Quatro vezes por semana encarno o papel de Dante, atravessando, em 45 longos minutos, as três partes da Divina Comédia. O meu inferno começa ainda em casa quando ponho um pé fora da cama já com a consciência de que o purgatório me espera. Vestir passa a ser um processo doloroso e até os atacadores me doem. No outro prato da minha balança mental coloco todos os fundamentos da fé; algum resultado haverá de surgir, em algum momento, algum dia, neste ou noutro universo que ainda esteja por criar, noutra galáxia, noutro cosmos, infinito e mais além. Sou crente na salvação pela graça e na chegada ao paraíso prometido, apesar de me saber pecadora e merecedora do castigo que o antecede.
Às 5h45, ainda noite, chego ao ginásio, no Chiado, circulando pela Baixa de uma Lisboa deserta. A entrada personifica (agora que penso nisto, propositadamente, com certeza!), o portal do inferno, com duas imponentes portas pintadas de vermelho. Podia ser um harmonioso vermelho-carmim, vermelho-cereja ou vermelho-cardeal. Mas não. É um carrasco vermelho- sangue, vermelho-inferno, vermelho-dor-de-parto, exigindo-me obediência cega uma vez trespassadas as portas, não tolerando que a vontade que se exerce para lá delas seja contrariada.
E ali estou eu, perdida na minha metafórica selva, depois de vencer três alegóricas feras que encarnam uma só: a inércia. “Por mim se vai à cidade dolorosa; por mim se vai às penas eternas.” Surge diante de mim o espírito do poeta Virgílio, disposto a acompanhar-me numa viagem ao purgatório, chutando-me para três minutos de bicicleta para aquecer, diz ele, quando para mim a tortura já começou. Como ousa assumir que, depois disso, as três séries de lunges e agachamentos fazem ainda parte do aquecimento, não estando todo aquele sacrifício já a ser canalizado para umas pernas firmes e sem celulite?!
“Hoje vou fazer braços ou pernas?”, pergunto como se tivesse esperança numa resposta que me agrade mais do que a outra, quando as duas opções convivem dolorosamente no mesmo patamar de abnegação. “Vamos fazer um full bodyzito” – recebo uma resposta curta com um sufixo irónico, que se faz acompanhar de um sorriso sarcástico.
Burpees, mountain climbers, flexões de braços, crunches, leg extension, leg curl, jumping jacks… Tudo isto vezes 15 repetições e em três séries que, claro, quem orienta, conta sem nunca se enganar. (As pessoas que trabalham em ginásios querem que acreditemos que têm uma capacidade sobrenatural de conversar connosco sobre temas triviais enquanto contam pelos dedos das mãos e dos pés as repetições de cada série. E eu, que já só tenho o botão de “mayday” ativo, já desisti da contagem e limito-me a fazer fé de que não me enganam.)
“Agora tome lá o bosu (meia bola de borracha invertida que exige equilíbrio) e vamos (plural majestático) fazer uma prancha de um minuto”.
Depois de me ver num esforço que, vá, eu até estava a conseguir controlar, o estupor põe o seu pé de Cinderela a desestabilizar o bosu, torturando-me ainda mais os braços, os abdominais, as pernas e o cérebro! E diz o Virgílio, como homem clarividente que é: “Deve deixar-se aqui todo o receio; aqui deve morrer toda a baixeza. Chegámos ao lugar onde te disse que verias a gente condenada que o bem do espírito perdeu.”
Devo ser eu, já não na Divina Comédia, mas na minha já despida de dignidade, comédia terrena.
Nisto, eis que outro crente como eu, que devia estar preocupado com a sua própria comédia, olha para mim e exclama: “C’mon! You can do better than that!“. Incrédula, fulmino-o com os olhos, porque já nada mais em mim mexe. Em vez de um Virgílio, agora tenho dois, a conduzir- me pelo purgatório, onde as almas assistem às punições das outras almas que, por não se arrependerem, foram para o Inferno.
Quando o Virgílio não está, entrega-me aos cuidados da acólita de Lúcifer. Lúcifer gozava de autoridade, privilégios e regalias concedidos por Deus e acabou expulso do paraíso por lhe querer tomar o poder. No ginásio, a acólita assume o comando do que me sobra de músculos, com impulsos motivacionais chapa-5. Debaixo daquela angelical batina branca de querubim fofinho, nasce uma cauda com ponta em seta vermelho-cáustico (pois claro!), e cornichos pontiagudos.
Nesta fase do treino, já a minha alma escolheu a virtude da vergonha. Só isso justifica que não tenha ainda desistido, mesmo depois das muitas ameaças não cumpridas ao longo dos anos a que o Virgílio responde, com escárnio, que pelo menos sou consistente, relembrando-me do pecado da gula e de quantas calorias tem um croissant francês com Nutella.
O meu paraíso prometido já se esvaiu. Da presunção das pernas tonificadas já só quero ir para casa tomar um banho e restabelecer a convicção de que, em algum momento, algum dia, neste ou noutro universo que ainda esteja por criar, noutra galáxia, noutro cosmos, infinito e mais além, os resultados virão.
Continuo crente.
(Escrevo isto em plena época de Festas. Tenho o inferno garantido, portanto. Ou talvez não. Com tanta penitência a que me tenho sujeitado, possivelmente quem arderá nas chamas de um inferno vermelho-corrosivo será o Virgílio, a acólita de Lúcifer e os crentes que me observam e que acham que eu podia – e devia! – fazer mais.)

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