Sempre gostei de bibliotecas. Grande parte da minha adolescência foi passada nas mesas da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, cidade onde nasci e cresci. Além dos livros e do silêncio que eu muito procurava, adorava lá estar porque, da mesa onde lia e escrevia, conseguia vislumbrar os Jardins do Palácio de Cristal.
Durante muito tempo, sempre que visitava uma nova cidade, era hábito meu dar um salto à biblioteca municipal. Uma biblioteca que me marcou particularmente foi a de Amsterdão: gigante, com um coleção de 1,5 milhões de livros, jornais, CD’s, DVD’s, jogos… e uma vista invejável sobre o rio Amstel.
Quando me mudei para Lisboa, confesso que me cingi quase sempre à biblioteca da faculdade da Nova FCSH (onde passei belas tardes), com uma ou outra exceção em que visitei a Biblioteca das Galveias, a de São Lázaro (mais desconhecida, mas maravilhosa!) e, claro, a monumental Biblioteca Nacional.
Há quase dois anos, mudei-me de Santa Engrácia para os Olivais Norte, numa aventura que já aqui relatei. Com o trabalho e a pressa do dia-a-dia, fui perdendo o hábito de ir à biblioteca, e, com isto, admito (com alguma vergonha) não ter ainda conhecido as bibliotecas da zona: ouvi falar da Biblioteca David Mourão-Ferreira, no Parque das Nações, e, mais recentemente, apercebi-me de que a Biblioteca dos Olivais, nos Olivais Sul, está encerrada desde 2021.
Mal vi a fotografia da Biblioteca dos Olivais, apaixonei-me. Apaixonei-me por este edifício que nunca antes vira, apesar de estar tão perto de minha casa. É a prova de que até os jornalistas se esquecem de procurar histórias ao fundo da sua rua.
A Biblioteca dos Olivais inaugurou em 1996 (curiosamente, o ano em que nasci) num edifício que fora, em tempos, uma nobre quinta: a Quinta do Contador-Mor, que data de finais do século XVII e inícios do século XVIII. O palacete, bordejado de verde, ganhou esse nome graças a Lourenço Rodolfo van Zeller, contador-mor do reino, que arrecadou esse cargo quando a mãe, Teresa Crisostoma Van Praet, o comprou por 42 contos de reis.
Nos anos 50, a Quinta foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, acolhendo viveiros, espaços verdes e ateliers para artistas. Em 1996, para além da biblioteca, inaugurava-se ainda a Quinta Pedagógica dos Olivais, em terrenos de uma segunda propriedade de Rodolfo van Zeller.


Não cresci só a ler os livros da Almeida Garrett, cresci sobretudo com os livros com que os meus pais muniram a nossa casa. A essa biblioteca falta-lhe arrumação (estende-se pelo escritório, quartos e até mesmo pelos corredores), mas abarca títulos que marcaram a infância de todos nós, incluindo a do meu pai, que devorava os livros de banda desenhada do Tintim ao Lucky Luke, ao Astérix, ao Blake e Mortimer…
Não imaginam, pois, a minha alegria ao descobrir que a Biblioteca dos Olivais acolhe uma valiosa coleção de bandas desenhadas: a Bedeteca, que foi fundada por João Paulo Cotrim! O nosso ilustrador Nuno Saraiva já dedicou uma BD a este espaço emblemático, que aliás inaugurou com uma exposição sua de uma outra banda desenhada, a “Filosofia de Ponta”. Assim que reabrir, parece-me uma excelente desculpa para que o meu pai me venha visitar mais vezes (fica a dica caso ele me esteja a ler!).


Embora guarde muitas das personagens da infância do meu pai também no meu imaginário, a verdade é que nunca fui fã de banda desenhada como ele. Sempre gostei mais de romances, especialmente dos fatais do século XIX, que não poupam críticas à burguesia e aristocracia, com uma dose q.b. de sátira. Por isso, o que descobri a seguir entusiasmou-me ainda mais: corre a lenda de que a Quinta do Contador-Mor inspirou a famosa A Toca d’Os Maias. Sim, A Toca, onde Carlos da Maia e Maria Eduarda se encontravam furtivamente, um espaço literário difícil de esquecer e que, no imaginário dos olivalenses, ficaria para sempre associado ao palacete dos van Zeller.
Li Os Maias no secundário, e a verdade é que nunca mais lhes regressei. Com 17 anos, lembro-me de os levar para a Biblioteca Almeida Garrett, e de os ler também num banco vermelho dos Jardins do Palácio de Cristal. Se a descrição do Ramalhete (bem polémica para os alunos do secundário) me aborreceu, acabei o livro apaixonada pela sagacidade e ironia de João da Ega (partilho esse amor pelo Ega com a minha mãe, a quem roubei Os Maias). E lembro-me, claro, d’A Toca, alvo de piadas e risadinhas entre os alunos.
Se viajarmos no tempo e analisarmos genealogias, como fez a investigadora Rita Maria Rebelo A. Lemos no texto A Toca: Significado e Realidade, apresentado no III Colóquio dos Olivais, percebemos que há, de facto, uma relação entre Eça de Queirós e os van Zeller. Eça tinha uma relação íntima com Luís de Castro Pamplona (que se tornaria mais tarde seu cunhado), cuja filha casou com António Pereira van Zeller. É, pois, bem provável que Eça tenha visitado a Quinta do Contador-Mor.
“Logo depois do portão, penetrava-se numa fresca rua de acácias, onde cheirava bem (…) E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janelas de peitoril, persianas verdes, e a pontinha ao centro sobre três degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos.”
“Adiante estendia-se um tapete de relva, mal aparada, um pouco amarelada já pelo calor de Julho, e entre duas grandes árvores que lhe faziam sombra, havia ali, para os vagares da sesta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos fechados parecia fechar a quinta, daquele lado, como uma sebe. Depois a colina descia, com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fábrica; e lá no fundo o rio rebrilhava vidrado de azul, mudo e cheio de sol, até às montanhas de além-Tejo, azuladas, também, na faoscação clara do céu de verão.”
Descrições de A Toca em Os Maias
Embora haja investigadores céticos em relação a esta ligação, Rita Maria Rebelo A. Lemos defende que o espaço evocado corresponde ao desenho oitocentista da Quinta do Contador-Mor. Há, claro, algumas diferenças, como o banco de cortiça e as árvores, que, entretanto, desapareceram. Contudo, em relação ao interior do espaço literário, a investigadora admite que “nada”, “nem mesmo em pequeno ou elevado grau”, permite-nos chegar a uma conclusão.
O mistério permanece, mas ao mistério sobrepõe-se o mito, já mais que cimentado nos Olivais, de que Maria Eduarda e Carlos da Maia se amaram na Quinta do Contador-Mor, mesmo que agora uma fonte inequívoca o viesse desmentir!

A Biblioteca dos Olivais encerrou com a pandemia em 2020. O desconfinamento não reabriu as suas portas: eram necessárias obras no edifício. A Junta de Freguesia dos Olivais, que é responsável pela gestão deste edifício camarário, diz que as obras foram faseadas e passaram por um moroso processo burocrático. Neste momento, falta apenas a instalação de elevadores, pelo que se espera que a biblioteca reabra em março.
Enquanto aguardo, gosto de imaginar que Eça de Queirós realmente a escolheu como cenário para o romance fadado de Carlos da Maia e Maria Eduarda. E gosto ainda mais de o imaginar a escrever numa daquelas salas sumptuosas, como também alguns estudiosos defendem que terá acontecido. Será que Eça, que terminou Os Maias com dois tolos a correrem atrás de um americano, terá realmente escrito nesse palacete que, anos mais tarde, estaria envolto num imbróglio de obras e burocracia que dura há quatro anos?
Quem sabe…
Talvez seja, pois, altura de revisitar Carlos e Maria Eduarda… nem que seja numa versão aos quadradinhos!

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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