diz DansLaRue. “Vais ao bairro e vês miúdos a começar a cantar, sempre vai haver. Eu vi os outros e aconteceu comigo, também vai acontecer com os outros a verem-me a mim e a nós. E nunca houve um espaço para nos aglomerarmos, sempre tivemos de ir fora.”

DansLaRue participou na construção do único estúdio de música verdadeiramente aberto ao público na freguesia — da associação ACAS Sintra, no Casal de São José —, mas trata-se de um espaço destinado aos mais novos, para que possam ocupar os tempos livres de forma produtiva após saírem da escola. Não há respostas locais, seja de associações ou entidades públicas, para pessoas com mais de 16 anos.
“Ao termos um espaço na nossa zona, na nossa casa, sentirmo-nos-íamos muito mais abraçados e concretizados. Depois de tanta caminhada, conseguimos”, diz o rapper, que acredita que o espírito de entreajuda que já existe de forma espontânea só sairia enaltecido caso existisse um espaço artístico de trabalho comum.
“Mas é preciso que seja uma coisa que não dure um ano e depois pare, preferia que fosse algo permanente, porque sei que isso daria frutos. Não pelo dinheiro ou pelas visualizações, mas pela cultura. Se dermos uma volta por Mem Martins, vamos ver putos que não estão na escola, a faltar às aulas e a fazer coisas que não deviam. Se existisse um espaço onde podem estar no computador ou a fazer coisas mais produtivas… Porque, se não, já se sabe o caminho. Vais ao bairro, vês ali muita gente e ficas ali preso. Dás por ti e passaram cinco anos. E em vez de ajudares os outros para que eles não fiquem na esquina como tu, vais ser mais um do círculo vicioso.”
O tal espírito local de entreajuda refletiu-se, por exemplo, quando Julinho KSD lhe abriu a porta do estúdio para gravar livremente as suas canções. “Aconteceu algo de que nunca me vou esquecer, o Julinho chegou ao pé de mim e disse: ‘mano, sei que tens bué cenas para gravar, toma lá a chave do estúdio’. Demorou meia hora a ensinar-me tudo e foi uma semana para o Algarve. E sei que o próximo a bombar também vai tentar fazer isso pela zona.”
DansLaRue esta a ambição… e imaginação: “Imagina um espaço como o Chaby Pinheiro a existir para a cultura? Teres lá um produtor, os miúdos e o pessoal do rap, ao lado podes ter uma loja com discos e merchandise… Se calhar só num raio de 10 metros quadrados tínhamos orçamento para fazer videoclips, mais isto e aquilo.”
Rita Campiã: profissionalizar-se fora para investir dentro da comunidade
Natural da freguesia, Rita Campiã tem trabalhado de perto com os Unidigrazz enquanto produtora e também será uma das pessoas que vão trabalhar no novo Ponto Kultural. Foi em 2020 que, incentivada pelos artistas e amigos Tristany Mundu e Onun Trigueiros, tirou um curso nesta área na escola World Academy, em Lisboa. Estava a formar-se no centro da capital, mas de olhos postos na periferia: o objetivo, mais do que claro para si, era desenvolver projetos na sua zona.
“Foi por isso que fui tirar o meu curso, esse era o meu principal objetivo, sempre foi contribuir mais para Sintra.”

De trabalho em trabalho, num mercado frequentemente precário, tem conseguido profissionalizar-se. Tem trabalhado em diversos projetos com Tristany Mundu — como a exposição recente que esteve no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian — mas também organizou as mostras do festival de cinema de animação Monstra, geriu os bastidores da ModaLisboa ou a logística de acessos no Boom Festival.
Embora gostasse de trabalhar na sua freguesia ou no seu concelho, nos últimos cinco anos só se deparou com uma única vaga de trabalho em Sintra. “A pouca programação que é feita aqui não está direcionada para o público, sobretudo para os mais jovens. Portanto, não há público nem há muito trabalho, são poucas as oportunidades, são sempre os mesmos sítios com equipas fixas. Eu sou trabalhadora freelancer, passo de trabalho em trabalho, e em Sintra não há essa possibilidade — não há eventos pontuais, isso também não acontece.”
Embora seja um dos concelhos mais populosos do país, Rita Campiã acredita que a falta de hábitos culturais está diretamente relacionada com a falta de educação nesse sentido. “Falta educação cultural, o acesso à cultura não existe. Em 12 anos de escola, fui uma vez ao teatro ver o ‘Auto da Barca do Inferno’, e saímos só nesse dia e fomos só fazer isso. A escola fez zero para conseguir criar uma ligação com a cultura.”
E não exatamente porque ela não exista.
“Temos aqui o Olga Cadaval ao lado, nem sequer nos meteram a ver peças nem nunca nos disseram que havia ali um teatro. Há imensos atores que levam o teatro às escolas, isso também não aconteceu nas escolas em que andei, nunca levaram lá artistas. As atividades extracurriculares também eram poucas ou nenhumas, sinto que essa promoção da cultura não existia e isso tem consequências.”
Mais uma vez, a incompreensão generalizada em torno das profissões ligadas à cultura também é uma realidade. “Os meus pais não compreendem o que faço, estou sempre em festas porque um evento é uma festa, e como não trabalho numa televisão ou algo com um grande nome não é bem um trabalho. Começaram a perceber que poderia ser um trabalho quando comecei a trazer algum dinheiro. E mesmo quando fui tirar o curso havia uma grande incompreensão, de realmente eles não conseguirem perceber o que poderia vir daqui e o que é que eu faço.”
Para si, o Ponto Kultural vem preencher a lacuna óbvia que é a falta de espaços artísticos em Algueirão-Mem Martins. “Vamos descobrir muita arte porque vamos conseguir estimular os nossos jovens… Sinto que devemos ter tantos artistas escondidos, porque não há ninguém que te direcione para seguires o caminho da arte. Com a quantidade de coisas que vamos gerar, talvez aí consigamos aliciar o município a dar-nos uma maior ajuda e a conseguirmos criar um centro aqui, para deixarmos de ter de nos deslocar para ir ver concertos ou teatro, porque estamos a gerar cultura com as pessoas da nossa própria zona. E dar espaço a esses artistas que, provavelmente, no centro não teriam essa oportunidade ou validação.”
Diogo “Gazella” Carvalho: e se Algueirão-Mem Martins fosse uma “capital da cultura”?
Diogo “Gazella” Carvalho é um dos membros dos Unidigrazz, ao lado de Tristany Mundu, Onun Trigueiros, Sepher AWK e Rappepa Bedju Tempu. Cineasta, guionista, artista visual, o seu trabalho artístico desdobra-se em múltiplos formatos e tem vindo a ser reconhecido ao longo dos últimos anos, entre exposições e videoclips, peças de teatro e ilustrações para órgãos de comunicação social.
Neste momento, está a trabalhar num projeto com outros realizadores e argumentistas afrodescendentes para uma série da RTP que procura precisamente dar voz a esses criadores. Novas Narrativas de Caça é uma série de antologia criada por Luis Almeida, ainda sem data de estreia confirmada.

“Eu peguei numa história que já tinha trabalhado para teatro e adaptei-a para o meu episódio. É uma história dos subúrbios. Tem esse lado que eu achava que era pertinente, é mais expectável do que outras mas tem esse lado fiel de alguém que está mesmo lá — e não um olhar muito romântico. Tentei que as personagens fossem naturais, complexas e não fossem estereotipadas, que fossem tridimensionais. Fui buscar quase um lado shakespeariano da coisa, aquela ideia de novela”, antecipa.
Toda a trajetória dos Unidigrazz tem vindo a acontecer neste sentido, de valorizar a cultura urbana das periferias e criar valor em territórios tantas vezes estigmatizados ou, pelo menos, esquecidos pelos grandes centros de poder.
“Sempre houve essa necessidade e o que fez aparecer os Unidigrazz foi isso, essa falta de sítios onde criar e estar com outros criadores. Termos de ir sempre a Lisboa porque em Mem Martins não tínhamos sítio onde pudéssemos criar — havia sítios, mas eram os nossos quartos ou os cantos da rua. Ter mesmo um sítio específico era algo que não havia e foi essa necessidade que nos juntou e nos fez organizar — não só para nós, mas também para outros artistas de Mem Martins.”
A falta de locais com este fim, para Diogo “Gazella” Carvalho, é mais uma prova do “afastamento” das instituições e das políticas, uma evidência de como “veem as periferias”.
Surgiu, então, a ambição de criar um “lugar digno” para que os artistas possam construir os seus trabalhos e projetos, num espírito comunitário de entreajuda, num espaço que também possa servir como “rampa” para quem normalmente não tem um local onde se possa “adquirir uma tela, misturar um som, dançar ou ensaiar uma peça de teatro”.
“Foi essa a ideia: ‘bora criar e transformar Mem Martins numa capital da cultura. Porque não ter essa ambição de a Linha de Sintra ser como Amesterdão, Londres ou Berlim? Há a ideia de que as periferias de Lisboa são apenas um dormitório, que as pessoas trabalham no centro e depois vão para lá descansar, mas a ideia é que se torne mais do que isso, que os sítios onde as pessoas estão também sejam o centro.”
Algueirão-Mem Martins é um deserto de notícias. Veja aqui como o Projeto Narrativas, da Mensagem, tentou mudar isso

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Depois do que li, só posso lamentar a falta de entendimento do poder local. Não é só a falta de espaço físico para a cultura. A falta de visão para que a harmonia dos espaços seja aproveitada para o bem comum não existe. Só vou dar um exemplo: na Tapada das Mercês, o espaço que foi durante alguns anos um campo de ténis (e que se criou a ilusão que veria a ser uma piscina) virou no ano passado uma Mercadona.
A Tapada esteve anos e anos a fio, sem supermercado no espaço central. No ano da Pandemia aparece o Pingo Doce nas instalações do Floresta Center, a uns escassos metros da Mercadona.
A Tapada não tem zona de lazer de espécie alguma, nem para velhos, nem para crianças, e muito menos para mães com bebês para passear com os carrinhos.
Se a Câmara tivesse projetado no referido espaço, já que iriam utilizar mais betão, então poderiam, ter feito instalações úteis para a população. Não só a piscina , mas várias salas nas quais se incluiria o espaço cultural que falam e que tanto precisam.
Se nesta freguesia nem sequer cuidam dos espaços verdes, não limpam como deve de ser as ruas, pracetas, e até foram retirados os avisos para se apanharem os dejectos dos animais domésticos, muito menos teremos espaços de cultura. Em primeiro lugar teremos que educar os munícipes, nestes pequenos gestos e haver uma articulação efetiva entre os vários serviços da junta de freguesia, para que os vários espaços se tornem aprazíveis e limpos para todos os que aqui habitam.